Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 27-02-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (152)

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O BARÃO DE BASTO

Barão é um título nobiliárquico a que se segue o de visconde. De toda a classe, aquele de que gostei mais até hoje, foi do Barão von Trapp (Georg Ludwig von Trapp), uma das personagens mais importantes do inesquecível filme Música no Coração (The Sound of Music). Até pareço um romântico! Há, porém, por aí muito boa gente que afirma o contrário, até dizem que eu sou um sisudo, um cara de pau, e outras coisas assim.
Eles falam e a caravana segue.
Sendo verdade que continuo a alimentar a ideia, mais ou menos fixa, de ainda vir a escrever uma história, algo volumosa, com este mesmo título, ou outro com sentido semelhante, vou arriscar aqui, assim a modos de quem pretende registar a marca, um cheirinho sobre a trama que trago em mente.
Sabendo também, há já muito tempo, que o Barão de Basto se cruzou, ao longo da vida, com alguns dos meus antepassados, mais se tem avivado, em mim, o alento para seguir por diante com esse meu ambicioso projecto literário.
Fale-se então, e antes de tudo, um pouco sobre a história da casa e daquele que foi o seu ilustre proprietário, durante as primeiras décadas do século passado, do século XX.
A Casa do Barão, foi mandada construir, nos anos de 1755-1758, pelo Abade Frei Francisco de São José, do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, para aí funcionar o Tribunal do Couto de Refojos de Basto.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, o mosteiro e todos os bens que o integravam, incluindo a casa do tribunal, são vendidos em hasta pública e comprados por João António Fernandes Basto. Em 1853, a casa do antigo tribunal é destruída por um incêndio. Logo reconstruída, muito naturalmente com interiores modificados, já não teriam como finalidade as secções de uma qualquer instituição como fosse um Tribunal.
Entretanto, em 24 de Agosto de 1873, aquele que a havia comprado em hasta pública, o João António Fernandes Basto, morre, e a casa passa, como herança, para um seu sobrinho, Alexandre José Fernandes Basto, que a transforma em hospedaria. Em finais do século XIX, a casa é remodelada e redecorada e passa a ser habitação de Júlio José Fernandes Basto, o Barão de Basto, que era um dos três irmãos de Alexandre Basto.
(Ver em http://www.baixotamega.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=...)
A minha mãe, a Senhora D. Margarida da Conceição Abreu da Costa, nasceu a 17 de Fevereiro de 1922, filha de uns caseiros da quinta de Chelo. Chelo é uma das muitas quintas que ao tempo existiam, algumas ainda hoje existem, muito poucas por sinal, na freguesia de Refojos do nosso concelho de Cabeceiras de Basto. Situa-se muito próximo do lugar de Lameiros, um pouco abaixo e para a esquerda do Casal de Ranhados.
O avô paterno da minha mãe, o Senhor João Manuel de Abreu, que tinha a alcunha de “Canau”, da qual se orgulhava, é que era um dos caseiros do Senhor Barão.
A minha mãe lembra-se muito pouco da sua permanência em Chelo, já que a família, os pais e os avós paternos, se mudou para a quinta de Santo Antonino quando ela tinha pouco mais de três anos.
Contudo, ela continua a dar voz aos relatos de seu pai sobre a forma como eram transportadas as pipas de vinho, desde Chelo até à Praça Barjona de Freitas (muitos anos mais tarde Praça de República). Conta que as pipas, depois de descarregadas dos carros de bois, eram empurradas à força de pelo menos três homens, em cima de pequenos roletes de madeira, até ao interior da grande adega que ocupava todo o rés-do-chão, que dava para a estrada que passava em frente e subia na direcção da Raposeira.
Sempre, desde a minha mais tenra infância, tenho ouvido falar na quinta de Chelo. Primeiro, era o meu avô, depois, a minha mãe. Esta não deixa passar uma única data de aniversário sem que faça uma referência àquele lendário lugar. Que os Senhores de Chelo eram patrões de duas grandes lavouras, a da Casa, cujos caseiros moravam ali, paredes-meias com os patrões, e a da Cruz, que ficava um pouco mais ao lado e para cima, junto das da Adega e do Ribeiro.
Há bem poucos dias atrás, enchi-me de curiosidade e alguma coragem e fui ver se descobria Chelo. Sabia apenas que ficava lá para os lados do Casal de Ranhados, um pouco para baixo.
Fazendo de conta que era um qualquer interessado na avaliação do prédio, perguntei a um popular com quem me cruzei, ali perto, naquela pequena recta que antecede a outra que termina na primeira rotunda da nova variante ao Arco de Baúlhe.
«Olhe, vira ali mesmo à esquerda, desce junto a esse grande muro de granito até ao fundo, e depois é à sua esquerda, não sei se conseguirá ver a casa, as silvas e o matagal vêm-se daqui, a casa fica lá para o meio, mas vá até lá, pode ser que consiga», disse-me o popular com a maior das solicitudes.
Muitíssimo obrigado, agradeci.
Desci, então, junto ao robusto muro de granito, eu gosto muito de muros de granito, se tivesse onde e posses para o fazer, mandaria construir também robustos muros de granito.
Cheguei ao fundo e tentei espreitar para a esquerda, de facto avistava-se lá adiante, a uns cem metros, talvez um pouco mais, a parte superior de umas paredes, nada de telhados. Encaminhei-me para lá, por cima de um talude que parece ter sido em tempos um caminho, mas que agora se vislumbra apenas um estreito carreiro por meio de um denso matagal. Peguei num pedaço de pau para apartar o mato para os lados e lá fui. Consegui, efectivamente, chegar junto das ruínas.
E que vi eu? As tais paredes de uma casa afidalgada, que tivera a forma rectangular, orientada de norte para sul, com uma das frentes para nascente e a outra para poente. A frente nascente, aquela que consegui ver, tinha, no piso do rés-do-chão, uma porta de entrada, ao centro, e três largas janelas de cada lado. No piso superior, tinha as mesmas aberturas que o rés-do-chão, ou seja, três janelas de cada lado, e uma porta que dava para uma sacada, ao centro, no mesmo prumo da porta de entrada do rés-do-chão. A avaliar pelas paredes de topo, que também têm aberturas de janelas, conclui-se que também tinha águas furtadas.
Vêm-se ainda vestígios de uma eira, de um alpendre e mais paredes em ruína, que deveriam ter sido das casas do caseiro.
Não sei quem será o actual proprietário da quinta de Chelo. Que deverá ter dono? Penso que sim. Mas que tudo está ao mais completo abandono, isso é uma realidade.
Um dos sinais mais evidentes da degradação da nossa agricultura é verem-se pequenos rebanhos, maioritariamente de ovelhas, pastando nos terrenos de quintas onde outrora havia muito milho e muitas uvas…
Nos campos da quinta do Ribeiro, via-se um pequeno rebanho!...

Por: José Costa Oliveira

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