Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-07-2010

SECÇÃO: Reportagem

V Concurso Literário Conto Infantil
QUO VADIS, ARCO DE BAÚLHE?

Aqui nos tendes, amigos meus, uma vez mais junto de vós. Porquê e para quê? Agora para vos transmitir o que foi a sessão solene da entrega de prémios aos vencedores do “V CONCURSO LITERÁRIO NACIONAL – CONTO INFANTIL” promovido pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Reportagem esta que se estenderá, ainda, ao perfil do júri, dos contemplados e das obras seleccionadas. E tão rica foi esta sessão! E tanto de tão importante nela foi dito!

Presidente da Câmara fazendo a sua intervenção
Presidente da Câmara fazendo a sua intervenção
Mas faltou o povo do Arco de Baúlhe. Faltaram os representantes das suas estruturas associativas. Faltaram as gentes da cultura. Faltaram os jovens. Faltaram os adultos. Faltaram os seniores – ah! nem todos, afinal havia duas senhoras cujos bonitos cabelos brancos mostram uma vida já longa.
Ouçamos, a propósito, o desalento do Presidente de Câmara: «Se este é o momento de reconhecimento daqueles que, não sendo Cabeceirenses, se interessam e se envolvem nas actividades e nas iniciativas da nossa terra, também é oportuno que, aqui e agora, se alerte e se faça uma chamada de atenção para outros com responsabilidades associativas neste sector que revelam alheamento e desinteresse por acções tão importantes para a cultura e que promovem e valorizam a utilização dos equipamentos, em benefício das pessoas e da Vila do Arco de Baúlhe.
É tempopara se afirmar sem qualquer margem de dúvidas que os edifícios fazem-se para serem utilizados pelos cidadãos por vontade própria e também pelo dinamismo desenvolvido por entidades locais. Sobre a Biblioteca, alguém há tempos me reclamava a sua abertura ao sábado à tarde. Hoje, sábado da parte da tarde, e estando aqui a decorrer uma iniciativa de âmbito nacional, verifica-se que afinal esse interesse e essa vontade não correspondem, já que, aqueles que reclamam a sua abertura, hoje não estão aqui presentes, apesar de terem sido convidados para esta cerimónia».
Segunda premiada recebendo o prémio
Segunda premiada recebendo o prémio
Ao que apurámos, a adesão ao concurso que levou aos trabalhos seleccionados foi bastante satisfatória. E os trabalhos apresentados foram todos de mérito. No entanto, só poderiam ser premiados três. Dos melhores entre os melhores dos contos apresentados, o júri entendeu premiar, e por esta ordem: Concerto de Outono; “ O Menino de Ninguém”; e Dentolinhas, o Ratinho de Deus”.
Os objectivos deste concurso – “criar e consolidar hábitos de leitura e de escrita; promoção de escrita criativa e valorização da expressão literária; divulgação de autores portugueses e de aspectos relativos à cultura literária; e valorização da cultura Cabeceirense”- se não no todo, na sua grande parte, em nosso entender, foram alcançados: mercê do concurso, há a revelação de novos autores; há escrita criativa numa nova expressão literária. Nas obras premiadas, na sua trama, como escopo, está o envolvimento da população Cabeceirense. Por si, ou motivada pela mensagem dos contos.
Se assim é a partir dos autores, outro tanto se irá verificar a partir dos leitores. De certeza que a população Cabeceirense, sobretudo a do universo do ensino, não irá ficar alheia a esta oportunidade de se debruçar sobre estas novas obras literárias . Ainda para mais pequeninas como são estas dos contos infantis. Que antes não existiam, porque impensáveis. Mas que da imensidão das coisas possíveis, saíram para a realidade.
Autora do "Concerto de Outono"
Autora do "Concerto de Outono"

