Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-03-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

PATRIMÓNIO CABECEIRENSE

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António Felício Leite – A origem do Folclore em Cabeceiras de Basto

Caros leitores, conforme vos disse na edição passada, cá estou a escrever a crónica que não saiu no jornal anterior devido a motivos tristes com que não contava e aos quais dediquei a página habitual. Dediquei-a às pessoas que “fizeram parte” da minha existência durante muitos anos e que, inesperadamente, desapareceram do “universo” da Raposeira, contribuindo assim para mais um “silêncio profundo” com a perda recente de duas pessoas queridas. Achei que, a melhor maneira de me “despedir” delas seria deitar no papel aquilo que estava a sentir e prestar-lhes a minha humilde homenagem.
Hoje, não vou falar das “Jóias”, vou sim, falar um pouco sobre património cultural, mais propriamente sobre o folclore e a sua origem, em Cabeceiras de Basto. E ninguém melhor para conversar sobre este tema tão interessante como o cabeceirense António Felício Leite. Um homem mais conhecido por “Felício da Pertença”.
Já há muito tempo, tinha na ideia procurá-lo para que, me falasse sobre a origem do folclore mais especificamente, o da nossa terra. Esta curiosidade e interesse em relação ao Felício, foi porque sempre o vi, desde que me conheço por gente, envolvido nestas danças. Ao olhar para as fotografias mais antigas, lá estão o Felício e o Zé, ambos funcionários da Câmara Municipal, já reformados e outros irmãos.
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Esta família dos da “Pertença” é muito grande e conhecida dos cabeceirenses especialmente, pela sua envolvência na arte das danças tradicionais.
Eu, embora não pareça também possuo gosto pela música popular tradicional e, modéstia à parte, até lhe dou um jeito na dança, herdado talvez, das minhas tias, Emília, Helena e Augusta que mora na Faia, a tia Cândida e o meu padrinho e tio António Sousa Campos, da Raposeira (colatrés) infelizmente, já desaparecido. Moravam na altura na Cachada, na quinta do senhor Dr. Moutinho, que Deus o tenha. Ao meu pai não saímos porque não é muito dado a danças. A minha saudosa mãe apesar de ter um espírito mais alegre, pelo menos a contar as histórias do antigamente, não me lembro de a ver dançar. Enfim, a alguém saímos porque, os meus irmãos, entre eles a Otília, a São e o Joaquim ao entrar numa dança, quando entrávamos ia tudo à nossa frente. Agora dançamos menos.
Como atrás referi, um dia destes, encontrei o senhor Felício e perguntei-lhe se me concedia algum do seu tempo para me falar um pouco da sua vida ligado ao folclore. Ele, simpático e prestável como sempre e, em especial para falar destas coisas antigas, acedeu muito simpaticamente, trazendo consigo fotos bastante antigas onde se podem ver, com toda a clareza, a sua presença e de muitos outros que, reconheci. Infelizmente muitos rostos já desapareceram! Fiquei feliz ao ver as fotos! Para mim, uma foto dessas, a preto e branco, é um pequeno tesouro. Fazem parte do registo de um determinado momento importante. Nelas ficaram os rostos daqueles que contribuíram para enaltecer este Património Cultural da nossa Terra, que é o folclore.
Nas instalações do Jornal, iniciamos uma amena cavaqueira que, como deveis compreender não poderei escrever tudo porque, seria impossível devido ao tamanho da página mas, procurarei elucidar os leitores do essencial.
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O António Felício Leite, de setenta e cinco anos, é filho de Manuel Leite Rolo e Emília Batista, do lugar da Pertença, desta freguesia de Refojos.
É casado com a Maria Teresa Teixeira, filha dos saudosos Clementina e António Teixeira, na época oriundos de Riotrutas, freguesia de Outeiro. Têm três filhos. Augusta, Cândida e António.
F. C. - Senhor Felício há muito tempo talvez, desde pequenina me habituei a vê-lo nas andanças musicais e tradicionais aqui na nossa freguesia, você e os seus irmãos mas, realmente o que mais me chamou a atenção foi você. Pode me contar como foi que começou essa paixão pela dança e desde que idade?
