Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-12-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (132)

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USURÁRIOS, AGIOTAS…, OS NOVOS VENDILHÕES DO TEMPLO

Continuo a nutrir alguma compreensão pelo desencanto dos Judeus quando se aperceberam das reais possibilidades, talvez melhor dito, das propostas de vida e de sociedade apresentadas por aquele que há muitos séculos esperavam como sendo o Messias o seu salvador.
Eles, os Judeus, esperavam de facto uma criatura que, vinda do além, se propusesse defendê-los para todo o seu futuro e mesmo vingá-los de todo o seu passado, que tinha sido de opressão, de servidão e de escravidão, às mãos de outros mais poderosos e sanguinários. Eles, os Judeus, esperavam uma criatura divina que, a golpes de espada, levasse tudo à sua frente.
Mas não, Jesus Cristo apareceu a pregar-lhes a tolerância, o amor pelo próximo, e outras práticas e atitudes que nada tinham a ver com o varrimento de todos os seus anteriores e actuais opressores, a golpes de espada flamejante…
Jesus Cristo viria, contudo, a ter um gesto digno de tais expectativas quando correu com os vendilhões do Templo de Jerusalém, a pontapé, e derrubou todas as bancas do negócio pronunciando a sua mais célebre frase: “desapareçam daqui, deixem de conspurcar a casa de Meu Pai”. Porém, nunca chegaria a conseguir convencer aquele povo, e o seu futuro, em terras da Palestina, foi aquilo que se sabe.
Li, no Jornal de Notícias de 14 do corrente mês de Dezembro de 2010, que os juros implícitos na utilização dos cartões de crédito irão atingir os 33,20%. Fiquei deveras impressionado. Como é que é possível que hoje, quando os bancos pagam zero por toda a espécie de depósitos à ordem, e pagam pouco mais que isso, um ou dois por cento, por qualquer tipo de depósitos a prazo, se dêem ao desplante de cobrar mais de trinta por cento por créditos ao consumo.
Bom, que o consumo precisa de ser penalizado, é um facto, mas que os beneficiários directos de tal penalização sejam os bancos, isso é outra coisa, bem diferente.
Não sei se terá sido motivado por me preocupar de mais com este tipo de situações, mas o certo foi que, uma noite destas, tive um sonho que tendo começado como se de um pesadelo se tratasse, me deu um certo gozo logo que acordei.
Eu sonhei com um gigante. Era uma criatura enorme, de feições humanas, claro, com cerca de cem metros de altura, as mãos mediam três metros cada uma, e os pés calçavam um par de botas cardadas, com biqueiras de aço, e mediam dezoito metros desde o tacão até à biqueira. Era a figura de um homem, tinha o cabelo cortado à escovinha e um bigode que fazia lembrar o Charlot.
Identifiquei logo o arruamento por onde ele descia. Era a Avenida João XXI, em Lisboa. O local era-me familiar por se situarem ali as instalações da sede da Caixa Geral de Depósitos. O gigante desceu aquele pedaço de avenida, vindo dos lados da Avenida de Roma, voltou-se para a esquerda deu dois pontapés no edifício da Caixa Geral de Depósitos, deixou tudo em pedaços, apenas ficou a ver-se uma nuvem de poeira no ar. Desceu um pouco, olhou para as instalações da Praça de Touros do Campo Pequeno, mas não perdeu tempo, voltou à esquerda, Avenida da República adiante, até ao Saldanha. Dali, desceu a Fontes Pereira de Melo e voltou a parar um pouco mais ou menos a meio, também voltado para a esquerda, era o edifício da Portugal Telecom, também não tomou qualquer atitude. Seguiu em frente, avenida abaixo, até ao Marquês.
Depois, pela Avenida da Liberdade. Sempre que avistava uma agência bancária, fazia uma pausa na sua caminhada, parecia mesmo que o que mais desejava era fazer-lhe o mesmo que fizera na Avenida João XXI, à sede da CGD, mas também se notava que não queria causar danos colaterais e, se efectivamente desse um chuto em qualquer daquelas dependências bancárias, de rés-do-chão, todo o edifício iria abaixo. Não perdeu mais tempo com aquele tipo de coisas menores.
Esforçou-se por chegar o mais rapidamente possível à baixa pombalina. Claro está que tudo o que eram fios e cabos, que lhe aparecessem pela frente, no espaço aéreo, cedia, à sua passagem, como frágeis fios de qualquer teia de aranha. À medida que ia descendo, todo o trânsito: automóveis, autocarros, eléctricos da companhia carris, pessoas, muita gente que sempre circula pelas principais avenidas e pela baixa pombalina de Lisboa, tudo parava. A cidade parou, a cidade estava parada.
O nosso gigante desceu a rua do Ouro, passou pelas sedes dos principais bancos portugueses e sucursais de bancos estrangeiros, um pontapé neste, outro pontapé naquele, tudo foi ficando reduzido a escombros, e no ar só se via muita poeira, as pessoas tapavam a cara com os lenços e não paravam de espirrar.
Não há qualquer dúvida de que a sobrenatural criatura trazia o plano perfeitamente elaborado. Deixou a cereja mesmo para o fim. O último chuto foi na sede do Banco de Portugal, ali mesmo ao chegar à Praça do Comércio. O vento estava de norte e a poeira rapidamente chegou até ao cais das colunas, ao rio Tejo. O povo que desembarcava dos barcos que fazem as travessias do rio quedava-se à saída do cais, boquiaberto, toda a gente muda, a olharem uns para os outros.
Acordei.
“Puxa vida! Como gosto dos bancos!” – Exclamei com um sorriso bem disposto.
“Não é todos os dias, melhor, não é todas as noites, que se tem um sonho destes” – continuei a pensar.
Farão, os meus amigos, algum tipo de ideia das razões que me levam a ter este tipo de sonhos?
São os mercados, não sabem? São os mercados!
São os mercados que mandam em tudo. São os mercados que mandam nas nossas finanças! São os mercados que o fazem pagar 33,2% nos seus débitos (atenção não confunda débitos com créditos), aquilo que você tem quando paga 33,2% de juros ao ano, aquela coisa que os extractos bancários trazem em letras muito miudinhas “TAEG”, ou qualquer outra sigla parecida, tem a ver com débitos, aquilo que você deve.
Quer um conselho? Não seja tolo. Não use nunca, nem um só dia sequer, qualquer desse tipo de ajuda que os bancos lhe estão todos os dias a meter pelos olhos dentro.
Eles são, sem qualquer dúvida, os vendilhões dos dias de hoje.
E o gigante, aquele com que eu sonhei, será o tal “Messias” que um dia virá para nos livrar das garras do mercado hodierno, cujos principais agentes são os bancos e os banqueiros, os usurários, os agiotas…, os vendilhões dos tempos que correm.

Por: José Costa Oliveira

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