Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-08-2011

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937)

foto
I - UMA VISÃO GERAL

A história da imprensa cabeceirense inicia-se no ano de 1890, numa sexta-feira do mês de Dezembro. Não sabemos o dia. Começa com o aparecimento de “O Cabeceirense”, que foi, assim, o primeiro órgão da imprensa publicado na nossa terra. Conhecemos a sua existência por duas fontes: a Enciclopédia Verbo Século XXI que regista “O Cabeceirense, 1890” e o Anuário Comercial de Portugal de 1896 que textualmente afirma: “O Cabeceirense, semanário defensor dos interesses locaes, fundado em Dezembro de 1890, publicado às sextas-feiras. Proprietário e Director: Celestino Falcão”.
Em que ambiente nasce “O Cabeceirense”? Cabeceiras é, em 1890, sede de concelho e de comarca. Tem administração, câmara, juizo de direito, 3 juízos de paz, correio e telégrafos, advogados e procuradores, médicos e farmacêuticos, párocos e fiéis, alunos e professores, escrivães e amanuenses, entre os cerca de 15.500 habitantes. A grande maioria da população dedica-se à agricultura e pequenos trabalhos, pois indústria é uma palavra desconhecida. A administração do concelho está entregue a Bernardino Pereira Leite Basto e a Câmara tem como presidente Fortunato José Gonçalves Basto. Das 17 tradicionais freguesias do concelho a mais habitada é a de Refojos com 2.677 habitantes, a quem o Anuário atribuía como santo padroeiro…S. Nicolau.
O país estava, é certo, confrontado com as sequelas do Ultimatum inglês, mas a ofensa britânica não deve ter humilhado os cabeceirenses, pois só os mais ilustrados acompanhariam a situação com a leitura de algum diário de Lisboa ou do Porto que chegasse à terra…

*
Numa longa história de 120 anos publicaram-se no nosso concelho os seguintes títulos por ordem cronológica:
O Cabeceirense (1890);
Jornal de Cabeceiras (1895);
O Colosso (1896);
O Povo de Cabeceiras (1900);
O Democrata (1910);
O Correio de Cabeceiras (1913);
O Ecco de Cabeceiras (1914);
O Apóstolo de Basto (1917);
O Pardal (1919);
O Futuro de Cabeceiras (1924);
O Boletim Informativo de Cavez (1980);
O Basto (1980);
O Ecos de Basto (1990);
O Fórum Cabeceirense (1996);
Neste momento somente se publicam o “Ecos de Basto” e “O Basto” (agora numa 2ª série iniciada em 20 de Janeiro de 2005 após uma longa paragem e a entrar agora noutro ciclo de vida, com a posse dum novo Conselho de Administração em 22 de Junho passado, esperando-se a nomeação do novo director).
(Não fazemos referência a boletins municipais, boletins de entidades e associações, jornaizinhos escolares que nas décadas de 1980 e 1990 enxamearam as nossas escolas, porque lhe faltam a periodicidade, um dos três predicados essenciais para serem considerados periódicos. A notável excepção é o BIC (Boletim Informativo de Cavez) que satisfez durante alguns anos este conceito).

*

A imprensa cabeceirense viveu a sua época áurea durante a 1ª República (5 de Outubro de 1910 - 28 de Maio de 1926). Em 16 anos publicaram-se 9 periódicos: O Apóstolo de Basto, O Cabeceirense, O Correio de Cabeceiras, O Democrata, O Ecco de Cabeceiras, O Futuro de Cabeceiras, O Jornal de Cabeceiras, O Pardal e O Povo de Cabeceiras. Alguns autores apontam ainda “O Jornal de Basto”, mas este jornal publicava-se em Celorico de Basto ainda que destacasse Cabeceiras no seu noticiário. Destes, O Apóstolo de Basto era de cariz religioso e publicava-se em S. Nicolau, enquanto O Pardal era um quinzenário humorístico e satírico, de que era director Francisco da Silva Mendes, um jovem de muitas qualidades e de que era proprietário José de Magalhães. A Monarquia do Norte tinha caído e eles gozavam…com os vencidos e com os vencedores também. Quem seria “O Soisa” que foi convidado para cantar na ópera de Fafe?

