Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-03-2012

SECÇÃO: Opinião

A MINHA ADOLESCÊNCIA RECORDAÇÕES QUE NUNCA ESQUECEREI

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O meu pai ficou desesperado, preocupado e nervoso, com medo que o proprietário da madeira lhe ralhasse por chegar muito atrasado.
Cheguei a este mundo no dia 28 de Junho do ano de 1946 e tive a ventura de nascer no seio de uma família de classe pobre onde imperavam valores cívicos e religiosos que, desde cedo, me foram profundamente incutidos. Neste contexto fui também ensinado a ser humilde e educado, que hoje muito me orgulho. Hoje esta educação não existe, vê-se simplesmente os filhos tratarem mal os pais. Ora, concluída a escola primária, não tive outro caminho senão trabalhar na agricultura de sol a sol, dia após dia, sem qualquer descanso. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, posso afirmar que passei fome, no entanto a alegria sentida naquele tempo ajudava e muito a esquecer a fraqueza que sentia, mas não havia nada a fazer.
Quando o meu pai comprou uma junta de bois, adquiriu na Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto uma licença que o autorizava a carrear com a referida junta de bois. Aí já foi possível melhorar a alimentação, porque um dia de trabalho com o carro, a junta de bois e duas pessoas, rendia ao final do dia 100$00 na nossa moeda antiga. Certo dia, o senhor Gaspar Miranda da Casa de Paredes solicitou ao meu pai que fosse transportar madeira para o lugar de Agra, concelho de Vieira do Minho. Como a distância da sede da freguesia de Refojos a esta localidade era enorme para fazer este percurso a pé, o senhor Gaspar Miranda disse ao meu pai: “Eu encosto a traseira da camioneta à borda,” junto à antiga casa do Gervásio, hoje dependência da Caixa Geral de Depósito, “metemos o carro e os bois na camioneta e vamos todos.” Neste sentido foram colocadas proteções nas partes laterais da camioneta, e presos individualmente levámos os bois para cima do veículo. Porém, quando os animais sentiram o soalho da referida camioneta debaixo deles, deram um enorme salto e atiraram-se abaixo desta, rebentando as referidas proteções e fugiram pelo campo de seco adiante. Como os bois eram muito mansos e obedientes, fui buscá-los, mas levá-los novamente para cima da camioneta nem pensar. Esta situação, bem pensada e analisada, podia trazer uma enorme tragédia na eventualidade de os animais terem entrado para a camioneta presos um ao outro, uma vez que ambos saltaram em simultâneo, um para o lado direito e outro para o lado esquerdo. Face ao sucedido, iniciámos a viagem a pé e só chegámos ao lugar de Agra às 11h da manhã.
Como este trabalho se prolongou por muitas semanas, saíamos na segunda-feira às 4h da manhã para chegarmos ao local de trabalho por volta das 8h e só regressávamos a casa na sexta-feira à noite. Na continuidade desta tarefa e numa célebre segunda-feira, caminhava eu à frente dos bois, conduzidos pela soga numa mão e munido de uma lanterna de luz de petróleo na outra, e o meu pai seguia à retaguarda. Antes de chegarmos à reta de Casares, inesperadamente um boi caiu a uma levada com mais de 2m de profundidade. Como a levada era estreita o boi ficou atrancado e não se conseguia mover. Tanto eu como o meu pai ficámos numa aflição nunca vista sem saber o que fazer, pelo que fui pedir ajuda à primeira casa que avistei. Apesar de estar a amanhecer, os moradores ainda estavam a dormir, no entanto, após dar conhecimento do sucedido veio um homem para se certificar o que na realidade se passava e apenas disse: “Eu já volto.” Cerca de 20 minutos depois chegou acompanhado de mais 3 homens, munidos de duas trancas e duas cordas de atar os carros. Estes homens meteram as trancas por baixo do boi, ataram as cordas às trancas e disseram: “Todos ao mesmo tempo, acima!” e a peso trouxemos o boi à superfície. É de louvar a atitude destes homens, porque levantar um boi com cerca de 500kg não foi tarefa fácil, mas conseguimos atingir o nosso objetivo. A viagem sofreu um atraso de mais de uma hora, apesar de termos seguido por um atalho que existia no início da reta de Casares.
O meu pai ficou desesperado, preocupado e nervoso, com medo que o proprietário da madeira lhe ralhasse por chegar muito atrasado. Neste sentido, eu disse-lhe “Ele é uma jóia de homem, você vai ver como ele não lhe diz nada.” Quando chegámos o meu pai informou-o do sucedido, tendo o Sr. Gaspar Miranda dado um enorme sorriso e disse: “Sr. Avelino, ninguém ficou ferido, não se preocupe que quando for meio-dia bebe mais uma tijela de vinho e já fica calmo. O meu pai ao ouvir estas palavras ficou com outra dinâmica e sentiu uma enorme alegria.
O trabalho do campo era árduo, cansativo e desgastante, aliado a estas anormalidades que ficaram gravadas na minha memória para sempre, por isso vivi momentos da minha adolescência de aflição, tristeza e sofrimento. Recordações estas que nunca esquecerei.
Cabeceiras de Basto, 09 de Janeiro de 2012

Por: Manuel Sousa

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