Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 13-09-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS DE 28 DE AGOSTO
Foram das eleições mais disputadas do tempo da monarquia liberal. O Partido Regenerador, no poder, viu-se confrontado com a Santa Coligação, constituída por progressistas, henriquistas, franquistas, legitimistas e vilhenistas, a que o Jornal de Cabeceiras acrescenta “padres e sacristãos”. Os Republicanos correm por fora, escudados na forte estrutura do Partido Republicano Português (P.R.P.), com centros republicanos – ou associações com outros nomes – difundidas pelo país, e uma imprensa tenaz de que o “Século”, mais conservador, e “O Mundo”, da ala radical, eram cabeças de cartaz. Muita da intelectualidade simpatizava com muitas das ideias difundidas pelos republicanos. Os partidos monárquicos dormiam na forma ou digladiavam-se abertamente. Palavras de Teixeira de Sousa, chefe do governo: “O próprio partido republicano, se é organizado e forte, deve, exclusivamente, a sua organização e força aos partidos monárquicos, que depois de comprometerem as instituições e por fim se comprometerem irremediavelmente a si próprios, não hesitavam em comprometer a Nação, engrossando por isso as fileiras republicanas, não tanto por convicção, mas simplesmente como pretexto”.
O mesmo vai dizer após as eleições, referindo-se aos partidos da coligação monárquica: “Não recuaram diante dos actos mais espantosos: chapeladas, desordens, ataque às pessoas e às propriedades. Isto na província, pois em Lisboa fingiram que votavam numa lista própria, como votaram, mas em grande parte deram as maiorias aos republicanos”.
Resumo: Os Regeneradores ganharam; os Republicanos ganharam; a Coligação perdeu. Então, a vitória do P.R.P. em Lisboa e Setúbal foi estrondosa: ganhou a maioria em Lisboa (10 contra 4) e em Setúbal (3 contra 1).
O distrito de Braga votou regenerador elegendo os 6 deputados, fruto de uma grande maioria alcançada nos concelhos de Amares, Cabeceiras, Celorico, Vieira e Vila Verde. Fafe – para onde tinha sido remetido como administrador o padre Domingos e para onde o governo remeteu um enviado especial – e que era um conhecido feudo progressista, concedeu aos Regeneradores uma regular maioria. A Coligação monárquica venceu em Guimarães, Barcelos e Espozende e, não tendo os republicanos elegido qualquer deputado. Estes ainda não tinham grande penetração no distrito, ainda que possuíssem centros republicanos em alguns concelhos do distrito, exceptuando-se Esposende, Vila Verde, Amares, Póvoa de Lanhoso, Vieira e Cabeceiras.
A vitória dos regeneradores foi esmagadora nas assembleias de voto do nosso concelho. Diz o Jornal de Cabeceiras: “Obteve o bloco predial – jesuítico nas 3 assembleias de Cabeceiras de Basto apenas uma verdadeira miséria de votos. […] O próprio Dr. Ordonho, na assembleia de Pedraça, desapontado com o resultado da eleição, escapou-lhe a boca para a verdade, dizendo para quem o quis ouvir: mas afinal a nossa votação desceu, apesar do apoio dos nacionalistas e companhia”.
Refira-se que entre as populações do Samão e do Vilar havia um acordo, que consistia em absterem-se. No entanto, este ficava sem efeito se uma decisão contrária fosse tomada até 8 dias antes de acto eleitoral. Neste ano o acordo foi rompido na ante-véspera, sendo “esta aleivosa traição” atribuída a “alguns membros da oposição”.
“O Povo de Cabeceiras” insinuou que nas assembleias eleitorais de Pedraça e de S. Nicolau teriam ocorrido incidentes. José da Silva Mendes, representante da autoridade local na assembleia de Pedraça, desmentiu a atoarda afirmando que “é absolutamente falso que alguém faltasse à consideração ao ilustre chefe do partido progressista local”. Quanto a incidentes em São Nicolau, o Jornal de Cabeceiras classificou as notícias de “falsas e insidiosas (…) quando diz que d’esta assembleia fora posta fora e aos encontrões, tendo de retirar-se para não sofrer mais desacatos, o chefe do partido nacionalista n’este concelho, Dr. José Leite de Saldanha. […]Este (ouvido pela repórter) declarou ter tudo corrido na melhor ordem e socego”.
O semanário aproveitou para lembrar que na última eleição realizada na assembleia de Refojos, a que presidia o “Dr. das Cortinhas”, o padre Domingos foi preso quando ia votar e em Pedraça tinha havido tiroteio e pancadaria.

