Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-03-2012

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - VII O DEMOCRATA (1910 - 1913)

Intitulando-se “Órgão do Partido Republicano de Cabeceiras de Basto” viu a luz do dia “O Democrata”, novo semanário cabeceirense, a 22 de Dezembro de 1910. É o 1º representante da imprensa republicana no nosso concelho. É seu proprietário Manuel Alves Pereira, do Samão. A direcção está entregue a Eugénio M. Camelo e o editor é Domingos José de Magalhães. A redacção e administração são na rua Jerónymo Pacheco, artéria onde está instalada a tipografia que o compõe e imprime. Aparece com 4 páginas a 4 colunas. A assinatura é a de todos os semanários: 1.500 reis ano, para o continente e 3.000 reis para o Brasil, em moeda forte. O número avulso é distribuído a 40 reis. A linha de publicidade é a 30 reis. Só falta dizer que se publicava à 5ª feira.
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Temos à nossa frente o nº 1.
A peça-base é o Editorial, não assinado, e que se intitula

“O NOSSO CAMINHO”
“Democratas e patriotas por educação e pelo nosso modo de sentir, não fomos buscar o título d’este modesto mas sincero jornal ao acaso, mas pelo contrário foi escolhido como a expressão exacta dos nossos sentimentos.
O nosso programa será a defeza dos nossos ideais e da Pátria.
(…) Gostamos de discussão e n’ella com prazer nos lançaremos; (…) mas porque nos repugnam ataques a individualidades, simplesmente por ódio ou inimizade pessoal, nunca o faremos, como nunca tocaremos na vida privada de quem quer que seja”.

Palavras bonitas logo desmentidas nas páginas seguintes:

“Nós e Elles”
“Moralistas, acérrimos defensores da nossa terra e dos direitos dos cidadãos, defrontamo-nos com os gamellistas, ferozes defensores dos seus ilegítimos interesses.
(…) O Povo há-de conhecê-los – os caciques – que já nada podem, porque a República os não admite, nem se quer emporcalhar, tendo-os no seu seio”.
E termina, peremptório: “Morallistas – Gamellistas – Nós e Elles”.

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Nesse mesmo 1º número é descrita a “Estátua de um cacique monárquico. No alto do pedestal e dentro de um grande gamello, levanta-se orgulhoso e estupidamente imponente, um homem de côroa aberta na cabeça, de bigode refilão e de faixa à cinta, empunhando um grande cacete na mão direita e deixando cahir da bocca, quasi desdentada, e por entre as unhas da mão esquerda, que está roendo, uma espessa baba repugnante como a dos répteis. A sua phisionomia, de cor térrea e já encarquilhada, não exprime senão o vício e o crime. O seu olhar contrasta por completo com o seu porte orgulhoso, pois é mortiço e desvairado como o das meretrizes já gastas”.
O autor, receando que o bom povo cabeceirense não entendesse quem era o cacique figurado, acrescentara na base da estátua alguns quadros onde figura o mapa do concelho de Montalegre. Mas não havia um único cabeceirense que não soubesse que o Padre Domingos era o alvo… Estavam desmentidas as boas intenções do editorial.

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Os monárquicos da terra – muito especialmente os regeneradores - já que os progressistas se passaram com armas e bagagens para junto dos novos senhores - , vão ser alvo de ataques, dichotes, insinuações. A palavra “gamello” e “gamellista” aparece em todos os artigos; anunciam-se casos bonitos nas irmandades e confrarias; rejeita-se o pedido de eleições municipais reclamadas pelos monárquicos; louva-se o diário “A Pátria” por sobre o desfalque na Câmara ter escrito: “Pois se havia por lá felizardo que, tendo ocupado elevados cargos no tempo da monarquia, conseguiu por muitos anos viver à larga do dinheiro dos cofres públicos”; mas, curiosamente, já se publicava o seguinte aviso
“Ao Sr. Administrador do Concelho
A obra de saneamento tão bem iniciada parece que vai afrouxando. Cuidado! (…) Cuidado, sr. administrador! Não afrouxe! O povo quer que seja tudo posto a limpo”.

CONSTA?

Era o título da rubrica, não assinada, que vai constar de todos os números do “Democrata” que conhecemos. Pois a do 2º número, tem cerca de 20 “charlas” todas sobre “o banquete realizado no Escacha (hotel)”, em honra do “chefe dos gamellistas cabeceirenses” (Dr. Francisco Botelho) em que também é ridicularizada a figura do “republicano João Falcão de Magalhães”, insinuando que este “foi dos que promoveram o jantar dado em honra do cacique-mor e que quer, a todo o custo, manter o mando” do cacique.
Também contesta a lista dos republicanos que o “Jornal de Cabeceiras” tinha recentemente publicado, afirmando que “entre elles (só) três ou quatro nomes (são) cidadãos republicanos”.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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