F. L - Ui, D. Fernanda - há muito tempo – tinha para ai os meus vinte e dois anos. Já lá vão mais ou menos uns cinquenta e três anos.
F. C. - Para o Felício as danças não tinham segredo, sempre dançou nos bailaricos mas, como surgiu a ideia de formarem um rancho e, quem foi que deu a ideia? Já havia a Professora D. Maria “Cambada”?
F. L. - Olhe, foi assim:Não sei se se lembra que a D. Maria “Cambada” era professora e, morava ali para os lados da Cancela. Um dia foi ter com o Mestre da Música da Banda de Cabeceiras, o senhor António Mendes, sobre a possibilidade de se formar um rancho. Levava com ela uns papeis nas mãos para lhe mostrar e ver se ele seria capaz, como homem da música a sair dali alguma coisa. Respondeu rapidamente que de danças não percebia nada mas, de músicas era com ele. Ela tanto teimou que o senhor António Mendes lá deu a ajuda. “Então vamos lá ver se conseguimos “engrenar” com isto!”, concordou ele para a D. Maria.
Ela apresentou-lhe um papel onde estava o malhão e, depois com a letra acertaram a dança. Quem também ajudava o senhor António era aquele rapaz que, casou com a Isaura de Conselheiros, o Ilídio que, são emigrantes, em França e os pares já formados entre eles. Eu, que já tinha uma certa prática, mostrei mais ou menos como se davam as voltas a dançar o malhão. A D. Maria e o Mestre gostaram e foi assim que se deram os primeiros passos no início daquele que, viria a ser o popular rancho da nossa terra.
F. C. - Felício, onde faziam os ensaios?
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F. L. - Olhe, faziam-se em vários lugares, entre eles no lugar da Cachada, desta freguesia, mais precisamente na casa do senhor Santos. Um dia estando nós na sua casa para os habituais ensaios, constou-se que se passava qualquer coisa em Pielas relacionada com danças. Ficamos curiosos e, perguntamos o que seria que se estava ali a passar. Não resistimos e, fomos espreitar para ver com os nossos olhos o que seria aquele burburinho. Fomos lá ter! Não sei se conhece a Casa de Pielas que, tinha um terraço muito largo e fechado em frente à moradia, onde estava o Dr. Sampaio de Braga, a explicar a dança.
Do lugar onde estávamos a observar sem ninguém nos ver, pusemo-nos a apreciar e vimos que as danças eram feitas de uma maneira diferente das nossas a que, não estávamos habituados.
F. C. - Ó Felício, a quem é que o doutor Sampaio de Braga estava a explicar a tal dança que era desconhecida para vós?
F. L. - Ao pessoal que já lá andava como por exemplo; a Zeza Moura, a Maria e a Lena “ministras”, O Zeca Moura, a Mariana, a Palmira do “Fidalgo”, a Lena do “Ricardo”, a Cândida da Ribeira, a Isaura da “Tecedeira”, o Juca, o Izidro, entre outros. Se me não engano ainda chegaram lá a andar as duas irmãs do Arcipreste Barreto, já falecidas há muito tempo. Nós, naturalmente ficamos entusiasmados com aquilo porque era uma coisa diferente do que estávamos habituados. Sinceramente gostamos muito daquilo que vimos!
Viemos embora. Na segunda-feira, o meu irmão veio à feira semanal e lá, falou com alguém que andava no grupo de Pielas e, esse alguém disse que, se também quiséssemos participar, para irmos ter a Conselheiros na quinta-feira à noite para ensaiar. O local seria na Quinta do Coronel Pacheco, casado com a D. Clotilde Pacheco, filha do monárquico Padre Domingos Pereira. Essa quinta, tinha como caseiro, o senhor José de “Conselheiros”, o qual tinha muitas raparigas e rapazes. O meu irmão chegou a casa entusiasmado e comentou: Ó Felício, fomos convidados para ir para o rancho!. Que rancho? Perguntei-lhe eu. - Aquele que nós vimos em Pielas. Disseram para aparecermos lá para ensaiar com as raparigas de Conselheiros e as da Ribeira, sobrinhas do senhor José , filhas do Alfredo da Ribeira e outros atrás referidos que, também já lá andavam. Ensaiava-mos numa sala, à luz de petróleo!
F. C. - Isso é que era engraçado, ó senhor Felício! Estou a imaginar aquele grupo de rapazes e raparigas a dançarem à luz do petróleo.
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F. L. - Lá fomos ter! O meu irmão era para tocar viola, eu mais outros colegas que também foram, era para dançar.
