Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2011

SECÇÃO: Cultura

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Museu das Terras de Basto: dar a conhecer o património de Cabeceiras

Veja o blogue: http://museuterrasbasto.wordpress.com/

O Museu de Terras de Basto, instalado no Núcleo Ferroviário de Arco de Baúlhe, criou um blogue onde qualquer um pode tomar conhecimento sobre o trabalho que aí se vai desenvolvendo, bem como ficar a conhecer as propostas do museu para acolher nos seus núcleos as escolas e o público em geral.
Entendeu-se também que seria importante começar a divulgar a riqueza patrimonial que o concelho possui tendo-se escolhido três temas para serem tratados:
1. Património Documental, divulgação de documentos que de algum modo refiram Cabeceiras de Basto e o seu concelho;
2. Património molinológico, divulgação do rico património de moinhos aqui existente;
3. Património gastronómico, começar a publicar as receitas culinárias do concelho.

Nestas páginas iremos começar por divulgar as memórias paroquiais de 1758, pois estamos certos que serão do agrado dos cabeceirenses.
Importa dizer que em 1758, com o apoio do governo da época, foi enviado a todos os párocos um inquérito através do qual se pretendia recolher dados sobre cada paróquia portuguesa. No “Inquérito” eram abordados três grandes temas – a terra, a serra e o rio.
Todos os párocos cabeceirenses responderam ao inquérito – Abadim, Alvite, Arco de Baúlhe, Basto (Santa Senhorinha), Bucos, Cabeceiras de Basto, Cavês, Faia, Gondiães, Outeiro, Painzela, Passos, Pedraça, Refojos de Basto, Rio Douro, Vila Nune e Vilar de Cunhas.
Neste espaço iremos publicando as memórias paroquiais de 1758, de cada uma das freguesias cabeceirenses, seguindo a ordem alfabética, publicando-se neste texto a memória paroquial relativa à freguesia de Abadim.
O texto das memórias paroquiais foi actualizado de modo a que a sua leitura seja facilitada. Para quem pretenda consultar o texto com a grafia original aconselha-se a consulta de José Viriato Capela – As freguesias do distrito de Braga nas Memórias Paroquiais de 1758: a construção do imaginário minhoto seiscentista. Braga: Universidade do Minho, 2003. P. 213-229.

