Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

UM COMEÇO CALMO
Causou alguma surpresa o nome do novo administrador escolhido para enfrentar os destinos do concelho, agora republicano. Muito jovem ainda, filho dos senhores da Casa das Obras, militara nas hostes do partido progressista local e parecia amigo íntimo do Dr. A. Vasconcellos. Cursava direito na Universidade de Coimbra e escrevia umas coisas no “Povo de Cabeceiras”, tendo mesmo sido acusado de plágio dum estudo dum jornalista brasileiro. Tinha uma certa fama de arruaceiro e estivera envolvido na cena de pancadaria e tiroteio na assembleia eleitoral de Pedraça uns anos antes. Também não estava esquecida uma sova que dera a uma criança estropiada numa rua da vila. Por causa desse episódio tinha levado duas chapadas em plena Praça Barjona de Freitas, a que não reagira. Também não estava esquecido o episódio em que negara ter recebido um sinal de 100,000 réis pela venda de um vinho a um honrado comerciante.
Mas apareceu com o apoio de alguns republicanos, nomeadamente o do Dr. Diocleciano Peixoto, figura estimadíssima, a quem tinham garantido que o Florêncio Lobo, indigitado para administrador, se tinha filiado recentemente no Partido Republicano e prometera chefiar uma comissão administrativa que respondia ao seguinte acordo:
1. Aproveitar os indivíduos mais conhecidos pelas suas ideias republicanas;
2. absoluta abstracção dos mandões das facções monárquicas;
3. atrair dos 2 grupos elementos dignos e honestos.
Assim, da facção regeneradora foram postos de parte o Pe Domingos Pereira e Filipe Machado e da facção progressista o advogado António de Vasconcellos e Manuel Alves Pereira e alguns outros comparsas principais.
Diga-se de passagem que a lista escolhida não correspondia lá muito à letra do acordo e entendeu-se que por trás da elaboração desta esteve o dedo do Dr. António de Vasconcellos, eminente progressista, que, no entanto, não tinha aderido à República. Assim, num artigo publicado no diário “A Montanha”, ligado ao Partido Democrático – a facção principal em que se dividira o Partido Republicano – um ilustre republicano cabeceirense , o médico da armada Dr. António Maria de Freitas Monteiro, apreciava, assim, uns meses depois, os membros da Comissão:
“O Dr. Florêncio Lobo foi um dos mais espalhafatosos caciques da monarchia ao serviço dos bandos progressista e franquista, praticando proezas várias, a última quando das eleições do governo Thalassa, sendo recordado de, com o célebre Alves do Samão, fomentar a desordem e dirigir o tiroteio na Assembleia de Pedraça, resultando vários feridos”.
Dr. José Cezar de Vasconcellos – antigo administrador progressista, e membro da antiga câmara thalassa, conviva do célebre jantar oferecido no Porto a João Franco;
(…) Teixeira Basto, Eduardo de Moura e António Machado Pereira, camaleões da monarchia, (e) este último também esteve no jantar a João Franco; Manuel P. Baptista, progressista reaccionário orientado pela leitura assídua da “Palavra” (diário do Porto, órgão do Partido Nacionalista) e que pouco antes do 5 de Outubro acusava Teixeira de Sousa de andar feito com os canalhas republicanos; e João Leite de Magalhães e Adolfo Baptista, genuínos progressistas.”
O mau feitio do administrador veio ao de cima logo no dia da posse, conforme consta do relato feito numa carta aberta ao governador civil e endereçada pelo médico da armada já identificado, pois (…) no dia da posse da administração do concelho em que, por tardar o telegrama com a respectiva nomeação, deitou cá para fora a mórbida ideia de se tomar a administração por meio dum acto violento pois suspeitava que o chefe da estação telégrafo-postal estivesse feito com os regeneradores e lhe sonegasse o telegrama. Logo de entrada pretendia que a gente que na praça da Villa estava às suas ordens experimentasse “os cacetes”.
Descontado este pequeno incidente, mais as empanadas partidas da farmácia do Sr. Arnaldo Miranda de Barros no Seco e umas pedradas atiradas contra os músicos da Banda de Celorico que viera a Cabeceiras abrilhantar a festa da implantação do regime republicano, nada de grave aconteceu.
O “Jornal de Cabeceiras” aguardou uns dias para ver como as coisas paravam e apareceu calmamente, limitando-se a anunciar a mudança do regime e a sua não publicação pelas razões políticas conhecidas. Sobre a lista administrativa limitou-se a afirmar que a mesma não correspondia ao espírito do acordo a que já nos referimos, mas deitava tudo isso à conta de em Cabeceiras o Partido Republicano não estar estruturado e atribuía os incidentes verificados a simples vandalismo.
Foi mais impiedoso para com a notícia da dissolução do Partido Progressista local, afirmando: “Da acção do partido progressista de Cabeceiras, não fica, feito agora o balanço consciencioso e imparcial, um único acto de que possa ser qualificado de nobre e desinteressado, de justo e equitativo, que impulsionasse o progresso local ou que trouxesse um benefício para o concelho”.
Uma sentença nada simpática – e talvez não muito justa – a que “O Povo de Cabeceiras” não pôde responder. Tinha cessado a sua publicação.