MANIFESTAÇÃO EM HONRA DO PADRE DOMINGOS

No fim da tarde do dia 28 de Agosto, dia das eleições legislativas, começou a correr a notícia de incidentes em Fafe, onde os regeneradores tinham vencido por uma confortável maioria neste lendário fundo progressista. O administrador do concelho, padre Domingos, recentemente nomeado e a quem se atribuía o ónus da vitória, regressava a Braga ao fim da tarde, quando o seu automóvel foi atingido por um grande número de tiros. De imediato correu o boato de que o padre administrador teria ficado ferido e que não resistira aos ferimentos. Felizmente, soube-se mais tarde, que nem o padre nem os seus acompanhantes, tinham sido atingidos. As chapas e os vidros do automóvel tinham resistido ao impacto das balas e do chumbo das caçadeiras.
Assim, quando se soube que o padre Domingos já tinha regressado à sua Casa da Rapozeira, logo se improvisou uma grande manifestação de regozijo. Grande número de pessoas deslocaram-se à Rapozeira para lhe apresentarem cumprimentos. A todos o padre recebeu fidalgamente, tendo pronunciado um discurso de agradecimento, mas pedindo que todos os louvores pela grande vitória fossem dirigidos ao Dr. Francisco Botelho, governador civil, “a quem se devia o bom êxito das eleições neste distrito”.
O presidente da Câmara, padre Firmino, terminou vitoriando o padre Domingos, pedindo os manifestantes que se dirigissem em cortejo aos Paços do Concelho, palavras que foram saudadas “com longa salva de palmas, com calorosas vivas”.
A Câmara recebeu o cortejo vindo da Rapozeira, exprimiu novamente a sua homenagem numa sessão solene e, finda a mesma, todos se dirigiram para a Ponte de Pé, “continuando os vivos durante o percurso e queimando-se grande porção de fogo”.
A manifestação regressou à Praça onde se dispersou.
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Na Gandarela deu-se também uma grande desordem, que foi atribuída “aos caceteiros assalariados pelo padre”.

UM GOLPE FATAL

Apesar da vitória, o chefe do governo não se mostrava satisfeito. Para poder governar era-lhe necessário o apoio das facções regeneradoras dissidentes. O rei aconselhava-o na procura de apoios para a difícil missão de governar um país quase ingovernável. Mas, de repente, a bomba, o golpe. Teixeira de Sousa resolve atacar a Igreja. Vai acusá-la de ter apoiado a coligação monárquica. Espumava de raiva. O rei, numa carta a um conselheiro amigo, escreve: “Já eu consegui depois de uma luta tremenda em que elle punha a questão de confiança, que elle não me trouxesse um decreto para eu assignar, fechando todos os Collegios Jesuítas. Ficou furioso com os padres por causa das eleições”.
No norte, Teixeira de Sousa começa a perder o prestígio. As suas amizades com os republicanos são comentadas. Também lhe era atribuído um certo pendor jacobino. (De qualquer modo, historiadores actuais – por ex. Ol. Marques – entende que T. de Sousa, ao virar-se contra a Igreja, tentou combater a influência republicana que vinha crescendo, com as mesmas armas destes).
A arquidiocese de Braga, presidia por D. Baptista da Cunha, (de quem eram conhecidas as suas tendências progressistas), reclamou fortemente das críticas e medidas do governo. Este publica uma “portaria” chamando a atenção do prelador do clero bracarense. Este protesta veementemente.
“O Jornal de Cabeceiras” que sempre se mostrava tão cordato e tão obsequioso para a Igreja e seus membros começa a mandar insinuações, remoques, gazetilhas. A célebre “portaria” vem à baila constantemente. Relata a expulsão dos frades Marianos da Aldeia da Ponte, “cuja moral era bastante problemática”; comentava haver “por ali uns melros de cabeção grande que cobrem de afrontosas calúnias o governo”; chamava à oposição “o bloco predeal-jesuítico”; escrevia que “o clero politicamente foi de uma injustiça tão revoltante e audaciosa, que bem pode ser qualificada como suborno de consciência”
O povo não percebia nada de nada.

