Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 17-01-2011

SECÇÃO: Opinião

O CAMINHO - DE - FERRO E O ARCO DE BAÚLHE

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Vem este tema a propósito da recente exposição que esteve patente ao público no Museu Ferroviário em Arco de Baúlhe e a sua consequente evolução ao longo dos anos.
Como ex-ferroviário e que o fui durante muitos anos, cada pedacinho daquilo que vi contenho uma historia, um pedaço da minha vida e do orgulho e saudade dos tempos em que estive ligado ás vias-férreas, estações e aos comboios. Os Museu contêm material circulante, máquinas, carruagens e vagões, sendo uma das carruagens mais luxuosas destinadas ao penúltimo rei de Portugal D. Carlos quando este viajava de comboio.
Também aí estão expostas várias ferramentas e outras coisas relacionadas com a circulação de comboios e o Arco de Baúlhe era um centro ferroviário onde terminava a linha do vale do Tâmega.
Se bem me recordo, para mim era uma alegria quando saia de Cavez a pé com uma taleiguinha na mão encurtando caminho em parada, ponte velha do Arco e estação e ás vezes até comprava um trigo no Teixeira da estação para comer pelo caminho e lá ia eu todo feliz no comboio ou automotora a caminho do Porto fazendo transbordo na Liberação.
O traçado linha era bonito sempre serpenteado por entre vinhedos e os passageiros pertenciam a todos as camadas sociais, ricos pobres, magalas e as suas bagagens eram normalmente cestas, sacos, malas de cartão e até coelho, patos e frangos vivos para fazer franquezas a quem vivia na cidade longe das suas aldeias.
Como tudo na vida acaba lá se foram um dia os nossos comboios e automotoras para não mais voltar. A recordar esses tempos temos como já foi dito o nosso museu ferroviário e a via férrea que coitada lá continua a apodrecer no seu leito de balastro á espera de ser de novo pisada pelos rodados de um qualquer comboio que certamente não mais voltara.
Pois bem; dado que o nosso concelho tem fortes ligações a um passado de comboios e caminho- de- ferro, talvez alguém da nossa gente queira saber algo mais sobre estes dois factores que se interligam e formam a simbologia “caminho de ferro”.
Aproveitar deste modo como disse o meu passado de ex-ferroviário e da minha experiência de muitos anos como técnico de vias-férreas ao serviço dos Caminhos de Ferros?... Um caminho-de-ferro são duas filas de carris assente sobre travessas de madeira, ferro ou betão e estas igualmente assentes sobre uma almofada de brita ou balastro que quando alinhada á corda e batida à forquilha toma a forma de um trapézio.
Esse trapézio na nossa gíria é chamado de banqueta e eu por uma questão de brio alinhava as guias á corda a até barria as bermas da via á vassoura.
Os carris são peças de aço de comprimento e secção variável e formados por cabeça, alma e patilha. A cabeça ou mesa de rolamento está sujeito ao desgaste provocado pelos rodados. A alma é a parte do meio e a patilha fixa o carril ás travessas através de cochins, chapins, tirafundos, escápulas ou parafusos. Em rectas a linha é montada em tramos, isto é as juntas dos carris ficam paralelas enquanto que nas curvas são alternadas devido à força centrifuga dos rodados que tende sempre paras o lado exterior é por isso que nas curvas se dá uma sobrelevadas ou escala que vai até 12cm consoante o raio da curva e a velocidade dos comboios e permite que o material circulante entre e saia direito na curva sem o perigo de descarrilar ou ripagem da linha para fora do seu eixo normal.
Os carris são ligados uns aos outros por eclizes aplicadas na alma do carril e fixadas por parafusos havendo contudo uma folga dada por fixas que permite a sua dilatação quando se dão fortes mudança de temperatura.
Já aconteceu comigo a linha fugir cem metros de extensão do seu alinhamento à passagem dum comboio ficou que nem uma serpente e foi um grande problema voltar a pô-la no seu alinhamento normal.
A parte mais complexa numa via-férrea são as mudanças de via ou agulhas como vulgarmente são conhecidas. Exige muita atenção aquando da sua montagem e são compostas por uma cróxima (coração da agulha), contra - croxima, patas de lebre,
lança articuladas, contra –lanças, tirante e peso, são montadas com a ajuda de uma gueija para que tudo fique rigorosamente certo. Servem para desviar a marcha das locomotivas quer através do um triângulo ou placa giratória como a que existe no Arco de Baúlhe. Aparecimento um caminho-de-ferro parece coisa simples, mas não é bem assim porque ao menor descuido a composição pode descarrilar originando imensos prejuízos e perdas de vidas humanas. Ao longo dos anos assisti a muitos desastres ferroviários como um choque frontal de comboios, descarrilamentos de comboios de mercadorias e de passageiros, composições a rolar pelos aterros abaixo por acção das minas colocadas na linha, pedaços de carne espalhados pelo mato e morte de alguns colegas nas mesmas circunstancias. Em África nem tudo eram rosas para os brancos o ter que rondar a linha de noite no meio de tempestades tenebrosas com trabalhadores embriagados era assustador. Apesar de tudo fui feliz nesse continente e ainda tenho saudades porque acredito que a África tem feitiço.

Por: Alexandre Teixeira

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