ABADIM

Informação da freguesia de São Jorge de Abadim de Basto deste Arcebispado Primaz de Braga. José Antunes, abade na igreja de São Jorge de Abadim, couto de Abadim, comarca e termo da vila de Guimarães e Arcebispado de Braga Primaz, satisfazendo a ordem deambulatória do Muito Reverendo Senhor Desembargador Provisor Francisco Fernandes Coelho em que determinava Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Dom Frei Aleixo Henriques de Miranda, Bispo eleito de Miranda e Governador deste Arcebispado de Braga Primaz. Informo eu com toda a individuação sobre o que Sua Majestade Fidelíssima que Deus guarde ordena aos interrogatórios que vinham juntos com a mesma ordem ao que satisfaço na forma seguinte, respondendo unicamente aos interrogatórios que tenho que informar por evitar longo processo.
Esta freguesia de São Jorge de Abadim é Província de Entre Douro e Minho e Arcebispado de Braga Primaz, comarca e termo da vila de Guimarães e couto de Abadim de Cabeceiras de Basto. Deste couto é donatário e seu capitão-mor Tadeu Luís António Lopes de Carvalho Fonseca e Camões da vila de Guimarães. Tem esta freguesia cento e três vizinhos, quatrocentas e quinze pessoas em que entram os ausentes e vinte e nove menores. Está situada na costa de um monte; para o meridiano dela se descobrem algumas povoações como é a freguesia de São Miguel de Refojos, a de Santa Maria do Outeiro, a de S. Pedro de Alvite, a de São Tiago da Faia e grande parte do concelho de Cabeceiras, como na Província de Trás-os-Montes, além Tâmega se descobrem a povoação de Serva, Atei e Mondim de Basto e outras mais povoações e a grande serra do Marão que dista desta freguesia três léguas e meia.
Esta freguesia é couto sobre si que compreende e se compõem de cinco lugares a saber: Aldeia da Torre, de Santo António e no fim deste entre o Poente e Norte está a igreja desta freguesia o lugar de Travassô, o de Porto d’Olho e o das Torrinheiras e os últimos três de pequeno número de vizinhos. O orago dela é São Jorge e a igreja paroquial tem cinco altares: o maior e quatro colaterais e estes são de Nossa Senhora do Rosário, do Menino Deus de São Sebastião e das Almas, e há nesta igreja a confraria do Santíssimo Sacramento com instituição de confrades. É abadia de padroado secular de que é padroeiro o senhor donatário deste couro. Os rendimentos dos frutos desta igreja são mais ou menos conforme o saque deles entre certos e incertos renderão quatrocentos e sessenta mil réis pouco mais ou menos. Tem uma ermida no meio do lugar de Santo António com a invocação do mesmo Santo, e fora do lugar de Travassô tem outra da invocação de Nossa Senhora do Bom Despacho. E também fora do lugar das Torrinheiras há outra ermida com a invocação de Nossa Senhora dos Remédios. E de todas elas é o abade desta freguesia administrador e só quando se festejam as sobreditas ermidas concorrem algumas pessoas das freguesias vizinhas a visitarem estes santuários.
Os frutos que os moradores desta freguesia colhem em mais abundância são diferentes pela diversidade dos lugares e clima da terra. Os das duas aldeias da Torre e Santo António colhem em mais abundância milho grosso e milho branco e painço e centeio. Estes três géneros em menos abundância, como também vinho, azeite, castanha e bolota de carvalho e os dos três lugares Travassô, Porto d’Olho e Torrinheiras colhem em mais abundância centeio e pouco milho e dos mais frutos nenhum por serem terras muito frias.
Tem esta freguesia juiz ordinário e câmara a que, digo, a cuja eleição preside o senhor donatário deste couto de que é seu ouvidor e capitão-rnor e somente o corregedor da vila de Guimarães conhece deste couto estando em correição ou nova alçada.
Serve-se este couto e freguesia do correio do concelho de Cabeceiras de Basto que dista desta freguesia um quarto de légua. Dista esta freguesia da cidade de Braga cabeça deste Arcebispado sete léguas e da de Lisboa sessenta e seis léguas.
E está situada no meio da aldeia da Torre desta freguesia, uma antiga e elevada Torre do donatário e senhor deste couto como administrador do morgado dos Carvalhos, o qual não padeceu ruína no Terramoto do ano de 1755.
Não tem esta freguesia serra alguma com denominação própria e o monte em que está situada tem uma légua de distância e principia no sítio chamado Entre-ambos-os-Rios e finda no sítio chamado o Marco da Portela Velha. No alto deste monte está o lugar das Torrinheiras e no meio o de Porto d’Olho e de Travassô.
Produz somente matos como urgem [sic, por urze], carquejas e tojos.
É fria com extremo e dá alguns pastos. Criam-se lobos. Pela parte do Nascente e Ponte deste monte correm dois regatos para o Sul com curso rápido que se unem junto ao lugar de Ponte de Pé e se vão incorporar com o rio Tâmega. Neles se criam algumas trutas e bogas. Suas águas são diminutas, porém perenes todo o ano e delas usam os povos vizinhos livremente.
Em um destes regatos que corre pela parte do Poente há uma ponte chamada da Ranha que é de cantaria de pedra. Neles há vários moinhos e os pertencentes a esta freguesia são seis. Nesta freguesia não há coisa alguma digna de memória, nem se me oferece mais que responder aos interrogatórios.
E por esta me ser mandada a passei na verdade e assinei com os reverendos párocos vizinhos de Santo André de Rio Douro e São Nicolau de Basto. São Jorge de Abadim e de Maio 22 de 1758. O abade José Antunes. Vigário António Carneiro da Costa. O reitor de S. Nicolau, Domingos Camelo de Souza.

Referências documentais:
IAN/TT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, memória 7, pp. 73 a 77. – Tombo da igreja, 1500, 5, 279v. - Obrigação à fábrica da ermida de Nossa Senhora da Glória, 1606, 10, 40v. - Obrigação à fábrica da capela de Nossa Senhora da Conceição e S. Domingos, 1776, 140, 188v.

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