Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-03-2011

SECÇÃO: Recordar é viver

JOSÉ ALVES LEITE (Zé Macha de Outeiro)

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Sapateiro e tamanqueiro- Profissões em extinção

Há muitos anos que conheço o José Alves Leite, mais conhecido por todo o concelho e arredores como o “Zé Macha de Outeiro”, o sapateiro e tamanqueiro, mais precisamente desde o tempo da minha meninice quando a minha mãe lhe comprava umas socas para ela e umas chanquinhas para alguns de nós. E, nos tempos de hoje, apesar de estar reformado continua a fazer diariamente as mesmas coisas como nos tempos antigos. Fazer socos, socas e chancas com os moldes e a cozer outro calçado à mão.
O José Alves Leite, é casado com a D. Maria de Carvalho e têm oito filhos vivos, graças a Deus. São eles; António, reformado da Polícia, o Carlos, sapateiro, no Souto Longal, o Manuel Alfredo, Polícia, o José Joaquim, reformado da Polícia, o Rui, Guarda Prisional, o José Manuel, vendedor ambulante de sapataria, a Maria Celeste, emigrante e a Maria Clara, além de doméstica ajuda o irmão nas feiras ambulantes.
Tudo isto me foi dito pelo senhor “Zé Macha”, numa tarde em que lhe entrei pela oficina dentro para conversar com ele. Vou tentar pôr no papel tudo aquilo que ele me disse, com um ar bem disposto e colaborante que já é uma característica dele.
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Devo dizer que ele ao princípio não me reconheceu. É que os anos passam para todos.
- Ó senhor Zé, não me está a reconhecer?
- Assim de momento não estou a ver – respondeu prontamente a sua mulher, a D. Maria que se encontrava ali sentada num banquinho. Mas, já estou a conhecer.
- Ó homem é da Raposeira, casada com um dos Carneiro.
- Já não vivo na Raposeira vai para trinta anos Senhor Zé, sou dos Colatrés, neta do Zé Colatré e casada com o professor Carneiro, filho do Senhor Carneiro da loja. Não se lembra?
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Já estou a ver, desculpe mas, agora não estava lembrado. Então não sei quem é? O seu sogro era um homem muito sério!
Esclarecidas as dúvidas sobre a minha pessoa pedi-lhe se podia fazer uma entrevista para me contar alguma coisa da sua vida e, principalmente das suas profissões. Comecei por perguntar-lhe onde nasceu, enquanto ia apontando no meu bloco e, pondo a máquina fotográfica a jeito, ao meu lado, para de vez em quando eu poder fotografá-lo enquanto ele manejava as ferramentas.
- Nasci no lugar de Paneladas, que é um lugar desta freguesia de Outeiro. Vivi lá algum tempo, só vim para este sítio quando a estrada se abriu.
- Diga-me senhor Zé, trabalhou sempre nesta profissão?
- Sim senhora! Já a aprendi com os meus pais que também eram tamanqueiros e sapateiros.
- Ai sim? Não eram agricultores?
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-Não senhora, nunca trabalharam na lavoura e tinham oito filhos para alimentar. Eu e os meus irmãos trabalhamos todos em casa do meu pai até mais ou menos à idade dos vinte anos. Depois cada um procurou um modo de vida diferente. Apenas ficamos três com a profissão do meu pai. Um deles era o Alfredo que morreu, coitado. A profissão do meu pai dava para o pãozinho e uma sopinha mais ou menos. Lá fomos crescendo.
O meu pai nunca me pôs na escola. Só muitos anos mais tarde e já com os filhos quase todos arrumados, quando precisei de tirar a carta de condução é que, um professor da minha freguesia me animou a aprender pelo menos o mínimo para eu fazer o exame da condução. Claro que não fiquei com exame nenhum da escola mas, lá aprendi o básico que me valeu muito. Para ler e para o meu negócio, como por exemplo assinar documentos. Quem me ajudava muito era a minha mulher que era muito esperta nas contas, ninguém a enganava!
- Ai isso sim, é verdade, tinha boa memória para as contas, diz a D. Maria, atenta ao desenrolar da nossa conversa.
- Pelo que estou a ver os tamancos, os socos e as chancas ainda são feitas da mesma maneira, tudo feito à mão. Já agora senhor Zé, onde vão buscar a madeira para fazer esse calçado? E que tipo de madeira é?
- Olhe senhora este calçado é feito de madeira de amieiro. Dantes ia-se ao monte e trazia-se já cortado em “roletes”. Depois tinha que cortar o excesso com uma “enchó” , depois é que era moldado à feição. Demorava-se muito tempo e ganhava-se pouco. Hoje em dia já vem a madeira da fábrica, toda pronta e por números. Nós aqui para acabar de os fazer pomos o couro em água para amolecer que é para o podermos moldar às formas. Depois pregamos as taxas e deitamos as solas de borracha dos pneus. Faz-se tudo muito mais rápido.
