Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 17-10-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (146)

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VAMOS RECUPERAR A VACARIA

Com letra minúscula, vacaria significa manada de vacas, vacada, gado vacum, curral de vacas, lugar onde se mungem as vacas e se vende o leite.
Em meados do século passado, e em terras do concelho de Cabeceiras de Basto, a vacaria era uma instituição. Era a Vacaria, substantivo próprio, palavra escrita com letra maiúscula.
Traduzia-se na fruição de um direito que remonta ao século XVI, mais concretamente ao ano de 1592, como consta de registos autênticos. Os proprietários desse direito são: a aldeia de Vila Boa da freguesia de Bucos; a aldeia velha de Badim e a aldeia nova da Torre, ambas da freguesia de Abadim; a aldeia de Riodouro e aldeia de Eiró, ambas da freguesia de Riodouro; a aldeia de Chacim do Couto de Refojos, da freguesia de Refojos; e a aldeia de Busteliberne, da freguesia de Cabeceiras de Basto (S. Nicolau).
Aquele direito consiste no facto de os proprietários de gado bovino, daqueles lugares, o poderem levar para o pasto, em colectivo, para um dado espaço da serra da Cabreira, denominado por Montes ou Pastos de Maçã, durante o período que medeia entre o primeiro dia de Junho e o dia quinze de Agosto de cada ano.
Tomavam conta da vacaria, durante aquele período, dois, por vezes três homens recrutados na área do concelho, de preferência dos lugares que fruem dos referidos direitos de pastagem, e aos quais era paga uma dada porção de milho, ou o equivalente em dinheiro, por cada cabeça de gado que era enviada para a vacaria.
O espaço físico dos terrenos afectos aos pastos colectivos situa-se em áreas comuns aos concelhos de Cabeceiras de Basto e de Montalegre, e é delimitado pelos marcos da Portela Velha, marcos da Zebreira, outeiro do Bidoeiro, Lamas de Miro, Carvalho da Raposeira e fonte de S. Bento.
Um dia destes, um amigo meu que me trata por tu e é de Abadim abeirou-se de mim e disse: «Zé, temos que recuperar a vacaria, vê se recolhes o máximo de elementos possível».
Na ocasião, e apanhado assim de surpresa, apenas respondi: «Eu, tudo o que sei, ou que pudesse possuir, já o tenho publicado, para aí, em alguns textos sobre o assunto».
Em boa verdade, dado ter convivido muito de perto com o meio, isto é, com a vacaria e com os vaqueiros, também eu guardando vacas no mesmo espaço, este é um tema que, muito particularmente, me seduz.
Ainda não voltei a falar com o meu amigo sobre o assunto, o tempo que se passou desde a sua abordagem é também ainda muito curto, mas penso que a ideia é excelente. Não devemos, de modo algum, deixar que se perca aquele espaço, aquele património colectivo. A sua recuperação é, antes de tudo, um dever de todos nós. Não esquecendo, porém, que essa obrigação é de maior grau no que tange aos habitantes, proprietários e residentes, daquele conjunto de lugares que são detentores dos direitos de fruição sobre as pastagens.
Penso que a ideia passará, antes de tudo, por recuperar, quero dizer, reconstruir o espaço a que se chamava o “cercado”. O cercado era uma espécie de quinteiro onde o gado era acomodado durante a noite. Dever-se-á reconstruir também a barraca dos vaqueiros.
Nos tempos de que eu me lembro, décadas de cinquenta e sessenta do século passado, o cercado era um espaço vedado por uma parede de pedras toscas e ao alto, enquanto que a barraca dos vaqueiros era uma construção de modelo semelhante e coberta com torrões assentes sobre varas de giesta e de carrascos de carvalho.
Quanto ao cercado e às instalações para os vaqueiros, tenho uma proposta: nada ou muito pouco de betão, nada ou muito pouco de chapas de metal, nada ou muito pouco de ferro. A minha proposta é que se preparem estruturas em tudo semelhantes àquelas que existem no Centro de Educação Ambiental.
Tudo, ou quase tudo, em madeira de pinho tratado. Há, porém, o problema do vandalismo, e, estruturas em madeira são um perigo. Deixo a solução ao cuidado de alguém mais capaz do que eu. Uma coisa gostaria que fosse preservada, o meio ambiente.
É algo de inexplicável a paz que se sente quando, postados junto aos Marcos do Touro, lançamos o olhar pela extensão, quase plana, a perder de vista, para além dos limites de Lamas de Miro.
Para que tudo seja bem sucedido, é preciso não descurar o elemento principal, a matéria-prima. E a matéria-prima são os animais. Também tenho uma sugestão: os lugares detentores dos direitos de pastagem são sete, um de Bucos, dois de Abadim, dois de Riodouro, um de Refojos e outro de Cabeceiras (S. Nicolau).
Elege-se pelo menos um agricultor, criador de bovinos, de cada um daqueles lugares, esse agricultor terá a seu cargo o recrutamento de potenciais interessados no projecto. Se, de cada aldeia, ou de cada lugar, se conseguir um efectivo de dez a quinze cabeças, dará um total aproximado de cem cabeças de gado. Com este número, a vacaria aproximar-se-á dos padrões de meados do século passado.
Agora há os vaqueiros. A minha sugestão inclina-se para que seja recrutado um conjunto de três. Revezando-se, haverá sempre dois em exercício de funções, será respeitado o período de descanso semanal para todos eles. Por cada dois dias de trabalho descansarão um, o que dá dois dias em cada seis.
Salários dos vaqueiros: fiz as contas para o período de dois meses e meio de campanha, mais férias, subsídio de férias e de Natal, mais encargos sociais, mais seguro de acidentes de trabalho para três trabalhadores a tempo inteiro. Tendo por base o salário mínimo nacional, o total dos encargos por campanha serão, aproximadamente, de 2.000 Euros por trabalhador. Multiplicado por três, dará aproximadamente 6.000 Euros por campanha.
Para um efectivo de 100 cabeças de gado, dará uma jóia de 60 Euros por cabeça. Quem mandar dez cabeças para as pastagens terá que pagar a quantia de 600 Euros. Não deverá perder de vista que tem o gado entregue e a ser tratado durante dois meses e meio, e o valor a despender será o equivalente ao preço de um vitelo, mais coisa menos coisa.
Com os dados acabados de lançar, penso que o projecto de recuperação da vacaria terá elevada probabilidade de ser um êxito.

Por: José Costa Oliveira

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