AS OBRAS LITERÁRIAS PREMIADAS

Debrucemo-nos, então sobre estas obras literárias premiadas. E comecemos pela do terceiro prémio – “Dentolinhas, o ratinho de Deus”. Um ratinho pacato no seu esconderijo da igreja do mosteiro de Refojos. Que a “missa do galo” numa noite de Natal o despertou para a descoberta do Criador do Mundo. Um deslumbramento que lhe abriu os olhos e o horizonte para o quanto é necessário trabalhar na defesa dos seres vivos, desde os animais à floresta. Tarefa a que ele mais a sua amiga aranha se lançaram. “Dentolinhas (…)sentiu que a partir desse momento, uma nova esperança nascia para todos os seres vivos(…) a melhor prenda que se pode dar a todos os que vivem no planeta”.
Terceiro premiado Conto "Dentolinhas"
Terceiro premiado Conto "Dentolinhas"
Um conto que tão bem se enquadra no ano internacional em curso da biodiversidade. Um conto no sentido da defesa do ambiente, de todos os seres vivos.
E agora, os “Meninos de Ninguém”. Neste, não são os animais que falam e que agem no sentido de um mundo melhor. Neste conto, é um menino o centro de todas as atenções e preocupações para um mundo melhor. E uma casa com um quarto vazio. Onde faltava uma criança. Um “menino de ninguém”, que brincava sozinho. Um menino “ de grandes olhos redondos, azuis e triste(…) que estava quase sempre no seu lugar, no seu cantinho(…). Como acontece nas casas cheias de crianças sozinhas, mas sem o calor do amor de pai ou mãe. Ou de ambos. “Casa onde “alguns deles, cheios de esperança, aguardam a chegada de uns pais que queiram amá-los para sempre!”.
E - quem sabe? - não poderá o amigo leitor vir a ser pai ou mãe de um destes “meninos de ninguém?” Já pensou nisso?...
Os premiados e parte da assistência
Os premiados e parte da assistência
Depois, o conto que mereceu o primeiro prémio. Neste, onde os animais também falam , os protagonistas são a rabugenta cabra marreca e o coelho Matias. Como acaba o conto? Feito o “cerco” à cabra marreca, esta entrou na orquestra que detestava. E foi mais uma a tocar tuba! Ensinada por quem? Pelo maestro coelho Matias que ela não suportava! Sem violência, ela foi vencida!
E daqui, sai uma lição para nós humanos (…): a música é a linguagem da paz” E entre as alegres gentes do vale, diz-se que, ainda hoje, quem quiser ouvir um belo concerto musical, só tem que esperar pelo Outono e sentar-se , ao luar, nas pedras centenárias da ponte de Cavês.”

Luís Jales, porta-voz do Júri, na sua intervenção
Luís Jales, porta-voz do Júri, na sua intervenção
O JÚRI

Quem foi o júri e quem são os autores? No dia da entrega dos prémios, reconhecêmos um – Luís Jales de Oliveira. Que foi o portador e leitor da mensagem colectiva sobre o porquê da atribuição do prémio a estes contos e não a outros. Todos os elementos, aliás, de muito mérito e dedicação, além do seu gabarito cultural e académico e profissional mesmo no âmbito da literatura. E de dedicação às causas do voluntariado. Tão bem referidas pelo eng. Joaquim Barreto.
De entre eles, ser-nos-á permitido fazer referência a Luís Jales Oliveira, cuja sensibilidade ficámos a conhecer através da sua obra poética “ O Basto”, que adquirimos há uns doze anos aquando das nossas deslocações a Mondim, integrados na “Tertúlia de Guimarães” sob a douta orientação e animação da Dra Conceição Campos. Livrinho que de vez em quando nos sabe ler.

