Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-12-2010

SECÇÃO: Opinião

AS PAPAS DO SAMÃO

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No dia 20 de Janeiro de 2009, realizava-se no lugar de Samão a tradicional festa das papas em honra a São Sebastião o venerado santo que livrou o povo da fome e da peste sendo esta devoção tão antiga que a sua crença se perde na história do tempo.
Desde tempos muito recuados que as povoações de Gondiães e Samão alternadamente, veneram o seu santo padroeiro a 20 de Janeiro de cada ano promovendo a festa das papas que consiste em dar ao povo comida e bebida a todos os devotos do santo bem assim como todos quantos se incorporam na festa mesmo por mera curiosidade.
Também incorporados no mesmo espírito, foi então que um grupo de alunos da Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto, decide estar presente na festa das papas em Samão. Uns já conhecedores da tradição os outros apenas mergulhados na curiosidade.
À hora aprazada o respectivo grupo junta-se no largo do mercado onde os aguarda um pequeno autocarro camarário que os iria conduzir até à aldeia do Samão. Alegres e bem dispostos lá iam tagarelando uns com os outros durante o trajecto fazendo uma paragem em Moimenta para recolher o casal Moutinho que se vinha juntar a nós.
Ao chegar ao lugar de Cunhas, viramos à esquerda e começamos a subir a serra até ao Vilar e foi então já com o Samão à vista que ante os nossos olhos extasiados se apresenta uma paisagem deslumbrante a montanha estava toda coberta por um espesso manto de neve de infinita brancura… Tinha nevado durante a noite de forma intensa e se isso afastou muitíssimos visitantes deu contudo uma beleza diferente ás festividades raramente vista em anos anteriores.
Chegados ao largo das papas, logo nos perfilamos perante a objectiva do Quim Sousa que era o fotógrafo de serviço e diga-se em abono da verdade que até percebe do assunto!... Nesse recinto tem o Grupo Associativo do Samão um café e havia um restaurante improvisado e houve quem não se conteve em comer uma ou duas fêveras no pão, pois, pois, é que os ares da montanha abrem o apetite…
Ao contrário de anos anteriores o povo era muito pouco devido ao mau tempo.
Uns esfregavam as mãos outros batiam com os pés no chão para afugentar o frio, e alguns dançaricavam ao som da música do nosso amigo sobe-e-desce do Arco de Baúlhe.
Finalmente por volta do meio-dia soltam-se os foguetes anunciando o fim da eucaristia na Igreja e início da procissão desde a casa do santo até ao largo das papas numa distância aproximada de trezentos metros.
À frente do cortejo vinham três carros de bois puxados por outras tantas juntas de vacas. As vaquinhas vinham todas enfeitadas com colares coloridos e muitas campainhas, as molhelhas muito lustrosas o jugo pintadinho e até os cornos vinham bem tratados. Os carros chiavam à moda antiga e vinham carregados com broas, tigelas de papas, bocados de toucinho, um pipo de vinho americano loiças e toalhas de linho. Um pouco atrás o palio com o reverendo Pe. Xavier pároco das freguesias de Vilar e Gondiães coadjuvado por dois Padres que por breves momentos falam sobre o significado de tal devoção.
Finda a parte religiosa deu-se de imediato início à distribuição das papas tão ansiosamente aguardada… Os membros da organização começaram a estender as toalhas de linho sobre o manto espesso de neve. Um dos mordomos coloca uma cana ao alto e deixa-a cair ao longo das toalhas e nesse lanço são colocadas algumas malgas com papas, uma broa de milho e uma tigela com pedaços de toucinho. Logo a seguir é distribuído o vinho, guardanapos colheres e copos. A comida não valia pela qualidade mas sim pelo simbolismo da tradição.
Logo a seguir foi aberto o leilão das broas que segundo os crentes tem mezinha e não ganha belor do mesmo modo também leiloadas as oferendas feitas ao santo pelo povo residente que são apenas forma de angariar fundos para custear os gastos…
No próximo ano as papas são em Gondiães um pouco diferentes mas unidas no mesmo espírito de devoção ao santo milagreiro.
O nosso grupo deslocou-se depois para o centro do lugar, mais propriamente para casa da nossa estimada colega D. Cecília que, bem assim como o seu marido Sr. Agostinho fizeram questão de nos oferecer o almoço, que além de muito bem confeccionado foi servido com abundância e muita simpatia. Antes do almoço seguindo a velha tradição cantamos as janeiras aos donos da casa.
No regresso a Cabeceiras apesar do frio todos constatamos que afinal foi um dia bem passado.

Por: Alexandre Teixeira

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