O CASO DO DR. ALBINO PACHECO

Foi um caso que apaixonou a opinião pública cabeceirense. O Dr. Albino Pacheco, médico municipal e médico do Instituto de Gondarém, em meados do ano de 1907, foi demitido pela Câmara Municipal daqueles cargos. O arguido recorreu para a Auditoria de Braga e o Juiz auditor anulou a decisão camarária. Esta não se conformou e reclamou para o Supremo Tribunal Administrativo.
A implantação da República dava azo a que este Tribunal pudesse dar uma sentença favorável ao médico. O Jornal de Cabeceiras levantou logo essa questão e escreveu: “O Dr. Albino Pacheco, antigo cacique de Cabeceiras de Basto, tem ha annos pendente no Supremo Tribunal Administrativo um recurso contra a decisão da Câmara d’aquella localidade que o demitiu do logar de medico municipal. O recurso esteve muito tempo parado à espera de um governo de feição que favorecesse o Dr. Albino Pacheco nos seus desejos que são a integração no logar de médico e o pagamento dos honorários desde a demissão até agora. (…) Consta-nos que ele se prepara para obter parecer favorável da actual comissão administrativa.
(…) O Dr. Pacheco engana-se, porém, porque o regime monárquico acha-se extinto entre nós e só nele poderia recrutar apoio às suas injustas aspirações: ser médico em Cabeceiras, passeando em Lisboa, não lembra a pessoa alguma! Só ao Dr. Pacheco”.
Uns dias depois o Supremo Tribunal Administrativo julgou-se incompetente para conhecer do recurso. O Jornal de Cabeceiras lembrava que o médico tinha abandonado o lugar e assim fora legalmente demitido.
Pouco tempo depois, a morte colheu o Dr. Albino Pacheco.

MEDIDAS DO GOVERNO PROVISÓRIO

Lei do Divórcio

O governo decretara que a dissolução do casamento só se poderia dar em dois casos: pela morte de um dos cônjuges ou por divórcio autorizado por sentença. O divórcio podia ser litigioso ou por mútuo consentimento. O litigioso abarcava dez causas. Em 1º lugar o adultério da mulher; em 2º o adultério do marido.

Amnistia

Fora concedida amnistia completa a crimes políticos e de liberdade de imprensa e de metade e um terço às penas correccionais.

Lei do Inquilinato

Foi bem recebida pelos inquilinos a nova lei do inquilino que fixa o pagamento da renda ao mês. O costume era o pagamento ser feito ao trimestre ou semestre (20 de Maio e 20 de Novembro). Esta medida não agradou aos senhorios ainda que não lhe tivesse sido cerceado o privilégio do aumento da renda, quanto bem lhe parecesse, findo cada período de arrendamento.

Juízes Substitutos

Os presidentes da Câmara passavam a ser agora os juízes substitutos; na sua falta entravam os conservadores.

NOTICIÁRIO

Tínhamos noticiado no número anterior a alegria do baptizado de Manoel, filho do conceituado comerciante Sr. Joaquim Lopes de Sousa. A igreja de Refojos recebeu-o agora para o seu funeral. Poucos dias esteve neste mundo.

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Estava em reclamação o mapa com os nomes e domicílios dos eleitores e elegíveis para jurados comerciais para o ano de 1911.

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O Sr. José António de Sousa Basto, grande capitalista de Cavez tinha instituído dois prémios a distribuir anualmente por dois estudantes pobres daquela freguesia que dessem prova de maior aplicação. O primeiro receberia 3.000 réis e o segundo 2.000 réis.

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Estava aberto concurso para provimento da Escola Primária de Abadim.

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Foram nomeados os seguintes ajudantes de escrivães: Para o 2º ofício José Albino da Costa; para o 3º ofício José Augusto Falcão de Azevedo, director do Jornal de Cabeceiras.

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Foi autorizada uma sindicância aos actos das passadas vereações municipais e da administração do Instituto de Gondarém.

PELA IMPRENSA

Jornal de Cabeceiras

Publicava a lista dos republicanos conhecidos de Cabeceiras. Eram só 11. (Estes nomes já foram transcritos na crónica de 4 de Outubro). O jornal dizia: “Por mais que quizessemos inteirar a dúzia não nos foi possível consegui-lo; porque a verdade é que, conhecidos e tidos como taes, os republicanos d’esta villa, são realmente os que ficaram enumerados”.
No cabeçalho do nº 759, de 6 de Novembro, aparece o nome do novo editor do semanário: Teotónio Falcão Ribeiro Basto. Mas, no nº da semana seguinte, reaparece o nome de José Pereira Leite.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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