OS AUTORES

Dos autores, a qualidade e beleza dos contos falam por si. Ouçamos o que eles nos disseram sobre as obras premiadas:
PALMIRA BAPTISTA
“Este conto faz parte de um conjunto vasto de histórias para a infância que tenho escrito desde 2009. Tenho umas dezenas de trabalhos (mas) ainda não publiquei nenhum. No entanto, espero que a qualquer momento isso possa acontecer. Este prémio e´u incentivo para continuar a apostar neste sonho.
“Fui, durante 34 anos, professora do 1º Ciclo do Ensino Básico. Nesta condição tenho uma vasta experiência de escrita, dramatização e narração de histórias com e para crianças. No entanto, depois da minha recente aposentação, senti necessidade de continuar ligada ao mundo mágico da infância, que sempre me fascinou. Como posso finalmente dispor de tempo, encontrei na escrita dirigida a crianças ou jovens, a satisfação desse meu desejo e o preencher do “vazio” que entretanto começava a sentir”.
“Quando me propus concorrer a este prémio fiz questão de visitar o concelho, que só conhecia muito vagamente. Fiquei fascinada pelas suas varandas floridas, pela conservação das suas casas e particularmente pela excepcional beleza natural da serra e das zonas ribeirinhas. Assim não foi difícil escolher o cenário. O difícil era transmitir, numa linguagem simples, criativa e lúdica, toda a beleza que o concelho encerra. Simultaneamente os sons da serra, em pleno despertar primaveril, fizeram-me lembrar melodias e por isso me lembrei de utilizar a música como tema principal.”
“Assim, o conto “O Concerto de Outono” fala-nos de uma orquestra formada por animais que vivem na serra da Cabreira e descem ao vale de Cabeceiras de Basto, para fazerem um grande concerto. Mas como em todas as histórias há contratempos, zangas, alegrias ou matreirices entre vizinhos”.
Como vai ser a relação desta premiada com a literatura daqui em diante? Ela responde: “pretendo continuar a escrever, em particular literatura infanto-juvenil”.
E como se relacionou com Cabeceiras?...
- “Conhecia mal Cabeceiras de Basto. Hoje, depois de algumas visitas reais e muitas virtuais, conheço-o um pouco melhor. Mas espero passar a ser uma visitante mais assídua”.
Esta escritora ( é-o com propriedade) é natural de Sta Maria da Feira mas reside em V. N. de Gaia e colabora, em regime de voluntariado, em actividades desde a hora do conto a contos de histórias infantis.
LISETE FREITAS
De Lisete Freitas, ficámos a saber o seguinte: “
- Este conto é a sua primeira experiência literária?
- Sim. Ás vezes escrevo pequenas quadras para as minhas filhotas e marido na altura dos seus aniversários ou outras alturas festivas. Escrevi também um diário durante as duas vezes em que estive grávida que me deu muito prazer e que espero ler às minhas filhas quando elas crescerem um pouco mais.
- Colabora nalgum jornal ?
- Não. Nunca o fiz.
- Onde, quando e por que sentiu o despertar para a criação literária?
- Acho que sempre gostei de escrever. Lembro-me de ser elogiada durante o 1º ciclo pela minha professora e também na fase terminal da licenciatura em relação à redacção do relatório de estágio. Também na fase da adolescência escrevi, tal como todos os jovens dessa idade, os meus poemas de amor. Na verdade, não me sinto nenhuma “criadora” literária. Apenas tinha conhecimento da iniciativa e resolvi escrever.
-Porquê este conto e não outro?
-Tinha que ser um conto infantil, gosto muito de crianças, gosto muito de trabalhar com elas e as crianças que, de algum modo, são desfavorecidas captam o meu interesse e desejo de ajudar porque todas elas deveriam ser felizes. E, infelizmente, existem tantos “meninos de ninguém” por este mundo fora…
- No futuro, como vai ser a sua relação com a literatura?
- Julgo que nada vai mudar. Vou continuar a escrever para mim, quando me apetecer e enquanto isso me der prazer.
- Qual o seu relacionamento ou afinidades com Cabeceiras de Basto?
- Já trabalho em Cabeceiras de Basto há bastante tempo e, como tal, passo grande parte do meu tempo aí. Conheço as várias iniciativas e festividades desenvolvidas pelas instituições locais e considero-as uma mais valia.
- Revele-nos um pouquinho do seu curriculum (profissão, habilitações académicas, meios sociais que frequenta, em que colectividades participa, etc.)
- Como já referi, trabalho em Cabeceiras de Basto, sou psicóloga no Externato de S. Miguel de Refojos e tenho vindo a desenvolver a minha actividade profissional sempre com crianças e adolescentes. Como sou natural e residente no Concelho de Guimarães, todas as minhas outras actividades se desenvolvem aí, sempre com a família que é o meu bem mais precioso e que coloco sempre na linha da frente.
Não queria terminar sem antes agradecer vivamente a todos os que proporcionaram esta experiência que alimentou o meu ego e me fez sonhar mais um pouquinho. O meu obrigado à Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e à Biblioteca Municipal Dr. António Teixeira de Carvalho..
JOAQUIM LUÍS O. COSTA
Este concorrente é técnico superior da VALSOUSA, na área da “Rota do Românico do Vale do Sousa”. É licenciado em História e tem o mestrado de “Ciência de Informação”. Reside em Felgueiras. Sobre Cabeceiras, assim nos fala: “Tenho alguns amigos na Vila, que aí trabalham. Tirando estas amizades, antes de ir a Cabeceiras visitar a Igreja e arredores para o conto, tinha passado pela Vila a correr, de passagem.”
E diz-nos ainda mais: “É a minha primeira experiência literária. Ainda não tinha experimentado escrever um conto, apesar de há vários anos, ter a ideia de escrever uma história para crianças(…) Acontece que o concurso realizado pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e a forma como se encontrava organizado, convenceu-me definitivamente a “arranjar” tempo para escrever”. Na comunicação social, a minha colaboração tem sido(…) sobre história local, uma das minhas áreas de investigação.. O último artigo que publiquei foi na Nativa Magazine, revista regional do Vale do Sousa, sobre a vida e obra de Manuel Faria e Sousa. Estou a preparar outro sobre Nicolau Coelho, importante navegador português, que colaborou na descoberta do caminho marítimo para a Índia e que foi o primeiro a pisar terras de Vera Cruz(…).Eu desde sempre vivi e moldei a minha vida para os livros. Fui durante seis anos bibliotecário. No contacto diário com os livros infantis, aquando da aquisição ou na divulgação (através de horas do conto ou outro tipo de actividades lúdicas), sentia que nem todas as formas de explorar os contos estavam esgotadas. Faltava algo. Um dia fez-se “luz”! – Quando estava a visitar uma das igrejas que fazem parte da Rota do Românico, surgiu a ideia: juntar a história da criação do Mundo, com a extinção dos animais e o quotidiano das pessoas, nomeadamente o espaço sacro e o Natal.”
Porquê este conto e não outro?...
- Este é o tipo de conto (de) que gosto: baseado em algo palpável, que faz parte do quotidiano das pessoas (como por exemplo, uma igreja) e que, ao mesmo tempo, transmita uma mensagem ou valores, como a amizade, a entreajuda, o amor entre as pessoas. Neste caso, usei os animais para fazer o paralelismo com a sociedade actual. No meu conto, um ratinho, após descobrir quem criou o Mundo, procura salvar os animais da extinção. Inicialmente é uma luta individual e só quando aconteceu uma tragédia (como acontece muitas vezes com os humanos, que só agem após desgraças), é que todos os animais decidiram ajudar o ratinho a salvar o Mundo. É o que os homens são: reactivos e não activos.
Este premiado “ anda sempre com um livro no carro para ler nas pausas diárias. Para além dos contos infantis, aprecia policiais(…)