- Quais eram os mais procurados, os socos , as soquinhas das mulheres ou as chancas? Quem era os seus clientes?
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Os socos e as chancas eram mais acessíveis às pessoas do campo com menos recursos para comprar calçado de pele na feira ou nas sapatarias, que trabalhavam no campo todo dia e quase sempre em cima da humidade e também era usados pelos lavradores abastados que os calçavam por casa e quando iam verificar as colheitas e assim traziam os pés enxutos e quentes.
- Vendi muito para as minas da Borralha. Usavam-nas para terem os pés enxutos dentro das minas. Depois vieram as galochas aí foi o “carago”, o negócio desceu bastante ou quase todo.
- Como é que o senhor Zé fazia para chegar à Borralha com os socos e as chancas? São uns bons quilómetros e sempre a subir.
- Ia a pé com a minha mulher, com o saco às costas com os socos e as chancas. Como o caminho era longo levávamos uma merendinha para mastigar, para a ida e também para a vinda, embora nos fossem oferecendo uma pinguinha de vinho, pois já éramos conhecidos. Naquele tempo não havia estradas e íamos por caminhos que atravessavam os montes. A maior parte das coisas que levávamos já iam encomendadas para os fregueses habituais. Ai senhora, naquele tempo fazia-se muito negócio nas minas. Tudo ia lá tentar vender alguma coisa.
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Também levei calçado para o Couto, para os comerciantes.
- Ó senhor Zé além da feira de Cabeceiras onde vendia mais?
- Fazia a feira semanal de Cabeceiras de Basto, da Venda Nova e também de Ferral.
- E quem o transportava para tão longe?
-Quem me transportava a mim e a outros comerciantes ambulantes era o “Escaravelho do Arco”. A D. Fernanda conheceu-o?
- Sim, sim conheci.
- Pois ele levava-me a mim, aos ferreiros, tendeiros do Arco de Baúlhe e ao pai do Mário Tendeiro. Levava-nos e trazia-nos depois a todos. Mais tarde como acabou a feira da Venda Nova, a freguesia de Salto que é muito grande formou uma feira ao Domingo, que hoje se tornou um feirão. Andei nessa de Salto cerca de quinze anos ou até mais.
-Mas, o senhor Zé já se reformou.
- Reformei-me já há bastante tempo de vendedor embora, acompanhe algumas vezes o meu filho, o José Manuel que ficou com o negócio de ambulante em meu lugar para o ajudar. Ele ficou com as vendas mas, não ficou com o meu ofício. Como a senhora vê continuo a fazer socos, ou socas de senhora, chancas. Este tipo de calçado é mais procurado agora para os grupos folclóricos, cortejos etnográficos e exposições de artesanato representando a nossa terra. Os emigrantes costumam também levar para oferecer uma prenda típica. Não sei se viu o Programa “Verão Total” da RTP, que foi feito em Cabeceiras. O meu filho Carlos esteve lá representado e o Helder que foi o apresentador até calçou um socos que o meu filho tinha lá expostos. A minha arte é muito tradicional, não se ganha muito, vai dando alguma coisa mas, hoje tudo quer ganhar muito dinheiro por junto e, por isso a minha arte está quase em extinção. O meu trabalho não é como o dos funcionários públicos.
- O senhor Zé ao mesmo tempo que vai consertando o outro calçado, vai pregando a borracha na madeira dos socos e das chancas vai conversando com os amigos, alguns já reformados e também com os clientes. Ajudam-no a passar as horas, ao mesmo tempo vai ficando informado do que se passa na freguesia e nas outras em geral. Do futebol e da crise que vai pelo mundo.
- A gente não pode estar sempre só metido entre quatro paredes, tem que conviver. Sei tocar muito bem cavaquinho. Ainda aprendi em solteiro.
- Tocava cavaquinho nas festas senhor Zé?
- Não, tocava mais por casa ou num ajuntamento entre amigos. Antigamente as festas não eram como agora.
- Diga-me, quantos anos tinha quando casou? Em que ano nasceu?
- Nasci em 22 de Fevereiro de 1926. Tinha vinte e sete anos quando casei. Fiz oitenta e cinco anos. A minha esposa tem oitenta.
Como estavam a chegar os amigos do costume para as conversas habituais, dei por terminada a nossa entrevista, agradecendo-lhe pelo tempo que me dispensou. Devo dizer que fiquei muito agradada pela maneira como me atendeu. Oxalá ele continue muitos anos a taxar os socos e a remendar o calçado.
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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