Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-08-2010

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (126)
A GUERRA QUENTE

Desde criança, e durante a maior parte da minha vida, que já vai um pouco longa, sempre me foi familiar o brocardo guerra fria. Aliás, penso que toda a gente sabe do que se fala, os mais velhos por o terem ouvido, no seu dia-a-dia, a todo o instante, de viva vós, nas rádios, nas televisões, ou lido nos jornais. Os mais novos, sobretudo aqueles que hoje têm menos de trinta anos, tê-lo-ão ouvido da boca de seus pais, ou de seus avós, ou, quem sabe, pronunciado, no decurso de uma aula, por um qualquer professor mais ousado, nas escolas.
A guerra-fria foi, no período que decorreu entre o fim da Segunda Guerra Mundial (1945) e o desmembramento da União Soviética (1991), uma espécie de braço-de-ferro entre o leste e o oeste, entre os países do pacto de Varsóvia liderados pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e os países da NATO ou, proferido em português, OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) liderados pelos Estados Unidos da América.
Foi um longo período de paz, na Europa e não só, intermediado apenas por conflitos localizados e exteriores ao velho continente, em particular a guerra do Vietnam e o conflito Israelo-Árabe. Em Portugal tivemos a guerra colonial que se desenvolveu ao longo de catorze anos, entre Fevereiro de 1961 e Abril de 1974.
Chamava-se guerra fria porque não havia uma guerra directa entre as duas super-potências. O oposto seria a guerra quente, aquela em que haveria confronto armado e que, a declarar-se, teria sido, muito provavelmente, o conflito nuclear. Refira-se que o momento em que tal possibilidade esteve mais iminente foi em Outubro de 1962, aquando da crise dos mísseis em Cuba.
Este terá sido o único momento, da história de toda a guerra fria, em que os soviéticos recuaram perante um ultimato declarado pelos Estados Unidos da América. A dificílima decisão coube ao jovem presidente, John Fitzgerald Kennedy, que viria a ser assassinado, passado pouco mais de um ano, numa rua de Dallas, no Taxas, no dia vinte e dois de Novembro de 1963.
Vêm estas considerações a propósito do que acabámos de observar ao longo do último mês, segunda quinzena de Julho e primeira quinzena de Agosto. E, para que fique bem presente, para memória futura, refiro que estou a escrever estas linhas a dez de Agosto de 2010.
Tem-se assistido, durante todo este período, aos horrores que nos chegam, veiculados por todos os canais de televisão, provenientes de algumas regiões da parte central da Rússia, e, muito em particular, de áreas circundantes da cidade de Moscovo.
As pessoas todas equipadas com máscaras. Nunca antes se vira tal cenário, muito menos no auge da referida guerra fria.
Os aviões não aterram nos aeroportos de Moscovo e cidades vizinhas devido à intensa nuvem de fumo que cobre todo o espaço aéreo. Por tal facto, centenas e centenas de voos têm sido desviados para cidades distantes. Os arranha-céus, com os seus para raios e uma estrela dourada nas extremidades, apontando para o céu, os verdadeiros ex-libris da cidade moscovita, não são visíveis a curtíssimas distâncias.
Os noticiários referem que centenas de pessoas têm morrido, por semana, devido aos efeitos provocados pela poluição do ar, que resulta, agora, dos incêndios que se têm verificado.
Temperaturas a rondar os quarenta graus celsius, em Moscovo e arredores, ao longo de várias semanas, coisa totalmente inimaginável, há bem pouco tempo atrás!
A avaliar pelo aparato evidenciado pela população envergando máscaras, os veículos circulando pelas ruas, em pleno dia de verão de faróis ligados, os repetidos avisos à população para que se mantenha em casa, parece não restarem quaisquer dúvidas de que a Rússia dos dias de hoje, a Rússia do verão de 2010, se encontra em estado de guerra.
E esta guerra, muito embora o não pareça à vista desarmada, é, em minha opinião, bem mais grave do que tudo o que fora a guerra fria. Agora, estamos em presença de uma guerra quente, quente não devido às balas, ou às bombas, ou aos mísseis, quente devido ao calor do fogo, o fogo das florestas, que ataca em países de clima outrora húmido e frio!
Lembram-se do que preconizava, digo preconizava porque parece que não consegue sair das intenções, o Protocolo de Quioto? Têm ideia sobre as consequências do aquecimento global? Sabem quais são os países mais poluidores do mundo?
Pois é. O país mais poluidor do mundo é a China. Toda a gente admira o nível de crescimento económico da China! O segundo país mais poluidor do mundo é (são) os Estados Unidos da América. Todos concordam que os EUA são um exemplo de desenvolvimento económico! O terceiro pais mais poluidor do mundo, não sei muito bem em concreto, mas admito que seja a Rússia. A Rússia, tal como a China, faz uso intensíssimo de combustíveis fósseis, em particular do carvão, para fazer funcionar as suas fábricas e inúmeras centrais termoeléctricas.
Entretanto, e ainda no que respeita às tentativas em ir por diante com os desígnios de Quioto, assistimos já às cimeiras de Bali, de Copenhaga, entre outras, estando agendada uma próxima para Dezembro do ano corrente, no México.
Constata-se, infelizmente, que por enquanto não foi conseguido grande coisa. Um dos maiores opositores à concretização das teses de Quioto foi o ex-presidente dos Estados Unidos, de má memória, persona non grata, o Senhor George W. Bush.
O Protocolo de Quioto expira em Dezembro de 2012, daqui a pouco mais de dois anos. Da conferência agendada para o México, espera-se algo de mais positivo, substantivo.
Agora, com Barack Obama, e depois do livro de Al Gore (Albert Arnold Gore), “uma verdade inconveniente”, é bem possível que tal se torne em realidade.
Pela minha parte, continuarei um céptico…

Por: José Costa Oliveira

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