Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-07-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (142)

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O DEFICIT, A DÍVIDA E OS MERCADOS

Então, não andava por aí mais que meio mundo a fazer a apologia do mercado? Então, não era a globalização o Eldorado dos tempos modernos? Então, não houve quem mandasse cortar as vinhas, arrancar as oliveiras, abater a frota de pesca, fechar as minas, deixar que a maior parte das empresas encerrasse, porque o mercado global resolveria tudo?
Agora queixam-se do mercado! Tudo isto é sério de mais para ser olhado como anedota. Mas, não sendo visto como anedota, o que se lhe poderá, então, chamar?
O sonho da união europeia era um sonho bonito. Eu gostava, e continuo a gostar, de poder viajar por toda a Europa sem me preocupar com vistos em passaportes, com trocas ou compras de moedas diferentes para que um dos países, sem aqueles controles demorados e desgastantes sempre que se tem necessidade de passar uma fronteira. Parece que tudo era (tem sido) bom de mais para ser verdade!
A União Europeia, tal como está, corre o gravíssimo risco de se desmembrar. Um cenário semelhante àquele que acontecera à ex União Soviética, ou à ex Jugoslávia.
A questão dos deficits: o deficit de um qualquer país deveria ser encarado como uma situação verdadeiramente excepcional. O deficit gera sempre dívida pública, interna ou externa. As normas da união económica e monetária ao admitirem um deficit máximo anual de 3% estão, mesmo assim, a admitir que a dívida pública, ou soberana, de um qualquer país, se vá avolumando ano após ano. Tem sido o que tem vindo a acontecer a Portugal, à Grécia e a quase todos os países da união.
Tudo está a ser feito para que o deficit público português se quede nos 3%. Errado! O deficit público português deveria quedar-se em zero. Orçamentos base zero (ZBB) é que deveria ser o objectivo. Mas, mesmo com orçamentos base zero para o futuro, o problema da dívida acumulada manter-se-á, ou melhor, continuará a crescer de forma exponencial.
Note-se que, por exemplo, no ano de 2011, só por conta de juros, a dívida pública externa vai crescer mais do que dez mil milhões de Euros. As contas são muito simples de fazer: dez por cento de cem mil milhões dá dez mil milhões! De todo insuportável!
Fazem a apologia do mercado e agora queixam-se do mercado? Lembro que, no nosso mercado interno, e relativamente a qualquer empresa, ou mesmo a qualquer cidadão individual, ou a qualquer família, que recorra a crédito bancário, o seu banco possui uma ficha na qual consta toda a informação sobre o cliente, bem como uma folha chamada “responsabilidades” com relato de todos os débitos em aberto. É, nada mais, nada menos, o chamado rating, em português ficha de notação financeira.
A nível interno, cada banco é, e em relação a cada um dos seus clientes, uma verdadeira agência de notação financeira.
É por isso mesmo que eu, simples cidadão, não quero nada com os bancos, sirvo-me deles apenas para movimentar pequenas (não as tenho grandes) poupanças, sobretudo para fazer pagamentos correntes e levantamentos em caixas ATM. Sou um péssimo cliente bancário, espero que não me castiguem muito, se bem que já vêem ameaçando com débitos de comissões, tudo devido à minha fraca performance em termos de saldos médios.
A nível internacional, e particularmente no que concerne às dívidas soberanas, são as agências de notação financeira que fazem esse trabalho. O Dr. Medina Carreira tem vindo, há já vários anos, a reclamar que o país não tem capacidade para pagar o que deve, os partidos políticos à esquerda do PS não se cansam de dizer o mesmo, não como quem se queixa, mas como quem acusa. Então, queriam que as agências ditas especializadas na matéria os contrariassem, os contradissessem?
Durante muito tempo, foram os fundos comunitários, fundos perdidos, toda a gente falava de fundos perdidos, depois, a par dos fundos perdidos, as importações de tudo quanto é produto agrícola, industrial e das pescas. Para pagar eram os fundos perdidos e os créditos de terceiros. Os créditos significavam dívida externa, pública e privada. Quanto à dívida privada, era, e continua a ser, a balança de pagamentos deficitária. As importações continuam a exceder em muito as exportações, é o saldo da balança de transacções correntes, a balança comercial, que faz crescer a dívida externa.
Tudo como na Grécia, toda a gente recebe subsídios para deixar de trabalhar, mas toda a gente, como não podia deixar de ser, continua a consumir. De onde é que vem o dinheiro? De subsídios, a fundo perdido, e de créditos externos.
Ninguém se preocupou com as contas para o futuro. Agora é preciso pagar!
Quanto aos índices de notação financeira que, de certo modo nos vêm chocando, em minha opinião, a culpa nem é tanto das ditas agências de rating, mas mais dos nossos locutores, dos nossos pivots de televisão, que parece de mais nada saberem falar se não de lixo. É de todo deplorável a forma como certos locutores se apresentam na televisão com tão baixo nível de linguagem.
De facto, na terminologia financeira, e na língua inglesa, quando um activo financeiro desce abaixo de determinado valor, esse activo é designado por “junk”. Ora, se formos ao dicionário, “junk” pode ser traduzido por várias palavras de português, e a hipótese de lixo aparece em quinto lugar depois de “rebotalho”, “refugo”, “sucata”, “farrapos” e depois, sim, em quinto lugar, a hipótese de lixo. Os locutores das nossas televisões gostam muito de encher a boca com lixo. O problema será deles!
Não pretendo, de modo algum, sugerir que a dívida soberana portuguesa seja algo de bom, nem carne da perna, nem carne do pé. É dívida e não é grande coisa, não passará, em boa verdade, de uma qualquer sucata, um qualquer refugo, mas, tenham lá paciência, acabem com a designação de “lixo”.
Um destes dias, passava junto da Escola Secundária da Maia, que está incluída naquele grupo de escolas que foram remodeladas, reconstruídas, tudo de novo e com muito bom gosto, sobretudo no que respeita à preservação dos espaços verdes, continua um autêntico bosque, com muitas e variadas espécies arbóreas com predomínio de plátanos e choupos de grande porte.
Reparei no painel onde, entre outras informações, está escrito o montante do investimento e as componentes do financiamento. Tomei nota dos valores: Custo total da obra € 16.543.368,00; comparticipação comunitária € 14.061.863,00. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que a comparticipação comunitária foi de 85% (oitenta e cinco por cento).
Eu não sei quem é que financia, mas concordo que, se de facto são a Alemanha e a França, os maiores contribuintes líquidos para aquele montante de fundos, eles tem razões de sobra para exigir que, nós, os tais que gostamos bastante de praia, deveremos trabalhar um pouco mais.

Por: José Costa Oliveira

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