*

Alguns destes periódicos tiveram a sua história ligada entre si. A mais flagrante é a que unira “O Cabeceirense” e “Jornal de Cabeceiras”. As circunstâncias políticas determinavam a cessação dum título e logo aparecia o outro a substitui-lo. Que saibamos só durante algum tempo, no final de 1908 e princípios de 1909 é que os dois títulos se publicaram simultaneamente. De resto, quando o Jornal de Cabeceiras cessou a publicação em 30 de Julho de 1912, falhada a 2ª Incursão Monárquica, logo reaparece “O Cabeceirense”, primeiramente intitulando-se como independente para logo se assumir como filiado no Partido Republicano Democrático. Assim se manteve até 9 de Junho de 1919, após a Monarquia do Norte, e dá lugar novamente ao Jornal de Cabeceiras.
Também podemos apontar “O Futuro de Cabeceiras”, nascido em 1924, como sucessor de “O Democrata” e do “Correio de Cabeceiras”, todos republicanos.

*
Era raro o jornal que se não titulava primeiramente como “independente” e “defensor dos interesses locais”. No entanto muitas vezes eram obrigados a isso. O caso mais caricato é o de “O Cabeceirense” – 3ª série – começado a editar em 19 de Outubro de 1913" que, perante um ataque do Ecco de Cabeceiras, se queixa deste ataque ser descabido, “quanto é certo que o “Pae” do novo jornal bem sabia que se o Cabeceirense ainda ostenta o título de independente, é por motivos de força maior, alheios à nossa vontade”. E assim foi que na semana seguinte já ostenta a sua filiação no Partido Republicano Democrático.

*

Como curiosidade o 1º número do Ecco de Cabeceiras, surgido no dia 1 de Janeiro de 1914, tem um magnífico editorial que começa assim: “Sai hoje a lume o primeiro número do “Defensor de Cabeceiras”…”. Tinha este editorial sido escrito com tanta antecedência que entretanto o título do periódico mudara. Explicação: “Mas como aquele título não se coadunasse, pela sua extensão, com as dimensões do jornal, foi à última hora substituído pelo de Ecco de Cabeceiras”.

*

Mas, porquê “Subsídios para a História” e não “História”? A razão é simples: os jornais mais antigos não se encontram nos arquivos. Se há, por vezes, uma ficha anunciando a sua existência, não se encontra o objecto fichado. De muitos periódicos não há qualquer registo. Sem documentos não há história. É provável que em algumas casas antigas ainda se possam encontrar exemplares soltos de alguns dos periódicos de antigamente. Mas o papel de jornal também é instável. Quando os manobramos as folhas têm tendência para se rasgarem. Os elementos que temos fomo-los conseguindo através de Anuários, Almanaques, dicionários de imprensa (que são muito poucos), publicações e ficheiros das bibliotecas. No entanto há muitas falhas e disparidades. Encontramos alguns períodos intactos, outros com falhas. Mas, de qualquer modo, julgamos que estes elementos sejam de interesse para a história local.

*

Mas porquê 1890-1937?
1890 porque é o início da história da imprensa cabeceirense; 1937 porque é o ano em que o Ecco de Cabeceiras termina a sua publicação. È um dia negro para a história da nossa imprensa. Fica somente O Jornal de Cabeceiras que continua o percurso reiniciado em 7 de Junho de 1919, agora propriedade de Luís Nogueira Pinto e José Salreta. Nascera na monarquia, atravessara as diatribes da 1ª República, escondeu-se após a 2ª Incursão, reapareceu após a Monarquia do Norte, acomodou-se ao Estado Novo, renasceu em Abril, morreu de velhice em 1983. Desde 1937 que ficara a falar sozinho. Mas, falando-se sozinho não se faz história digna desse nome. Só em 1980 com o aparecimento do Boletim Informativo de Cavez e de “O Basto” se pode retomar a história da imprensa cabeceirense.

(continua)














Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.