Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-08-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (125)

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FUJAM, FUJAM..., UM CARRO SEM CAVALOS A PUXAR!

Ouvi esta frase já por muitas e variadas vezes. Primeiro, era a minha avó materna, a Senhora Delmira da Costa, que nasceu a quatro de Junho de 1900 e faleceu a dois de Dezembro de 1997. Depois, e ainda nos dias que correm, a vou ouvindo, de vez em quando, sempre que lhe puxo pela língua, da minha mãe, que nasceu a dezassete de Fevereiro de 1922.
A minha avó Delmira relatava aquilo que ouvira, de viva voz, proferido pelo povo da freguesia da Faia, que, em alvoroço, acorrera à berma da estrada, que vinha da Gandarela e seguia na direcção do Arco de Baúlhe. A minha mãe limita-se a repetir o que ouvira contar à minha avó.
A avó Delmira tinha sete anos e alguns meses, estava-se no mês de Junho de 1907, e parece que já trabalhava, ajudando os pais nos campos, ali pelas imediações da Tojeira, ou das Terças. Toda a gente trabalhava na lavoura, a maioria sachava campos de milho, alguns dos homens apanhavam cerejas em cima das cerejeiras. A Faia sempre foi uma terra abundante em cerejas.
Naquele tempo, o transporte de pessoas era feito em diligências, carruagens puxadas por cavalos, que anunciavam a sua passagem através do toque de uma sineta como todos se devem muito bem lembrar de terem visto nos filmes.
Qual não foi o espanto, de toda aquela gente da beira da estrada, quando ouvem ao longe, a partir das curvas onde entroncava o caminho que descia para Santa Senhorinha, uma buzina, ou uma gaita, como muitos lhe chamaram, de improviso, a buzinar “pópóó, pópópóó…, a cada curva que se aproximava. Cavalos à frente…, a puxar…, nem vê-los!
«Isto é o fim do mundo, rapaziada!», terá exclamado um pobre homem, que esfolou as mãos todas, ao deslizar pela escada abaixo, tentando largar a copa de uma cerejeira, com a maior destreza possível, onde se encontrava a apanhar cerejas, que deitava para o interior de uma cesta de vindima.
Todos, quantos sachavam e regavam milho, nas proximidades da estrada, largaram as sacholas, deixaram a água a correr a rego solto, e saltaram para a berma. Tiveram, porém, o cuidado de se manterem da parte de cima das bordas, não fosse o diabo tecê-las e serem apanhados pelo estranho veículo, que se aproximava a uma velocidade duas ou três vezes superior àquela a que estavam habituados a ver passar as carruagens puxadas por parelhas, ou pares de parelhas, de cavalos.
O carro passou. Contava a minha avó que era amarelo e trazia dois homens em cima, ambos trajando fatos claros, muito provavelmente de linho, e chapéus que pareciam ser de palhinha. Talvez não fossem de palha. Deveriam ser, isso sim, de feltro claro, a condizer com o conjunto de baixo, as calças e o casaco.
Aquele que deslizara pela escada abaixo, desde a parte mais alta da cerejeira, teve que dirigir-se à botica do Arco para que lhe fizessem um curativo aos ferimentos das mãos. Ali, usufruiu da oportunidade rara de observar o veículo estacionado, em frente da pensão principal, onde os dois forasteiros se encontravam a almoçar.
Ouviu que um dos forasteiros, o que conduzia o carro, era o fidalgo da Casa da Portela do Arco e que o outro era um mecânico, que lhe fazia companhia, na primeira viagem, para assegurar a assistência à viatura.
Enquanto que os recém-chegados permaneceram no interior na sala de jantar da pensão, tratando do seu próprio abastecimento, logo se formou um grande aglomerado de mirones e curiosos.
«Espectacular, rodas de borracha com aros de metal!» - exclamou um.
«E a cor dele, todo amarelinho!» - proferia outro.
O das mãos esfoladas por ter deslizado, sem olhar para cima, escada abaixo, agora já com ambas envoltas em ligaduras e aquela que se encontrava em pior estado pendurada do pescoço por meio de outra ligadura, apressou-se a regressar à Faia, um pouco cima do muro limite da Quinta da Tojeira, a contar a todos os outros residentes as últimas que tinha observado e ouvido, bem ao vivo, junto da novíssima viatura de cor totalmente amarela.
«Um espanto, vocês haviam de ver a cara com que ficaram aqueles meninos do Arco!».
«Não tardará muito sem que apareça por aí uma qualquer geringonça, do mesmo feitio, para transportar pipas de vinho e toros de pinheiro, ou outros!» - alvitrou um terceiro, que tinha a fama e o proveito de ser um pouco dado a filosofias.
Já lá vão mais de cem anos! Será, o mais comum dos mortais, tentado a exclamar. Aliás, foi naquele ano, 1907, que o comboio chegou, pela primeira vez, à estação de caminhos-de-ferro de Fafe. Ao Arco de Baúlhe, viria a chegar umas boas quatro décadas mais tarde, concretamente, em 1949.
Ao invés, eu direi: apenas se passaram um pouco mais de cem anos desde o dia em que as pessoas da Faia se refugiaram, no cimo dos taludes da estrada, com receio de serem atropeladas pelo primeiro veículo, movido pelos seus próprios meios, que o mesmo é dizer, movido por um motor de combustão interna, que por ali passava.
Reparando no parque automóvel dos dias de hoje, eu direi ainda que tudo correu e se multiplicou muito depressa.
Sempre que ouço os políticos, e os economistas, a falar em necessidades de crescimento e mais crescimento, dá-me arrepios, e interrogo-me, se não seria preferível deixar um pouco de lado a tese do crescimento a qualquer preço, e dar preferência efectiva, isso sim, a uma melhor distribuição dos recursos já existentes? Muito em particular, gerir melhor a distribuição do factor trabalho?
É que, se tudo continuar a crescer como tem crescido nos últimos cem anos, o resultado será uma dramática, uma inimaginável explosão. Alguns de nós, provavelmente, muitos de nós, não estarão cá para ver… Dos que cá estiverem, será caso para termos algum dó…

Por: José Costa Oliveira

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