Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-05-2012

SECÇÃO: Opinião

ERA ASSIM ANTIGAMENTE

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Continua a ser minha intenção mexer com a memória da gente da minha geração quiçá um pouco adormecida e também levar ao conhecimento daqueles que pouco ou nada sabem acerca do antigamente e dos tormentos que sofreram os nossos antepassados para que todos nós estejamos hoje a viver embora apreensivos num mundo substancialmente melhor.
A carne, era coisa que raramente ia à mesa dos pobres não era porque esses pobres não gastassem dela só que esse direito era-lhe vedado por razão de ordem económica.
Conheci uma família a quem cedo a adversidade lhe bateu à porta devido ao falecimento do chefe da casa. Então a mulher e os três filhos de tenra idade ficaram à deriva na vida e como tinham uma ninhada de chinos ou porquinhos da India que se reproduziam com facilidade há que comê-los à falta de outra coisa e assim se arrastou durante anos essa situação.
Essas crianças acossados pala fome tinham por hábito à hora do almoço ir espreitar timidamente à nossa porta, então a minha mãe sempre solidária para com os sofredores que sentiam no corpo a maldita fome conseguia sempre qualquer coisa para desougar as ditas crianças, embora os nossos recursos como é obvio tivessem algumas limitações.
Ainda hoje sinto orgulho e alguma comoção quando alguém já idoso como eu se refere à minha mãe como pessoa bondosa e amiga dos mais pobres terminando por dizer com algum exagero” matou-me muitas vezes a fome”…
Também os efeitos da segunda guerra mundial se sentiu no nosso país dado que em certa altura os alimentos passaram a ser racionados através de senhas. Se bem me recordo o meu pai escondia o milho debaixo da ramasca das videiras para despistar os fiscais e os bufos Salazaristas…
Havia gente que andava descalço especialmente crianças e os que tinham calçado usavam normalmente botas de cabedal grosseiro soladas a pneu e untadas com sebo, socos, socas e chancas. Quando a roupa eram as possíveis, as calças de alguns trabalhadores tinham tantos remendos que não se sabia qual o pano original.
Apesar de tantas vicissitudes, tantas canseiras a gente desse tempo aparentava ter alegria e cantavam o dia inteiro. Era lindo de se ver e ouvir as pessoas homens e mulheres a cantar em grupo enquanto executavam a árdua tarefa da trabalhar a terra ajudando-se mutuamente em franco espírito colectivo, é que essas pessoas não tinham mordomias nem grandes ambições e nem sequer tempo para pensar em stress. Hoje uma frase muito vaga.
Com o passar do tempo o nosso povo rural foi perdendo o hábito ancestral depois da ceia alegre e chilreada fazer-se a reza costumando para que o senhor nos livre do inimigo. Rezava a mãe o terço com ansiedade que já seus pais outrora tinham tido e em tom respeitoso e comovido respondiam os filhos com bondade, “Avé Maria cheio de graça o senhor é convosco”…” Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores”…
Muito mais havia a dizer referente às lides da mulher dentro de casa, todavia outros trabalhos a esperavam diariamente. Não era fácil abastecer a casa de água porque os cântaros ainda eram de madeira e como tal muito pesados e ainda porque as fontes, minas e poças nem sempre ficavam perto. De tempo-a-tempo era preciso roçar mato para fazer a cama dos animais era um trabalho pouco agradável porque o tojo arnal picava que se fartava.
No verão o vinho parecia caldo, então era levado à mina e aí posto a refrescar ou então havia umas garrafas revestidas com serapilheira constantemente molhadas para o dito vinho se manter fresco. “ Era assim antigamente…”

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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