Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-04-2012

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - VIII

AINDA “O DEMOCRATA”
“O Democrata” no seu nº 4, de 12 de Janeiro de 1911, ainda que se dizendo não apologista da violência, noticiava o assalto e consequente destruição de três jornais diários da capital: “O Liberal”, o “Diário Ilustrado” e o “Correio da Manhã”, este defensor d’essa negregada canalha jesuítica”, concluindo que “no caso que se trata tudo foi preciso”.
Aproveitava para se dirigir ao seu adversário da imprensa local, Jornal de Cabeceiras, apodando-o de “Órgão de caciques, escrocs, devassos e pantomineiros intrujões”.
O visado não reagiu nem mesmo quando, em 16 de Março seguinte, “O Democrata” voltou à carga a propósito da destruição de um outro diário do Porto, numa local intitulada “Com a Ponta do Pé” e que dizia: “Um reles pasquim que para ahi se publica, e que o povo cabeceirense ainda consente que appareça à luz”. O convite à destruição do “Jornal de Cabeceiras” era bem explícito. Mas…

COM QUEM FERROS MATA…

Na noite de 6 para 7 de Junho, as instalações de “O Democrata”, agora sitas na Ponte de Pé, julgamos que nos baixos da casa do seu director, Sr. Eugénio Machado Camelo, foram vandalizadas por assaltantes desconhecidos. Tendo arrombado as portas quebraram o prelo e empastelaram o “typo”.
A notícia saiu com destaque no “Jornal de Cabeceiras”, do dia 11 daquele mês, declarando-se “não apologista destes abusos”, mas não se coibindo de chamar a atenção para “a linguagem provocante e insultuosa que usava aquele jornal (…), defendendo miserávelmente uma seita política local que (…) foi sempre geralmente mal vista e desprezada neste concelho”. Afirmava ainda que era “péssimamente escripto e redigido numa linguagem baixa e demolidora, tendo à frente creaturas absolutamente desprovidas de senso moral”.

DESCRÉDITO DO ADMINISTRADOR

A reacção da administração local foi brutal. Mandou vir polícias de Braga e em poucas horas foram presos o Padre Domingos, seu irmão José Maria, funcionário judicial, Alberto César Leite, escrivão e Jerónimo Ribeiro da Silva, antigo oficial de diligências. Foram levados para Braga debaixo de pesada escolta policial, mas quase de seguida mandados libertar pelo Ministro da Justiça que viu no caso uma simples vingança política do administrador do concelho, Florêncio Lobo. “O Mundo”, diário de Lisboa, de grande circulação no país, deu voz aos protestos dos que afirmavam que “o Sr. Dr. Florêncio Lobo (…), que, depois de ter sido progressista, franquista e reaccionário se fez republicano e, não podendo encarar a sangue frio os verdadeiros republicanos desta terra, a pretexto de um assalto à tipografia de um jornal que hoje se coroou de republicano, mas que sempre foi um verdadeiro Talassa e reaccionário, os mandou prender e conduzir a Braga no meio da força armada”.
O certo é que os agora libertados chegaram à vila num cortejo que se organizara em Rossas e engrossara em São Nicolau, ao som duma banda de música e do estralejar de foguetes e bombas e dos aplausos da multidão.

O FIM DO DEMOCRATA

Não tenho dados precisos sobre se “O Democrata”, após este incidente, se continuou a publicar. A ficha e a colecção existente na Biblioteca Pública e Municipal do Porto somente fazem referência aos nºs 1 a 15, sendo este último de 30 de Março de 1911.
No entanto, o 1º número de “O Cabeceirense”, datado de 19 de Outubro de 1913, escreve laconicamente: “Suspendeu a sua publicação este nosso colega local”.
Vai ser substituído por outro semanário republicano: “O Correio de Cabeceiras”.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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