Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-07-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

SITUAÇÃO DESESPERADA
Era assim que o Jornal de Cabeceiras classificava a situação em que se encontrava a administração do concelho dado o desenvolvimento que a prisão do padre Domingos e companheiros provocara, acusados de crimes gravíssimos e terríveis, de tal modo que nem ao poder judicial foram apresentados, mas sim remetidos para Braga, sob pesada escolta. Mas o Ministro da Justiça, devidamente alertado, deu ordem directa e assim “foram mandados restituir à liberdade os suppostos criminosos”. Assim no dia 16 de Junho saíram os prisioneiros de Braga para recolherem à s suas casas. Logo em Rossas receberam “uma calorosa e entusiástica manifestação”, que se repetiu em Mourigo (S. Nicolau). Daqui, de junto da residência do falecido Dr. Francisco Botelho, até à Praça da República, todos vieram a pé por entre alas de pessoas, sendo “sempre vitoriosamente aclamados”. Já na vila foram recebidos no Grémio Cabeceirense, tendo daí falado à multidão o deputado Augusto José Vieira, Miguel Alves Ferreira, Álvaro Bastos e, finalmente, o padre Domingos, com muitos vivas à República. Foram depois levados em triunfo a suas casas. Agora esperava-se a queda da administração. A notícia tinha transpirado e outros jornais deram relevo à libertação dos acusados. “A Verdade”, de Fafe, onde o padre Domingos era muito conhecido, terminava o seu artigo dizendo: “No meio de tudo isto, imagine-se com que cara ficaram os republicanos-predialistas d’ali e o administrador do concelho”.
“O Mundo”, jornal de grande circulação de Lisboa, publica um protesto dum cidadão cabeceirense dirigido ao director daquele diário, afirmando que se tinha tornado republicano com a leitura daquele e que rejubilara imenso com o 5 de Outubro, “por ir, enfim gozar o título de cidadão livre. Não o entendeu, porém, assim, o Sr. Dr. Florêncio Lobo, administrador deste concelho, que, depois de ter sido progressista, franquista e reacionário se fez republicano e, não podendo encarar a sangue frio os verdadeiros republicanos desta terra, a pretexto de um assalto à tipografia de um jornal que hoje se coroou de republicano mas que sempre foi um verdadeiro talassa e reacionário, me mandou prender e conduzir a Braga no meio da força armada (…) e conseguiu ter-me preso (sem causa) no governo civil de Braga pelo espaço de seis dias”.
O prestígio do administrador anda pelas lamas da rua. Anuncia-se a instauração de um processo por abuso do poder. Não tem na terra imprensa para o defender, pois “O Democrata” já não se publica. Tem as costas protegidas pela força militar que estaciona na vila, que diariamente executa exercícios militares em lugares diferentes, portando-se com muita correcção e cordura. Resolve então pressionar Lisboa.

O CORREIO DO CZAR

“Já foi para Lisboa, despachado em grande velocidade, o enviado especial do Pina Manique Cabeceirense, sobraçando uma grande pasta com supostas assignaturas de supostas pessoas honradas de Cabeceiras para ver, se, em última instância, o Intendente é conservado no seu posto.
Triste expediente de calhambeque, em naufrágio iminente, a ver entrar água abundantemente por todos os rombos…”

NOVA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Pois em Cabeceiras resolveu fazer-se uma nova proclamação da República. Já existia a república do senhor administrador e agora o Grémio Republicano de Cabeceiras fez a sua proclamação. Assim, a 19 de Junho o Grémio embandeirou-se, tocou a Banda do Sr. Mendes, compareceram os principais mentores da nova República, dirigiram-se telegramas de saudação e patriotismo republicano ao Sr. Presidente do Governo Provisório e ao deputado Augusto José Vieira.
Foi muito notado o facto de quando o Grémio Cabeceirense ter começado a ser embandeirado, o Centro Republicano de Cabeceiras e a Câmara Municipal também alindaram as suas frontarias, “mas não apareceu ninguém nem houve sinais de regozijo”. No entanto, do Centro Democrático, da sacada superior do edifício “foram lançadas algumas bombas de dinamite (…) sendo cinco dessas bombas manifestamente dirigidas com intentos provocadores para o lado do Grémio Republicano, que, felizmente, não produziram damno algum”.

MOVIMENTOS BELICOSOS

A situação era tensa. O padre Domingos regressou a casa mas já em Cabeceiras estacionara uma força de 25 praças da infantaria comandadas pelo tenente Joaquim Rodrigues de Paiva, mas felizmente “tem gozado uma invejável paz”. Dizia-se que a força viera para evitar “suppostas alterações da ordem, que só existem na esquentada fantasia do administrador do concelho”. A força retirou-se para Braga mas dizia-se que era “para regressar com reforço, segundo propalam os íntimos do Guerreiro cá da terra; e mais! que em Guimarães está de prevenção uma força de 60 praças para marchar sobre Cabeceiras à primeira voz do General Bombardão”.

GRAVE DESORDEM

Por volta da hora e meia da madrugada do dia 20 de Junho a praça foi cenário de uma grave desordem, onde se dispararam muitos tiros de revólver. Atingido a tiro, gravemente, o Sr. António Privilégio foi levado ao Hospital de Braga. Sabiam-se os nomes dos intervenientes: Henrique José Baptista, Manoel Carneiro, Domingos Capitão, Júlio Chicholo, Boccário Carneiro, Francisco Leite (mais conhecido por Chico Garoto) e o citado A. Privilégio.

