Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-10-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (145)

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O CORONEL KADAFI

Graças aos ventos que, com origem na Tunísia, têm varrido parte da região do Magreb, se estendem até à Península Arábica passando pelo Médio Oriente, estamos prestes a assistir à queda de mais um daqueles dirigentes políticos que nunca seriam capazes de abandonar o poder sem que fosse em resultado do uso da força.
Felizmente que nos casos da Tunísia, do Egipto e do Iémen bastou a força da razão das manifestações populares para que os respectivos dirigentes ou se demitissem de vez, os dois primeiros, ou se propusessem a uma saída a curto prazo, o terceiro. Este, o Presidente do Iémen, Ali Abdullah Saleh, negociou um prazo para entrega do poder até à realização de novas eleições presidenciais.
É certo que houve algumas vítimas, alguns desmandos mais ou menos graves, mas, de qualquer modo e em termos gerais, não se pode concluir que tenham sido processos de grande dramatismo.
Os casos da Líbia e da Síria estão a revelar-se bem mais complexos. Sobre a primeira, a Líbia, e que dá corpo ao título desta minha crónica, falarei com mais detalhe um pouco adiante. Para já, uma particularidade que merece o meu primeiro reparo: todas as grandes convulsões que estão a verificar-se naquelas três sub-regiões do globo, de população de língua árabe e religião islâmica, apenas têm ocorrido em países de regime não monárquico. Todas as monarquias, e tomando como principais exemplos Marrocos e a Jordânia, têm passado quase imunes a esta enorme onda de protestos.
Refira-se, a propósito, o que parece ser um grande paradoxo, que ainda muito recentemente, o representante da causa real portuguesa efectuou uma visita, quase oficial, e foi recebido por um dos leaders mais influentes e não monárquicos da região, o Senhor Bashar-al-Assad, Presidente da República Árabe da Síria. E o Senhor D. Duarte Pio de Bragança até veio de lá muito bem impressionado!
Note-se, também, que a seguir à Líbia, é exactamente na Síria que se vem verificando a mais violenta repressão às manifestações hostis ao poder constituído, e da qual tem resultado um elevado número de baixas entre a população civil.
Voltando à Líbia. Este país, com 1.759.540 quilómetros quadrados de área, quase vinte vezes maior que Portugal, uma população estimada em pouco mais de seis milhões de habitantes, é um dos países com mais elevados índices de nível de vida, não só do continente africano, mas da maior parte do mundo.
O seu rendimento per capita (com as devidas reticências que este indicador de desenvolvimento encerra) é de cerca de 15.500 dollares, ocupando o 49.º lugar a nível mundial. Usando os mesmos padrões de informação, sabe-se que o nosso rendimento per capita, o rendimento per capita português é de cerca de 22.000 dollares e ocupamos o 30.º lugar. Não se pode concluir, portanto, que a Líbia seja um país muito atrasado.
Em termos geográficos, a Líbia tem fronteiras a leste com o Egipto (Egipto com p), a sul com o Chade e o Níger, a oeste com a Argélia e a Tunísia e a norte o mar Mediterrâneo.
Da sua história mais recente, consta que esteve sob dominação italiana a partir de 1912 e até ao início da Segunda Guerra Mundial. Depois, houve um pequeno período, entre 1940 e 1952, em que o poder foi repartido por franceses, ingleses e italianos, cada nação administrava uma dada parcela do território nacional líbio.
No dia um de Janeiro de 1952, a Assembleia-Geral das Nações Unidas decidiu aprovar a independência do país, com a denominação de Reino Unido da Líbia. Assumiu o poder um leader religioso, o emir Sayyid Idris al-Sanusi, sendo coroado rei com o nome de Idris I. Este monarca reinou até 1969, até ao dia em que foi derrubado por um grupo de oficiais nacionalistas.
É neste momento, concretamente a um de Setembro de 1969, que aparece o Coronel Muammar al-Gaddafi, (Kadafi) simpatizante e seguidor de outro Coronel, o presidente do Egipto, o Coronel Gamal Abdel Nasser.
O Coronel Kadafi era, ao tempo, um jovem, elegante e simpático militar, com formação na Real Academia Militar de Sandhurst, na Inglaterra, nada que se assemelhe às suas imagens dos dias de hoje, com aqueles estranhos pelos negros espetados no queixo e no sítio do bigode. Tomou conta do poder, escreveu o denominado livro verde, onde expôs a sua filosofia política, e criou a República Árabe Popular e Socialista da Líbia.
O país desenvolveu-se, foram atingidos apreciáveis índices de bem-estar, temos que reconhecê-lo. Ao longo da sua história, a história pessoal do Coronel Kadafi, a maior nódoa a apontar-lhe terá sido o apoio ao terrorismo internacional e o envolvimento, pensa-se que directo, no derrube de um avião comercial de grande porte em pleno espaço aéreo da Escócia.
Atendendo à sua postura mais recente, a todo o conjunto de bizarrias a que nos tem habituado, causa-me alguma estranheza que continue a assumir-se tão simplesmente como Coronel? Porque não será ele Major-General, ou então Contra-Almirante? Lembro-me que o seu amigo egípcio sempre se intitulara também como Coronel. É muito bem capaz de, na hierarquia militar daqueles países, o posto mais importante ser mesmo este, o de Coronel. Será assunto para estudar e desenvolver mais tarde.
Por agora, resta-me apenas fazer um voto: que aqueles que, mais dia menos dia, o venham a capturar, o julguem, o condenem, se esse for o caso, mas não repitam o exemplo deprimente dos seus irmãos em religião, do Iraque, com aquele espectáculo, a todos os títulos repugnante, do enforcamento de Saddam Hussein. É certo que as leis com que foram condenados foram as suas próprias leis. Seria caso para desabafar: “quem com ferros mata com ferros morre”.
Tudo bem. Mas eu, que sou contra a pena de morte, não gostei de presenciar o enforcamento de Saddam Hussein, assim como não gostaria de ver acontecer o mesmo ao Coronel Kadafi. Tenho dito.

PS: Aproveito a oportunidade para convidar todos os meus leitores, muito em particular os que residem na área do Grande Porto, para assistirem, no dia 4 de Outubro (terça-feira véspera do feriado), pelas 22 horas, ao lançamento do meu novo livro “CONTOS QUASE ROMANCES DA CABREIRA E SEU UNIVERSO”, que se realizará nas instalações da FNAC do Nortshopping, à Senhora da Hora, em Matosinhos.

Por: José Costa Oliveira

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