Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-02-2011

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

DESFALQUE NA CÂMARA

O Jornal de Cabeceiras de 18 de Dezembro anunciou a morte trágica, ocorrida no dia 12, de Francisco de Matos Vilela Passos, antigo proposto do recebedor e tesoureiro da Câmara. Diz que o seu funeral, realizado a 14, constituiu uma grande manifestação de pesar.
O semanário “O Democrata” de 22 de Dezembro é mais explícito e conta que, quando estava no leito, o tesoureiro municipal se suicidou com um tiro no coração. Acrescentava: “A causa deste acto de desespero ou de desânimo, foi o desfalque encontrado na thesouraria (importância superior a 2 contos). Rematava afirmando que este bom homem, que deixava “uma viúva cercada de creanças”, não tinha desviado o dinheiro em seu proveito e que tinha morrido “vítima dos falsos e repugnantes processos políticos deste concelho”.
Os números seguintes do semanário republicano vão se ocupar do assunto, afirmando que “os gamelistas andam desorientados com a descoberta do antigo e grande desfalque na Thesouraria da Câmara” e “que se moveram altas influências para que o infeliz thesoureiro não dissesse quem lhe sugou o dinheiro”. E insinuava-se que “há cousas bonitas nas irmandades e confrarias”, e ainda que a sindicância, já ordenada mas ainda não iniciada, “trará a público grandes desfalques e gravíssimas irregularidades”.
A Comissão Administrativa resolve consultar um advogado para ver a melhor maneira de tratar deste assunto.

REPUBLICANOS?

CENSURA AO FARMACÊUTICO MAIA

“Tendo a Comissão tido conhecimento que o farmacêutico do Instituto de Gondarém – Francisco Luiz de Castro Maia – abandona com frequência a farmácia deixando-o entregue a uma creança sem habilitações algumas, e ausentando-se até do concelho, deliberou, por maioria, que fosse censurado e se lhe desse conhecimento de que, repetindo tão graves faltas, será demitido”.

AVISO AO DR. DIOCLECIANO

“O Democrata” lembrou que havia “neste concelho dois partidos médicos, um com sede no Arco. O médico do partido do Arco reside à muito tempo fora da sede em outra freguesia com grande prejuízo d’esta importante localidade e com escândalo político porque se não cumpre a lei”.
O semanário informa que a Comissão Municipal parece que desconhecia o facto, “mas já se diz que a Comissão fecha os olhos a esta escandalosa irregularidade, para não bolir com o médico que pertence aos que se dizem republicanos velhos, mas que é botelhista (marca gamelista).
Para não arrefecer, no número seguinte malha novamente no dr. Diocleciano, ainda que não diga o nome abertamente: “Que em casa d’um médico, que se dizia republicano mas que estava com o Botelho, de arranjar correspondências recebidas de mentirolas grosseiras, para agredirem os republicanos da terra. – Que este médico será obrigado, brevemente, a cumprir as suas obrigações, como facultativo municipal.

ESTRANHO CONCEITO DE LIBERDADE

Com a ressalva de que não são apologistas da violência, “O Democrata” diz “no caso que se trata tudo foi preciso”. O caso foi a destruição em Lisboa das redacções dos jornais “Liberal”, “Diário Ilustrado” e “Correio da Manhã”, este defensor d’essa negregada canalha jesuítica.

JOÃO FALCÃO

Está também na berlinda este vereador da nóvel comissão administrativa. “O Democrata” dá-o não só como presente no “banquete real realizado no Escacha” em honra do Dr. Francisco Botelho, insinuando que o “republicano João Falcão de Magalhães (…) foi dos que promoveram o jantar dado em honra do cacique-mor”.

NOVAMENTE BARÃO DE BASTO

Uma das leis que o governo provisório tinha implementado logo no início da sua vigência foi o fim dos títulos nobiliárquicos. Mas a reacção foi tão grande que não houve maneira senão recuar. E assim pelo decreto nº 60, de 02/12/1910, o governo repôs, com certas condições, os títulos nobiliárquicos. Desta maneira o cidadão cabeceirense Júlio José Fernandes Basto retomou o seu título de Barão de Basto.

FERIADOS

Um decreto do penúltimo dia do ano determinava que se um feriado caísse ao domingo, seria gozado no dia seguinte.

PASTORAL

O Episcopado Português publicou em 24 de Dezembro uma pastoral em que denuncia o sectarismo anti-católico do governo. Tinha-se já a sensação que a República viera só para atacar a Igreja e nada mais. O governo responde de imediato com a extinção das Faculdades de Teologia e de Direito Canónico.

ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL

Foram empossadas as juntas da paróquia das freguesias do Arco, Bucos, Cabeceiras (S. Nicolau), Painzela, Pedraça e Refojos. Esta última tem como presidente o Sr. Januário Pereira Leite Basto, sendo seus vices José Gonçalves Pena e Filipe Pereira Bastos. São vogais Manuel Joaquim Alves Machado e António Pacheco Basto. O 1º substituto é Álvaro de Moura Teixeira.
A junta do Arco era presidida por José Benjamim de Magalhães e a de Pedraça por Justino Pereira Basto.