Já naquele tempo, o que se usava no fim das “serviçadas” das lavouras era cantar ao som duma viola braguesa e, dançar o “verdegar” ou a cana verde e, não é bem aquilo que nós usamos agora.
Quando fomos para Conselheiros ensaiar, por acaso, já conhecia as danças antigas porque dançava muito em todos os sítios. O grupo ficou admirado e entusiasmado e pediram para eu ser o ensaiador. Expliquei-lhes o “verdegar” e a “cana verde” que era o que os antigos usavam. Não havia mais nada, eram violas “braguesas", cavaquinhos e uma concertina que, era importante que houvesse em cada rancho.
O Dr Sampaio de Braga depois de nos ensaiar disse: - É isto mesmo que aqui têm de fazer!
- Sabe, D. Fernanda agora usa-se muita coisa… muita coisa… e, cada um faz o que quer, mas as antiguidades são estas. Depois o doutor veio cá diversas vezes e uma das vezes veio ter comigo e disse: - Ó Felício, vou-lhe dizer que, como é o ensaiador vai ficar responsável por tudo.
F.C. - Era muita a responsabilidade senhor Felício, que lhe ficou nas suas costas. Como se desenrascava mesmo sendo uma coisa de que gostava muito?
F.L. - Olhe, eu ia para a cama e punha-me a pensar como é que aquela rapariga havia de dar as voltas com aquele rapaz.
F. C. - Como é que os enquadrava os pares? Tinha de formar duplas que encaixassem bem em todos os movimentos necessários, não é verdade?
F. L. - Eu, explicava embora também tivesse o meu par para dançar. Tive sempre! Dançava com o meu par para mostrar aos outros como se fazia. Estava sempre atento. Assim estava o rancho formado, com a orientação da D. Maria que, tinha verdadeira paixão pelas danças e cantares tradicionais. Tanto que, à custa dela, fez as roupas que foram usadas. Ela era professora em Alvite. Nunca tive problemas, embora tivesse um “feitio especial”. Era preciso saber “lidar” com ela. Muitas vezes não podia estar nos ensaios mas confiava no meu trabalho e no dos participantes. Naquele tempo dava-nos vinte escudos a cada um nas participações que, fazíamos porque tínhamos de comer quando íamos actuar fora. O que era bem bom, vinte escudos naquele tempo!
O rancho colaborou com a banda, num teatro aqui em Cabeceiras de Basto e foi um sucesso! Era convidado para ir a muitos lados e, nunca ficamos mal. Éramos muito apreciados.
F. C. - Verifico Felício, pelas suas palavras que teve uma vida muito preenchida quer pessoal e profissional, quer na arte da tradição, neste caso o folclore. Contribuiu para o nascimento do Rancho Folcórico, juntamente com outros colegas, com o apoio importantíssimo da D. Maria “Cambada” e do Maestro da Banda Cabeceirense, o senhor António Mendes, que hoje tem o seu nome e, muito justamente, na Casa da Música, nas Pereiras, na antiga cadeia do concelho. Foi um grande passo dado, no meu entender e, certamente de todos os cabeceirenses para a preservação das nossas origens. Pena foi que não ficassem seguidores do original Rancho da D. Maria Cambada. Segundo sei, durou bastantes anos sob a direcção da Professora até que, deixou de existir. O que foi uma grande perda!
F. L. - Realmente assim foi. Só muitos anos mais tarde é que se iniciou um novo e, a Fernanda lembra-se disso porque até foi na Casa do Barão, na Praça da República que teve origem. Ainda durou algum tempo. Sempre andei envolvido nas danças e cantares tradicionais da minha terra que, para dizer a verdade era mais participado pela juventude dos lugares da freguesia de Refojos.
F. C. - Senhor Felício muito teria de escrever, só para contar o que conversamos mas, tal não é possível porque não haveria espaço para as fotografias que tão gentilmente me emprestou. Penso que deu para perceber o entusiasmo com que se dedicou à arte da dança que, não é para qualquer um. Tem que se ter um jeito natural que, já nasce com a pessoa e, isso aconteceu com o Felício e com todos aqueles e aquelas que foram seus companheiros. O Rancho da D. Maria 'Cambada' no qual todos vós participastes estará na memória de todos daquela época que, ainda estão vivos e, com toda a certeza farão parte do Património Imaterial do Folclore de Cabeceiras de Basto. Um bem haja a todos quanto contribuíram para valorizar a cultura da nossa Terra!
fernandacarneiro52@hotmail.com




Por: Fernanda Carneiro

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