DR. FRANCISCO BOTELHO

O governador civil continua a ser notícia nos jornais. Interveio agora num diferendo entre a Câmara Minucipal de Amares e o Visconde de Semelhe. Foi aplaudida a solução que apresentou, considerada muito satisfatória, agradando às duas partes, que a aceitaram. Salvou uma centena de empregos.

IMPRENSA
“Jornal de Cabeceiras”

A edição nº 750 deste semanário saiu no sábado – dia 27 de Agosto – (com antecedência, portanto, de um dia) o fim de poder dar conhecimento aos seus leitores dos nomes dos candidatos a deputados do Partido Regenerador pelo círculo de Braga, para as eleições legislativas do dia seguinte.

MATRÍCULAS

O novo ano escolar estava às portas. O Instituto de Gondarém anunciava a abertura das matrículas para os alunos da instrução primária e para o 1º ano da Escola Agrícola, Comercial, Industrial. Assinavam o edital o vogal do Conselho Executivo Dr. António Luís Machado e o secretário do Instituto, Domingos Pereira.

LINHA TELEGRÁFICA

Já estava em funcionamento a linha do telégrafo que ligava a vila à povoação de Russos.

PREÇO DO VINHO

“Devido à moléstia, que invadia as vinhas, os nossos magníficos vinhos verdes estavam a subir de preço. Produtores do concelho tinham regeitado oferta de 1,000 réis a pipa”.

PELAS FREGUESIAS

Arco

Decorreu com muita animação e muita ordem (o que não acontecera nos anos anteriores) a grande festa dedicada a Nossa Senhora dos Remédios. Para este facto muito concorreu a ordem do administrador que impediu a entrada de varapaus e armas. O momento grande da festa foi a apresentação da Nova Filarmónica Cabeceirense, constituída por 25 executantes, dirigida por José Leite da Silva Mendes e regida por Sr. Fernandes. A Banda de Celorico e a nova Filarmónica exibiram-se no arraial. As cerimónias religiosas foram presididas pelo novo capelão, padre Firmino José Alves, a quem coube pronunciar o sermão.

Bucos

Uma velha questão da água de regas provocou um homicídio nesta freguesia. O lavrador José Bento Marques (acompanhado de um filho e de um serviçal, aguardavam no local onde a água lhes costumava ser cortada por um outro lavrador, Manuel Gonçalves Carneiro. Os primeiros provocaram-no com algumas pedradas. O visado defendeu-se a tiros de revólver que não acertaram em ninguém. Em troca levou algumas sacholadas na cabeça e no corpo, que lhe provocaram a morte. A vítima tinha 28 anos e era um homem forte e sadio.

Painzela

Faleceu em Baloutas o Sr. Joaquim Ferreira Guerreiro, antigo escrivão do Juíz de Paz.

Pedraça

Ia realizar-se nesta freguesia a tradicional “Festa do Senhor” com missa cantada, sermão, música e bazar de prendas.

Refojos

O Prof. José Gonçalves Pena, em serviço na escola de Refojos recebeu uma gratificação de 60,000 réis pelo seu bom serviço.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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