Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-09-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (144)

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O COVELO

O Covelo é, muito simplesmente, o nome de um sítio. Em todo o país, é capaz de haver uma centena, ou mesmo mais, de sítios, lugares, talvez freguesias, concelhos não, da lista de concelhos que conheço, não aparece lá nenhum designado por Covelo. Quanto a freguesias, dei-me ao trabalho de investigar e verifiquei que há, de facto, pelo menos três: uma no concelho de Gondomar; outra no concelho de Tábua: e uma terceira, designada por Covelo de Paivô, no concelho de Arouca.
De qualquer modo, continuo ciente de que, lugares com a denominação de Covelo, deverá haver muitos, com toda a certeza.
Este Covelo de que aqui vou falar situa-se na freguesia de Abadim, cá do nosso concelho. Não sei se poderá chamar-se lugar. Um lugar, entendo eu, é um sítio onde há casas. No Covelo que eu conheci, há cinquenta e tal anos, não havia qualquer casa. Todavia, actualmente existem ali, bem perto, duas excelentes moradias, mas não sei se os seus proprietários entenderão que se localizam no Covelo. Poderão muito bem localizar-se nos Esporões, ou noutro qualquer lugar com outra qualquer denominação.
Uma coisa, porém, é certa, aquelas duas moradias, de muito bom gosto, poderão situar-se no lugar do Covelo, no lugar dos Esporões, no lugar do Covelo de Fora, no lugar do Covelo de Dentro, no lugar do Covelo de Baixo, no lugar do Covelo de Cima, ou até no lugar de Trás-do-Covelo. Andem por onde andarem, assumo que a denominação de Covelo muito dificilmente faltará.
Vem isto a propósito dum costume que eu tenho, parece que é um vício, o de passar, uma vez ou outra, por lugares onde alguma vez tenha estado antes. Eu gosto de reviver o passado. E foi exactamente isso que fiz no pretérito dia vinte e nove de Julho, sexta-feira. Estacionei mesmo em frente da porta principal da Capela de Santo António, onde agora há asfalto, mas, nos tempos que eu pretendia recordar, havia terra batida e ajuntamentos de homens, normalmente, em grupos de quatro, formando dois pares, um par de um lado e outro par do outro lado, jogavam a malha, em tardes de domingo.
Subi aquele pedacito de estrada até à derivação que dá para as Queirozes e para Trás-da-Portela, depois, curvei à direita, passei por aquele pequeno aglomerado que penso continuará a chamar-se Trás-da-Portela. Este pequeno aglomerado, onde se inclui a Casa do Marco, encontra-se quase no mesmo estado em que se encontrava quando o conheci pela primeira vez, no início da década de sessenta do século passado.
Outro elemento que pude verificar manter-se ainda no mesmo sítio, o que vem sendo cada vez mais uma raridade, e digo raridade porque onde antes se via uma fonte, ou uma fontela, agora, ou não se vê coisa alguma, ou então vêm-se tubos quase sempre mal enterrados, rastejando pelo chão das bermas dos caminhos, por onde é retirada a água dos locais primitivos, alterando assim, e de forma dramática, o meio ambiente.
A fonte do Marco, julgo que era assim que se chamava há umas cinco décadas, não era mais do que uma mina, escavada nos subterrâneos dos campos da Portela, que tinha à entrada o bordo de uma poça provido do engenho que regulava o fecho e abertura das águas quando em tempo de rega dos lameiros. Em tempo de verão, o engenho era desactivado, mantendo-se o suspiro aberto, e a poça da mina era aberta e tapada, manualmente, todos os dias, para rega do milho de alguns dos campos das imediações.
A água daquela fonte para consumo doméstico dos habitantes do lugar era colhida através do sistema de mergulho, mergulhava-se o cântaro, ou o caneco, ou o jarro, no interior da água empoçada, não havia qualquer bica. Muitas vezes, bebi água daquela fonte (poça), colhendo-a e levando-a à boca com a concha da mão.
Agora, verifiquei, com especial agrado, que a fonte ainda ali se mantém, não há vestígios dos irritantes tubos pretos, mal enterrados, ao longo das bermas do caminho, e pode observar-se que até foram construídas uma bica e uma pia, à saída da mina. Nota positiva.
Negativo foi observar que, onde antes se via muito milho verdinho e cheio de pendão (em Abadim chamava-se crochas ao pendão do milho sempre que era cortado para alimento dos animais) e de bardos, também verdejantes, de videiras de vinho nacional e americano (produtor directo). Agora, nada, os campos, embora neste caso concreto estivessem ao menos limpos de mato, não tinham qualquer cultura que se visse, quanto aos bardos de videiras, desapareceu quase tudo, apenas um pé de quando em vez e por demais raquítico.
Quando caminhava para aquele lado, no sentido do Covelo, reparei para a direita, são os campos da Quinta das Casas de Baixo. Aquela quinta tinha um caseiro que pensava dez vacas, e o tratamento do gado era da exclusiva responsabilidade do criado, o criado das Casas de Baixo, de seu nome Carlos, Carlos Pires, ou Carlos da Pires.
Este criado das Casas de Baixo, o Carlos, que era já um veterano no meio e um especialista no jogo da malha, não recebia qualquer soldada, a sua remuneração encontrava-se fixada, algo semelhante àquilo que é conhecido como remuneração em espécie, e provinha do produto da venda das crias de duas das melhores vacas do efectivo da casa. Ele era o responsável pela selecção daquelas que, todos os anos, no primeiro dia de Junho, eram conduzidas aos Montes de Maçã e integradas na vacaria, onde ficavam até ao dia quinze de Agosto. Porém, aquela junta, cujos vitelos integravam a soldada do nosso especialista, nunca fazia parte do grupo (pequena manada) que seguia para os pastos dos Montes de Maçã.
Durante este meu pequeno passeio, no pretérito dia vinte e nove de Julho, o que foi que eu observei em parte dos campos das Casas de Baixo? Um pequeno pedacito de milho numa das extremidades, e ali, mesmo junto ao caminho que segue para o Covelo, quatro cabeças de gado bovino, cercadas por uma quase imaginária vedação de fios cor de laranja. Nada que possa comparar-se com as dez barrosãs de outrora, do tempo do criado Carlos, todas amarelo avermelhadas de pelugem reluzente.
Estas quatro até formavam um grupo simpático. Duas eram maronesas, uma delas escavava no chão com a pata dianteira do lado direito e atirava terra para o lombo, a terceira era barrosã, e uma quarta que não deu para identificar a raça, reparei que tinha a cor e o porte de barrosã, mas não tinha sinais de hastes. Esta raça não existia no meu tempo de rapaz!

PS: Agradeço as palavras simpáticas do nosso leitor Jaime de Sousa e Silva. Com o devido respeito, esclareço que eu não era filho do moleiro, o meu pai era o caseiro do Banido, o Manuel Carlos, mais conhecido por Carlos do Banido. Também não devo deixar de lhe expressar o apreço com que li o seu poema “Oh! Que Saudade”. Os meus parabéns.

Por: José Costa Oliveira

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