Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-10-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

OS REPUBLICANOS…DE CABECEIRAS
O bom povo de Cabeceiras pouco sabia de política. Sabia que em Lisboa havia um rei e que havia por lá um governo, a quem se tinha que pagar a décima, todos os anos. De quando em vez vinham uns senhores da vila, acompanhados do senhor abade e do regedor e dos lavradores mais ricos do lugar, cumprimentá-los, dar-lhes um abraço, prometer-lhe que desta é que ia ser aberto o novo caminho há muito reclamado e lhe metiam na mão um papel – a que chamavam solenemente de voto – para depositarem numa caixa no próximo domingo, após a missa e antes de levar o gado ao pasto.
Isto não era muito trabalhoso para “os caciques” já que o direito a voto só era dado aos homens que não fossem analfabetos e que pagassem uma décima ao Estado.
Quem lhes batia à porta eram os Regeneradores e os Progressistas, ambos monárquicos e de ideias muito idênticas. Por razões várias os regeneradores estavam mais bem implantados, tinham a seu lado “O Jornal de Cabeceiras”, o semanário mais antigo da terra, levando assim de vencida normalmente os progressistas, representados pelo nóvel “O Povo de Cabeceiras”.
O Partido Republicano ainda não se conseguira implantar e o povo tinha a ideia de que ser republicano “queria dizer ser contra a monarquia, contra a Igreja e os Jesuítas, contra a corrupção política e os partidos monárquicos (J. Matoso). Outros desconfiavam dos republicanos quando ouviam dizer que eles eram “maçónicos” e “carbonários”, fosse lá isso o que fosse. Se, no povo rural, a palavra “república” já obrigava as mulheres a benzerem-se, as referências aos “pedreiros-livros e aos carbonários”, arrojavam-nas de joelhos nas lages frias das igrejas e capelas, nas escadarias dos mosteiros e dos cruzeiros. Os senhores abades alimentavam quanto baste este sentimento de temor e de medo.
Em Cabeceiras era assim. Mas já havia republicanos. Não existia no concelho Centro Republicano. Existiam, no entanto, nos concelhos vizinhos de Celorico e Fafe. Quem eram esses Republicanos? Sabemo-lo por uma lista que o Jornal de Cabeceiras publicou, já após a implantação da República, em resposta à pergunta de um leitor, quiçá admirado dos nomes que preencheram a comissão administrativa que o 5 de Outubro fez surgir. O Jornal de Cabeceiras faz esta nota: “Por mais que quizéssemos inteirar a dúzia não nos foi possível consegui-lo; porque a verdade é que, conhecidos estes como tais, os republicanos d’esta villa, são realmente os que ficam enumerados”.
Essa lista é composta dos seguintes nomes:
“Dr. Manoel Joaquim de Sousa Barros Leitão, advogado; Dr. Diocleciano Dias Peixoto, médico; Franklim Ernesto d’Oliveira Vaz, farmacêutico; Eduardo Gonçalves Fernandes, proprietário; Francisco Luís de Castro Maia, farmacêutico; José Gonçalves Pena, professor oficial; Arnaldo José Miranda de Barros, farmacêutico; Eugénio Gonçalves Cammelo, proprietário; José Pereira Leite, professor primário; João António Moutinho, farmacêutico; Silvino José Barroso, proprietário.”
São 11; por mais que contemos, não chegamos à dúzia. Oito são profissionais liberais e três grandes proprietários.
Mas não vão ser estes, não, os que vão herdar o poder em Cabeceiras. Serão os chamados “adesivos”.

