Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-04-2011

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (137)

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PELAS PONDRES COM MUITA ÁGUA POR CIMA

Eu já tinha ouvido a história por mais que uma vez. Porém, muitos anos se haviam passado, e nunca mais me lembraria, não fosse a minha mãe, lá do alto dos seus noventa anos, e a propósito dos desliza-mentos de terras ocorridos nas proximidades do Rio de Janeiro, que as televisões iam mostrando sem descanso, ma ter contado, uma vez mais.
Esta história, que é real, passou-se com o meu pai, o Manuel Carlos, nos idos anos do final da primeira metade do século passado. O meu pai tinha vinte e cinco ou vinte e seis anos, e eu tinha dois ou três.
Naquele tempo, vivíamos ainda no sítio onde eu nasci, num casebre que actual-mente se encontra em ruínas, que muito em breve será comido pelas silvas e se situa ao fundo da encosta sombria do monte da Seara, uns duzentos metros antes da Ponte Nova, no sentido de quem segue para Riodouro.
Um pouco abaixo daquele casebre, o tal que agora se encontra em ruínas, também existem umas pon-dres, de pequena extensão, três lajes, de dois a três metros cada uma, são as pondres do Banido de Baixo.
Sobre o casebre, e pelo facto de este se encontrar em ruínas, tenho imensa pena. Foi ali que eu nasci, e, desaparecendo do mundo dos vivos, refiro-me ao casebre, nunca mais vai haver hipótese de ali ser colada uma lápide com referência à minha pessoa. Enfim, desventuras de quem teve o azar de não nascer em local mais nobre, um prédio com paredes de azulejos e frente voltada para uma grande praça.
Mas, as pondres de aqui vou lavrar história são aquelas, bastante mais extensas do que as do Banido de Baixo, e estabelecem a ligação entre o lugar do Charco, na margem direita, e o lugar da Candinha, na margem esquerda, do rio do Ouro. Lembro que o rio, naquele local, já se chama “Ouro”, e não “Peio”, como com elevada frequência vem sendo denominado por muitos que e ele se referem.
Na minha mais tenra infância, atravessei por ali inúmeras vezes. Sempre que a minha mãe, agora desde o Banido de Cima, que fica lá a meio da encosta de quem sobe para o centro de Abadim, me mandava à Praça, ou ao Mosteiro, como então se dizia, fazer um qualquer recado, a recomen-dação nunca faltava, que fosse e viesse pelas pondres grandes, que por ali era mais perto do que à volta, pela Ponte de Pé.
As pondres da Candinha, quando comparadas com as do Banido de Baixo, são muito mais extensas, talvez uns quarenta ou cinquenta metros, mais de uma dezena de lajes, que partiam do fundo da calçada, que descia pela frente da casa do moleiro, e começavam por transpor a levada que conduzia a água desde o inferno dos moinhos e a despachava, de novo, para o rio depois de passar pelo engenho do linho.
As lajes encontravam-se fortemente abauladas para o centro, fruto do desgaste provocado pelos tamancos dos viajantes que por ali passaram ao longo de centenas de anos. Em tempo de Inverno, mesmo estando de sol, era frequente ver-se a água a rasá-las por baixo a menos de um palmo. Nestas ocasiões, eu fixava o olhar num ponto da margem oposta e seguia em frente, como um autómato, não pestanejava nem movia a cabeça, fosse para a direita fosse para a esquerda. Assim, tinha quase a certeza de que não sofreria qualquer perda de equilíbrio motivado pela simpatia da água que corria com elevada velocidade.
Por aquela época, quando eu tinha sete, oito, ou nove anos, havia apenas um conjunto habitacional e duas famílias de moradores em toda a área do lugar da Candinha. Eram as casas dos patrões e dos caseiros da quinta com o mesmo nome. Uma casa de gente fidalga e uma casa de gente pobre, ambas rodeadas por todo um conjunto de outras construções como fossem cortes, palheiros, alpendre, espigueiro e a respectiva eira a fechar.
A família dos fidalgos era constituída por um casal e dois filhos pequenos apenas meia dúzia de anos mais velhos do que eu, uma menina e um menino. Para além do casal e dos dois filhos, vivia, na casa dos fidalgos, um quinto elemento do sexo masculino que era irmão do cônjuge marido. Não me lembra o nome de qualquer deles e, assim sendo, em particular quanto ao elemento maior e solteiro, o irmão do chefe da família, vou tratá-lo por morgado.
Foi numa tarde do mês de Fevereiro do ano em que eu fizera dois anos, e o meu pai, o Manuel Carlos, mais velho do que eu vinte e quatro, fizera vinte e seis. De facto, tinha chovido muito durante aqueles dias e os rios iam grandes por todo o lado. O meu pai chegou a casa, ao Banido de Baixo, meio eufórico, e a minha mãe, ao vê-lo naquele estado, perguntou:
- Então, que foi homem, parece que vens meio espavorido!
- Eu nem te conto, mulher…
- Então, que é que foi? Desembucha.
- É, eu vinha pelas pondres e estavam lá três mulheres à porta do moinho, aquelas mulheres que vão ao moleiro e esperam que o milho seja moído para levarem de volta a farinha. Estavam todas a olhar para o rio que já passava por cima das pondres. Eu cheguei, parei, e pus-me a medir alturas, entretanto chega o morgado da Candinha que também parou e meteu conversa comigo. Um diz, passamos? O outro diz, é melhor voltar para trás e ir à volta pela Ponte de Pé. À volta pela Ponte de Pé, não, disse eu. Peguei nos socos na mão e comecei a passar. O morgado da Candinha então chamou-me e disse, já que vais passar podias levar-me às cavalitas para eu não ter que molhar as botas, uma vez que não posso descalçá-las porque tenho um problema com os pés. Nem é tarde nem é cedo, suba cá para o burro, assim até é maior o peso e a água não nos levará com tanta facilidade. Nem queiras saber a gritaria que as mulheres fizeram a berrar, hei desgraçados que ides ser levados os dois pelo rio abaixo. Mas não, fitei os olhos na margem de cá do rio, o morgado às cavalitas com os meus socos nas mãos, e chegámos. Agora que já estou aqui, é que me dão arrepios, eu nem quero acreditar…
- Só pode ser de um burro como tu teres-te metido numa aventura dessas… Olha se por qualquer motivo apanhavas com um tronco nas pernas e tombavas para a água, onde é que estavas agora? Tu e o outro palerma que é pior do que tu… Apre, “doudos”, burros, é o que vós “seides”…
- Deixa lá mulher, está tudo resolvido.
A conversa terá terminado por aqui.
Eu aproveitei o período das últimas chuvadas, Fevereiro de 2011, para dar uma espreitadela pela margem direita do rio, ali no mesmo sítio, para reviver um pouco da história. Tal como no dia em que o meu pai por ali passou com o morgado da Candinha às cavalitas, o rio levava cerca de um palmo por cima das pondres, a água corria revolta e turva cor de barro, fazia remoinho de encontro ao muro de suporte dos lameiros, agora cobertos de mato e denso arvoredo, da Quinta da Mata.
Pensei: “Não sei se o epíteto de doudo ou de burro, será o mais apropriado para qualificar quem se arriscara a atravessar as pondres numa situação daquelas. Uma coisa sei eu: é preciso, como se dizia em situações de verdadeiro aperto em combate, ter-se desprezo pela vida”. Arrepiei-me.

Por: José Costa Oliveira

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