PARA A HISTÓRIA DO INSTITUTO DE GONDARÉM

(…) A novíssima comissão administrativa do legado Gomes da Cunha, vai nomear para o lugar de professor primário do mesmo Instituto, o Sr. Domingos José de Magalhães, de Passos, bem conhecido já naquella freguesia, que desta vez vai resignar ao alto cargo diplomático que lhe foi confiado em Berne (capital da Suiça) e renuncia definitivamente ao despacho de inspector primário que dizia ter-lhe sido prometido pelo actual governo.
Não se poderá dizer que ao antigo e distintíssimo professor de Gondarém, Sr. José Pereira Leite, deram um sucessor de alta categoria moral e intelectual…para beneficiar os interessados com sede de instrução e fome de bons exemplos e bons costumes?!
(Jornal de Cabeceiras, nº 789, de 18/06/1911)

O FEITIÇO…CONTRA O FEITICEIRO

“O Democrata” nos seus 15 números de existência, que conhecemos, utilizou abundantemente do termo “Gamellista” aplicados a eito a todos os do regime anterior. Pois a situação vai virar-se em Cabeceiras. Os então acusadores são agora
“Os Novos Gamellistas”
“A questão capital era apanharem-se dentro. Todas as berrarias e fingidas moralidades eram inspiradas pelo despeito de não possuírem o sonhado gamello – O Instituto de Gondarém. Assim: “o médico que tinha residência efectiva no lugar de Gondarém foi substituído por outro médico que reside à distância de mais de 15 kms do mesmo logar, onde vai pachorrantemente 2 ou 3 vezes por semana, ganhando porém o mesmo ordenado que o seu antecessor…”.
O antigo professor foi substituído pelo moderno-antigo Sr. Domingos José de Magalhães, de Passos, que tão edificantes tradições deixou na freguesia.
A respeito da farmácia, idem na mesma data: ora trancadas as portas na expectativa de ir exercer o cargo o mais hábil e mais honesto de todos os boticários conhecidos da região, o Sr. Arnaldo Miranda de Barros... logo que possua o respectivo diploma”.

CRIME EM BUCOS

Foi assassinado a tiro o jovem José Martins Gonçalves, de 24 anos, filho de Serafim Martins Gonçalves, da Casa da Poça em Vila Boa. O acusado é outro jovem da mesma idade Bernardino Francisco de Oliveira, do mesmo lugar. Este terá sido primeiramente atingido por uma sacholada na cabeça, mas não se sabe se pela vítima se por um terceiro. A causa: uma bela moça requestada pelos dois.

FILIPE AUGUSTO MACHADO

No Hospital de Luanda finara-se em 11 de Abril este ilustre cabeceirense que abandonara o concelho, desiludido com a situação política, logo a seguir ao 5 de Outubro. Fora dirigente do Partido Regenerador. Era um homem de “carácter honesto, levantado e altivo, prestador, generoso e obsequiador”.

DESCANSO SEMANAL

O governo determinara que as comissões municipais regulamentassem o descanso semanal agora instituído obrigatoriamente. Constava que a comissão municipal concelhia estava hesitante entre três hipóteses:
- transferir o dia do mercado semanal da villa (que era ao domingo);
- obrigar o comércio a fechar ao domingo;
- talvez suprimir o domingo.
O Jornal de Cabeceiras era peremptório: “nem o mercado será transferido; nem o comércio obrigado a fechar; nem o domingo será supprimido do…calendário!”

PESSOAS

Tomou posse do cargo de escrivão da fazenda o Sr. Alberto Carlos da Rocha, transferido de Vila Pouca.
Chegou do Pará do Brasil o Sr. Artur Henriques de Sousa, da ilustre casa de Paredes.
O Sr. Arnaldo Pereira Leite, antigo e distinto médico do Instituto de Gondarém fixara residência na Rapozeira, em casa do Sr. Fernandes.
Tinham recebido encomendações, por mais um ano, os reverendos Manuel Francisco Gonçalves e João Pereira Camelo, para as paróquias de Passos e Bucos, respectivamente.
No Porto falecera o nosso conterrâneo António Teixeira Osório, sócio da firma “Osório, Pereira e Pacheco”, com um estabelecimento de exportação de vinhos na praia de Matosinhos.
O Dr. Ângelo Vilela Passos voltou a fixar residência na Casa da Breia.


RAZÃO PARA UMA PAUSA

É altura de uma pausa. Os ânimos vão acalmar. O padre Domingos vai tornar-se o chefe incontestado da oposição. “O Jornal de Cabeceiras” não tem qualquer adversário, pois “O Democrata” deixou de se publicar. Alguns sacerdotes vão exilar-se no Brasil. É o resquício da famosa “questão religiosa” que ainda se não nota abertamente na nossa região. Entre esses sacerdotes está o padre Firmino José Alves, com quem começamos a nossa história, mas que brevemente vai regressar para viver o amor da sua vida. O administrador conseguiu arranjar com o seu ímpeto de juventude e a sua falta de tacto político, alguns inimigos de estimação. Quanto mais tempo aguentará? A primeira incursão de 5 de Outubro de 1911 passará despercebida na nossa terra. Os sentimentos do povo parecem adormecidos. Mas não estão extintos, não. Eles vão surgir com ímpeto em Julho de 1912. Vão-se novamente escrever páginas eternas da nossa história. Espero, por essa altura, poder novamente estar convosco.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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