Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-02-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (151)

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O VINTE E SETE

Quem é que não conhece a curva do vinte e sete? De todos aqueles que, de algum modo, estejam ligados, ou minimamente se interessem, pelo automobilismo, deverá haver muito poucos que a não identifiquem à primeira referência que sobre ela apareça, seja nos jornais, seja nas rádios, ou nas televisões.
A curva do vinte e sete ficou conhecida, aquém e além fronteiras, devido às classificativas do Rally de Portugal que tinham o seu ponto de chegada ali bem próximo, logo depois da saída da travessia do Rio Peio, a ponte da Ranha.
Mas, porque será que a emblemática curva, da não menos emblemática estrada que liga a Nacional 205 ao centro de Abadim, e dali prossegue até ao interior mais profundo da Serra da Cabreira, tem aquela simpática denominação? Devo referir que o vinte e sete é um daqueles números que fazem parte das minhas mais próximas preferência aritméticas, por norma de parceria com o sete e o treze. Sempre que me ocorre dar largas a um qualquer exagero, automaticamente me sai: «trezentos e vinte e sete!». «Já me disse, ou já me disseste, isso mais de trezentas e vinte e sete vezes, irra!». Costuma ser o meu mais frequente desabafo.
A denominação daquela curva resulta, como parece ser de alguma naturalidade, da alcunha do habitante que ali reside, na habitação mais próxima do seu traçado.
O cidadão, que se orgulha te tal alcunha, além do mais por a mesma ter ultrapassado fronteiras e corrido mundo, graças às provas automobilísticas que durante muitos anos por ali passaram, tem agora oitenta e quatro anos e completará oitenta e cinco no próximo dia três de Abril, nasceu a três de Abril de 1927. Também aqui se verifica alguma coincidência, mas adianto que o homem não tem aquela alcunha por ter nascido no ano de 1927.
Eu dei-me ao trabalho de investigar, a fundo, como sempre faço. E, no passado dia vinte e nove de Dezembro, aproveitando o facto de ser o antepenúltimo dia do ano de 2011 e de ao mesmo tempo estar uma bela tarde de sol, subi aquele pedaço de encosta e abeirei-me da casa, na tentativa de falar, pessoalmente, com o próprio.
Confesso que desconhecia, em absoluto, se o sujeito que procurava ainda era vivo, e, no caso de ainda ser vivo, se ali poderia ser encontrado. Estacionei uns vinte ou trinta metros antes do acesso que desce para a entrada da casa, e deparei-me logo com um jovem, aparentando uns trinta anos, ou pouco mais, acompanhado por duas crianças de muito tenra idade.
Perguntei-lhe se era da família daquele que me lembrava de há muito tempo ser o proprietário da casa, ao que ele me respondeu que sim senhor, que era filho do vinte e sete. E o seu pai está? Está sim. Poderei falar com ele? Diga-lhe que não sou vendedor da nada, nem ando a pedir para nenhum santo, ou para qualquer instituição de caridade, pretendo apenas trocar algumas palavras muito simples, se ele deveras estiver na disposição de me ouvir.
Ah, está bem, eu vou chamá-lo, disse. E chamou-o mesmo dali, e o progenitor apareceu de imediato, alegre e desenvolto, tanto no andar como no falar.
Disse-lhe logo ao que ia, que gostava de saber um pouco da sua história, e, em particular, as razões da alcunha de vinte e sete. Mas, e antes de tudo, se ele colocaria alguma objecção, se tinha qualquer relutância, quanto ao epíteto. Que não, de modo nenhum, e que eu até iria rir-me muito quando soubesse a sua origem.
Para não ser muito directo, e a modos de quem coloca um parêntesis, comecei por lhe perguntar coisas muito simples, como a idade, qual a razão de ter filhos ainda tão novos…
Desfiou-me a sua história, uma história que daria muitas páginas, mas que eu vou tentar resumir na meia dúzia de parágrafos seguintes:
O seu nome completo é António Augusto da Silva, nasceu a 3 de Abril de 1927, no lugar do Penedo, freguesia de Outeiro, filho de Augusto da Silva e de Glória Júlia de Oliveira. Não foi à escola, não sabe ler.
Na sua juventude, foi moço de servir e esteve na Casa da Baladã até à idade de ir para a tropa. Apesar de não saber ler e ser de estatura franzina, foi chamado para o serviço militar sendo incorporado no RI 8 de Braga. Esteve quatro meses naquele quartel e depois foi para Lisboa, sendo colocado no Depósito de Material de Guerra do Forte da Ameixoeira. Fez o serviço militar a dobrar, vinte e oito meses, por ter sido refractário.
Terminado o serviço militar, voltou para a Casa da Baladã, como moço de servir. Ao fim de algum tempo, e porque tinha um tio em Moçambique, embarcou para aquela província ultramarina, tendo viajado no Pátria e foi para Nampula. Porém, por razões que parecem ter-se prendido com a saúde do tio, apenas ali permaneceu pouco mais que um ano, e regressou à Metrópole, desta vez a bordo do Império. Foram 26 dia de viagem para lá e 29 para cá.
Regressado a Portugal, fixou-se em Baloutas, e trabalhou, durante nove anos, na construção das barragens do sistema do Douro Internacional, sucessivamente na do Picote, que terminou em 1958, na de Miranda, que terminou em 1960, e na da Bemposta, que terminou em 1964.
Depois casou, ali mesmo em Paínzela, a 26 de Junho de 1964, tinha agora 37 anos, e a noiva, Elisa da Silva Alves, tinha 29.
Entretanto, esteve emigrado em França, durante quinze anos, tendo saído do país de forma legal, através de uma “contrata” que fora organizada com a colaboração dos serviços da Câmara Municipal. Primeiro, foi para a cultura da beterraba, mas depois acabou por se fixar em trabalhos da construção civil e obras públicas.
A história continuaria por muitos mais parágrafos, mas é tempo de desencaixar a alcunha, as palavras são dele, do Senhor António Augusto da Silva:
«Nós éramos rapazes, eu tinha nove ou dez anos, morávamos na Raposeira, e costumávamos ir às cerejas, onde quer que as houvesse. Lembra-se de ouvir falar num sujeito chamado Augusto Rocha, que era alfaiate, ali na Raposeira? Pois foi, ele, enquanto rapaz, fazia parte do mesmo grupo que eu, e, um dia, num dos campos do Isqueiro, fomos às cerejas, daquelas bem negras, de Bical Preto, muito maduras e pintavam tudo. O Augusto Rocha pegou em meia dúzia delas e começou a escrever um número na testa de cada um de nós, a mim calhou-me o vinte e sete. A partir daí, fiquei sempre a ser o vinte e sete».
Ainda arrisquei a questionar a veracidade da história. Mas, o Senhor António Augusto da Silva quase que se zangava, jurando-me, de olhos bem abertos, que o que me acabava de contar era a mais pura das verdades.
Aqui fica um pouco da história do vinte e sete, e, penso eu, a explicação sobre a origem de tal alcunha!

PS: Aproveito a oportunidade para convidar todos os meus leitores para assistirem, no próximo dia 25 de Fevereiro (sábado), pelas 16 horas, a uma sessão de apresentação do meu último livro “CONTOS QUASE ROMANCES DA CABREIRA E SEU UNIVERSO”, que terá lugar nas instalações do Auditório Municipal, ali bem perto da Praça da República, nos Claustros do Mosteiro. Apresentação que estará a cargo do Exmo Senhor Presidente da Câmara Municipal, Eng. Joaquim Barreto.

Por: José Costa Oliveira

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