SEQUELAS ELEITORAIS
Corria o boato que o governo não dispunha de maioria suficiente para se manter no poder. A notícia era evidentemente falsa já que o Partido Regenerador conseguira 95 votos contra 60 da oposição. Esta maioria tinha sido obtida para além das “chapeladas, ilegalidades e abusos eleitorais bloquistas”.
*
O Tribunal de Verificação de Poderes mandou efectuar inquéritos a várias assembleias de vários concelhos, entre os quais o de Cabeceiras.
O inquérito eleitoral estava entregue ao Dr. Cruz Cappelo, juiz da 1ª Vara Criminal do Porto, auxiliado pelo escrivão Almeida Dias. Era bastante grande o número de testemunhas a inquirir.
O Jornal de Cabeceiras não entendia a razão de tal inquérito, “mas parece que a manobra obedece a misteriosos intuitos”.
*
A derrota do bloco eleitoral no nosso concelho desanimou os seus mentores, de tal modo que o Dr. António Coelho de Vasconcellos, da Casa de Cortinhas, de Cavez, figura grande do Partido Progressista e alma-mater do “Povo de Cabeceiras” resolveu ir passar umas férias a Felgueiras, sua terra natal. Razão para esta quadra:
“Lá foi Elle…
Lá foi dando às canellas,
P’ra sua casa de Felgueiras
D. Ordonho, Faz-concellos
Do “Povo de Cabeceiras”
Sardanisca

FEIRA DE S. MIGUEL
Tinha já começado a feira de S. Miguel, com os primeiros dias extraordinariamente concorridos, tendo-se verificado transacções de alto valor. A segurança da feira estava a cargo dum destacamento de Cavalaria do Regimento 6, comandado pelo sargento Rodrigues.
Uma das atracções da Feira eram dois cinematógrafos instalados na Casa da Adega (junto aos botequins) que apresentavam um reportório escolhido e muito atraente, o que lhe permitia uma boa frequência.
Estava proibida a entrada na feira com paus e armas.

PELAS FREGUESIAS
REFOJOS
O distrito de Paz de Refojos mandara demolir uma casa de madeira ou barracão construído ilegalmente por José d’Araújo, da Sobreira, no baldio da Safra.
Tinham terminado as obras de remodelação da Capela de Nossa Senhora da Saúde, tendo-se aproveitado para se proceder à ampliação do terreno. A iniciativa desta obra deve-se ao Sr. Francisco Pereira Camelo
O pároco de Refojos, Pe Martins Villela, ia concorrer à igreja de Painzella.
O ex-pároco de Refojos, Revº Manoel Joaquim da Silva Macedo, concorreu às igrejas paroquiais de Esperança (Póvoa de Lanhoso) e Anjos (Vieira).
Celebrou-se no dia 2 de Outubro a festa de Nossa Senhora do Rosário. Foi pregador o Revº Pe Firmino, presidente da Câmara.

S. NICOLAU
O pároco desta freguesia, Severino Pereira Ramos, ia concorrer à igreja da paróquia de Anjos (Vieira).
Foi levado à pia baptismal, onde recebeu o nome de Eurico, um filho do Dr. Arnaldo Pereira Leite, distinto clínico de Gondarém.

FALECIMENTOS
Na Quinta da Mata (Refojos) faleceu D. Teresa da Silva Castro, esposa do Sr. Bento Queiroga Nogueira, oficial do juízo de direito. A inditosa senhora, muito nova ainda, casada há cerca de um ano, era natural da paróquia de Painzella, filha de Joaquim José da Silva Castro.
Na Praça Barjona de Freitas (Vila) faleceu D. Miquelina da Cunha, esposa de Francisco Pereira Camello, conceituado comerciante.
Foi dado agora conhecimento que em Belém do Descalvado, no Estado de S. Paulo, falecera em Julho o capitão Justino Leite Machado, natural de Chacim (Refojos).
Em Magusteiro (Riodouro) finara-se o Sr. Domingos João Gonçalves.

ÚLTIMA HORA
4 de Outubro – Tropas revolucionárias concentraram-se na Praça da Rotunda em Lisboa. Os cruzadores “Adamastor” e “São Rafael” revoltaram-se e estão a bombardear o Palácio Real. O rei e sua família terão abandonado a capital, a caminho do Norte.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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