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Foram também empossadas as juntas paroquiais de Abadim, Basto, Cavez, Riodouro, Samão e Vilar.

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O exclusivo de fornecimento de carnes verdes para os dois talhos municipais de Refojos e Arco foram arrematados por Adelino José Pereira e Abílio Adelino Cardoso, ao preço de 260 reis o kilo de boi e de vitela.

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A comissão municipal indeferiu o requerimento do Dr. Albino Pacheco em que requeria ser reintegrado no lugar de facultativo do Instituto de Gondarém, com direito a receber os ordenados em atrazo.

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Foi resolvido reduzir o quadro de funcionário da administração para 1 secretário e 1 amanuense. Guilherme Pereira Leite, que era amanuense da administração foi nomeado interiormente para o lugar de amanuense da Câmara.

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Foi nomeado zelador da paróquia de Pedraça Bernardino Barros, de Boadela.

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O vereador Arnaldo Miranda Barros apresentou um programa das acções tomadas pela Comissão de Saúde, recentemente nomeada. Considera-o de difícil execução por falta de verbas. As medidas programadas são: “abate de rezes de qualquer espécie só no matadouro municipal (Ranha); o marchante do Arco tinha que vir abater o seu gado à Ranha, dado que o matadouro do Arco era “mais próprio para habitação de suínos; todas as pocilgas e cavalariças tinham de ser afastadas até 15 metros dos edifícios de habitação; abastecimento de água à vila e ao Arco e melhoramento da iluminação pública.

NASCERAM COM A REPÚBLICA

Ainda não tinham chegado a Valflores as notícias da República e numa humilde casa nascia um rapazito a quem, no baptismo, foi posto o nome de Adelino Machado. Foi a 7 de Outubro. A 16 de Dezembro, não muito longe, nascia, também numa casa humilde, uma menina a quem deram o nome de Deolinda. Conheceram-se, amaram-se, casaram-se, tiveram 9 filhos. De profissão, moleiros. Começaram na Ponte de Pau, passaram pelo Banido, pela Ponte da Ranha e terminaram a vida na Ponte Velha, em Pedraça. Ficaram conhecidos como os “Moleiros da Ponte Velha”.

(Não o posso afirmar ainda, mas é muito provável que o moleiro Sr. Adelino fosse a primeira criança que nasceu em Cabeceiras após a implantação da República. Cem anos depois seu filho António recorda-os nas páginas deste semanário.)

PESSOAS

Filipe Machado, importante quadro do partido regenerador em Cabeceiras pôs-se a andar para a África Ocidental.
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O Dr. Augusto Ângelo Vilela Passos, da Casa da Breia de S. Nicolau, fixou residência no Porto. Tinha começado a sua carreira como advogado, tendo sido delegado do procurador Régio, juiz substituto, provedor da misericórdia e professor efectivo do Lyceu de Cabeceiras. Colaborava jornalísticamente em jornais do Porto, Coimbra e Braga e era comentador político no Jornal de Cabeceiras.

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O Dr. Secundino Novais Basto tinha mandado remodelar à sua custa o altar de Nª Srª da Graça na igreja de Refojos. Também tinha distribuído um vestuário completo por cada um dos internados no Asilo.

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O asilo recebera pelo Natal vários donativos de que se destacavam pelo seu valor os oferecidos por D. Claudina Cardoso, D. Teresa Augusta Moura Teixeira, Domingos José Magalhães Basto e Bernardino da Graça.

GRÉMIO DE CABECEIRAS

No dia 8 de Janeiro procedeu-se à eleição dos novos corpos gerentes desta importante agremiação. Foi eleito presidente Benedito J. Coelho de Oliveira, sendo secretário José Albino de Costa e tesoureiro Teotónio Falcão.

IGREJA DA FAIA

“Pelo cofre da Bulla da Santa Cruzada foi distribuído como subsídio para a egreja da Faia, deste concelho, o importante donativo de duas casulas, uma branca e outra preta”.

EXTRACTOS DA IMPRENSA

Aviso ao Administrador

“A obra de saneamento tão bem iniciada parece que vai afrouxando. Cuidado! […] Cuidado, sr. administrador! Não afrouxe! O povo quer que seja tudo posto a limpo”.
(O Democrata)

Convicções Monárquicas

“Pois se havia por lá felizardo que, tendo ocupado elevados cargos no tempo da monarchia, conseguiu por muitos anos viver à larga de dinheiro dos cargos públicos?”

(Diário “A Pátria” sobre o desfalque na câmara)

Atestado de bom comportamento

“Qualquer cacique monarchico que pretenda atestado de bom comportamento, ou de comportamento exemplar, deve dirigir-se ao jornal monárchico (da terra)”.

(O Democrata)

Dor de …cotovello

“Toda a gente deste districto conhece de mais o procedimento moral e civil do Dr. Francisco Botelho, o célebre director da roubalheira política neste districto, nas últimas eleições”.

(O Democrata)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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