Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 13-09-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (127)

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AS PONTES DA PONTE DE PÉ

O burgo, que hoje conhecemos como Ponte de Pé, não deverá ter mais que uns quatrocentos ou quinhentos anos. Há quatro séculos atrás, quem tivesse necessidade de atravessar o Rio do Ouro, indo da margem direita para a margem esquerda, no sentido poente nascente, ou fazendo o percurso inverso, e a pé enxuto, poderia fazê-lo de duas maneiras e em dois locais diferentes, ou o fazia de barco, ali onde agora existe a ponte mais antiga, ou o fazia a pé descalço, atravessando as pondres, ou poldras, ou alpondras, que ainda hoje se podem atravessar, entre os lugares do Charco e da Candinha.
E carros de bois, ou de cavalos? Estes atravessavam a vau, por cima da água e da cascalheira de areia e pequenos godos, onde o rio era mais largo e se espraiava, também no sítio das pondres da Candinha, pela parte de baixo, isto é, mesmo a jusante das pondres, entre estas e o engenho de moagem do linho.
Quanto ao burgo da Ponte da Pé, até é bem possível que tenha bastante menos do que quatrocentos anos de existência. Se repararmos num dos mais importantes edifícios da área, o antigo asilo, que parece ser uma das construções chave de todo o conjunto, podemos verificar que data do ano de 1819. Tem, portanto, nesta data, apenas cento e noventa e um anos. Deve haver por ali alguns mais antigos, mas não serão muitos. Os primeiros de todos, esses deverão ter sido o moinho e a casa do moleiro, construídos ao mesmo tempo que deverá ter surgido o respectivo açude.
As travessias de barco, naquele local, só terão tido o seu início a partir do momento em que o açude enchera e passara a alimentar o moinho.
Actualmente, existem duas pontes por onde pode passar qualquer tipo de veículo, ligeiro ou pesado. A mais recente, essa é uma estrutura dos dias de hoje, devidamente lançada, assente em elegantes pilares e vigas de betão pré-esforçado, data do ano de 2001. É uma obra moderna e de construção ousada. Estabelece a ligação entre os novos arruamentos que resultaram da urbanização da Quinta do Mosteiro e a parte sul do aglomerado da Ponte de Pé, indo entroncar na Estrada Nacional 311, ao lado da capela de S. Lourenço e rasgando os campos da Quinta do Cruzeiro.
A mais antiga, a velha Ponte de Pé, foi totalmente remodelada, isto é, foi construída uma nova estrutura, mais larga e rectilínea, sobre a estrutura antiga que ficou intacta sob a primeira. Esta remodelação ocorreu nos anos de 1975/76, enquadrada no conjunto de obras de rectificação, alargamento e pavimentação de todo o troço da EN 311, entre aquele mesmo local e o limite do concelho, na área do lugar de Magusteiro.
A velha Ponte de Pé, que deverá ter sido construída um pouco mais ou menos pela mesma altura em que o fora o edifício do antigo asilo, princípios do século XIX, era uma obra de arte semelhante a muitas outras que ainda se podem ver na maior parte das chamadas estradas nacionais. Como exemplos de contemporâneas suas, poder-se-ão observar a velha ponte do Seixo, na Ribeira de Petimão, ali próximo de Olela, a ponte da Ranha, na EN 205, sobre a Ribeira de Painzela, esta ainda em pleno uso, e muitas outras.
Todas estas construções, a rede de estradas nacionais e respectivas pontes, foram executadas no decurso de século XIX e algumas já no início do século XX. A maior parte delas, porém, encontra-se fora de uso, ou foram abandonadas devido a desvios dos traçados iniciais, ou foram alteradas na sua estrutura como é o caso daquela de que aqui estamos a falar, a velha Ponte de Pé.
Quanto a esta, cujo arco inicial pode ser observado por debaixo do novo tabuleiro, pese embora o facto de praticamente não ser visível devido ao emaranhado de heras (aradeiras) que o envolve, ainda me lembro muito bem do seu traçado inicial, assim como da dificuldade que os veículos, pesados de carga e as camionetas da Viação Automotora, tinham em conseguir transpô-la, sem tocar nos gradeamentos ou nos pilaretes de remate das guardas.
Tinha a forma de um “S” muito apertado, mais apertado do lado da margem direita do que da margem esquerda, isto é, era mais difícil a entrada no sentido da vila para Magusteiro do que no sentido inverso. Lembro-me mesmo de ter presenciado ali o atropelamento de um indivíduo que era da Quinta da Mata e tinha por alcunha “Cajato”.
O transeunte ficou entalado entre a pilastra (pilarete) da guarda da extremidade poente/jusante e a carroçaria de uma Volvo recentemente adquirida por um industrial de transportes da vila, e que na ocasião transportava cargas de pedra a partir da pedreira da Baldosa. Não posso precisar o ano exacto da tragédia, mas aconteceu em finais da década de cinquenta. O motorista, preocupado em não tocar com a parte esquerda da frente no gradeamento, não se apercebeu do peão que seguia no estreito passeio do lado oposto e foi apanhado pelo rodado traseiro daquele lado. O pobre homem dirigia-se para a missa do dia de domingo. Chamava-se missa do dia àquela que era celebrada às onze horas, por contraposição à da manhã, que era celebrada às sete.
Não me parece que seja passível de qualquer tipo de contestação o meu alvitre de que a velha Ponte de Pé terá sido construída em princípios do século XIX, mas, uma coisa é certa, observando-se a pilastra que ainda lá está, na extremidade nascente/jusante, pode verificar-se, muito claramente, que tem as iniciais OP (de Obras Públicas) numa primeira linha e JAE (de Junta Autónoma das Estradas) numa segunda, na terceira linha, onde deveria estar o ano da construção, não se consegue decifrar qualquer data.
Porém, a Junta Autónoma das Estradas foi criada pelo Decreto-Lei n.º 13.969, de 20 de Julho de 1927, e se as suas iniciais aparecem na pilastra da guarda da ponte, então, esta, ou foi construída de raiz, ou reconstruída, a partir daquela data. Inclino-me mais para que tenha sido apenas reconstruída já na vigência da extinta JAE.
Antes da ponte, parece não subsistir qualquer tipo de dúvida, atravessava-se o rio, no sítio do açude, de barco. Carros de bois e de cavalos, esses atravessavam, a vau, no sítio das pondres, entre o Charco e a Candinha.
Aceita-se o contraditório!

PS: Aproveito para lançar um desafio às autoridades: mandem limpar as heras do velho arco que se encontra corcovado sob o novo tabuleiro da antiga Ponte de Pé. Penso que seria agradável à vista dos banhistas que ali mergulham durante os meses de verão.

Por: José Costa Oliveira

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