Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-04-2012

SECÇÃO: Opinião

ERA ASSIM ANTIGAMENTE - III

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Estamos de volta para continuar a referir a falta de condições que havia na grande maioria das casas antigamente.
Muitas delas eram feitas de pedra não trabalhada e daí a existência de buracos por onde entrava o frio vindo do exterior.
Outras havia que nem sequer tinham soalho o piso era em terra batida de quando em quando varrido com vassouras de codeços ou giestas.
Outras havia que não tinham divisões interiores quer fosse grande ou pequeno o número de pessoas que nelas habitavam, conheci uma família que por não ter casa viviam numa corte partilhando esse espaço com um pequeno rebanho de ovelhas e essas pessoas talvez por questão de humildade ou resignação mantinham sempre um ar feliz, um sorriso dócil certamente para esconder um fogo atroz que lhe queimava a alma.
Também havia casa que por baixo do soalho tinham as cortes do gado e até o quinteiro do porco, mas com o reco o caso era mais complicado porque alem de cheirar mal eram focinhudo.
Não havia vidros, tanto as portas como as portadas das janelas vedavam mal a entrada do frio dos longos e rigorosos invernos que se faziam sentir antigamente. Primitivamente a telha era de meia cana e só depois veio a telha Marselha assente sobre uma estrutura de ripas de madeira. Quanto a forro, umas casas tinham outras não.
A lareira que apenas tinha uma almofada em pedra para a lenha não assapar era acesa todos os dias para fazer as refeições já que não havia, nesse tempo, nem luz nem gás, mas não era tarefa fácil manter o lume aceso porque os pobres nesses tempos nem de lenham eram fartos. Sendo a lenha o único combustível obviamente que tudo servia para queimar, os montes eram palmilhados diariamente em busca de ramas, candos, munha, pinhas, canhotos, mas por vezes buscava-se essa lenha bem longe de casa, então as mulheres para rentabilizar a caminhada traziam grandes feixes de lenha à cabeça e ainda uma gabela debaixo do braço chegando a casa derreadinhas dizendo mal da vida pois o seu dia de trabalho nunca se ficava por aí.
Se as casas desse tempo não tinham condições já referidas, é de crer que também não tinham casa de banho. É evidente que não, algumas tinham um casulo de madeira do tipo latrina mais ou menos apropriado para fazerem as necessidades, só que os seus utilizadores tinham que ter alguma pontaria porque defecavam de coçaras à laia de caçador, mas outras havia que já tinham uma bancada em madeira com a respetiva abertura para sentar o traseiro, contudo quer umas quer outras lá no fundo havia uma cova cheia de mato que com o tempo se transformava em estrume que dava para utilizar nos quintais de onde saiam óptimos legumes e vegetais que eram o sustento da família.
Os casebres que não tinham as tais casinhas é obvio que as pessoas lá se amanhavam por qualquer lado atrás das paredes ou num canto qualquer.
Nesse tempo as mulheres ainda não usavam calças e como as casas eram frias e os invernos rigorosos a tendência era toda a gente à noite se chegar bem perto do lume e assim as mulheres iam ganhando umas pintas vermelhas nas pernas que se chamavam murras, que davam às mulheres muito mau aspeto e tornavam feias umas pernas bonitas.
A alimentação sempre foi o principal problema na casa dos pobres através dos tempos, ontem, hoje, amanhã e assim será pela vida fora, só que antigamente não haviam mordomias para ninguém se tivermos em conta o que diz o velho ditado, “quando a fome é muita, não há ruim pão” e as pessoas lá iam comendo o que generosamente a terra lhes dava.
É por isso que nesses tempos não havia terras incultas já que as crianças eram habituadas pelos pais e desde muito cedo começavam a ajudar os seus progenitores a granjear as grandes lavouras das quais apenas recebiam um terço pelo trabalho prestado.
(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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