A SESSÃO DA ENTREGA DOS PRÉMIOS

Esta iniciada na forma protocolar, conheceu vários intervenientes: do vereador do Pelouro da Cultura, Dr. Domingos Machado para enaltecer o mérito do concurso, dos concorrentes e das obras premiadas. Mas também para defender o livro que jamais será substituído pela Net:: “O livro é uma companhia. Tem odor. Tem uma história(…) O livro tem a nossa afectividade: um sublinhado, um comentário, uma cor, uma história(…). Foi apologético da leitura: “ para não aconteça que um dia, os livros e a leitura sejam uma memória de um tempo perdido(…) Mesmo que nos chamem fósseis…( leiamos sempre!). Nada pior para quem escreve, que não haver leitores(…)”.
Tanto de importante e interessante foi dito ainda! Por este vereador, pelos premiados, pelo porta-voz do Júri e pelo Presidente da Câmara! E também pelo Presidente de Junta, amigos Arcoenses! Pena é que tudo não possamos referir aqui. Por que não, uma acta, sempre, destes eventos com o registo integral das intervenções, para a chamada “memória futura”?
Permitam-me, amigos meus, que termine este meu encontro convosco, referindo o elogio feito ao Presidente de Câmara, num acto de justiça, em compensação da mágoa e da tristeza pela ausência dos Arcoenses, sobretudo dos que para o evento foram pessoalmente convidados. Elogio feito por Luís Jales: “Venho(…).Mas venho também e sobretudo por V. Exa. Venho pelo snr. Presidente(…) em quem reconheço o denotado braço forte, o braço armado com a espada do desenvolvimento e do progresso que V. Exa ergueu e continua a erguer todos os dias contra todas as interioridades e contra todas as injustiças e contra todas as assimetrias. E venho com a espada da cultura que V. Exa sabiamente empunha e que tão alto tem levantado. Venho por V. Exa que dignifica os escritores, dignifica as letras e tem semeado sorrisos nos olhos das nossas crianças(…).De contos das cores azuis e verdes de uma região que só podia ter um nome: Cabeceiras. É por isso que estou aqui. Porque V. Exa é uma referência e porque V. Exa também é orgulho para toda esta região e particularmente para todos os que o estimam aqui”.
E é tudo, amigos meus. Do Arco de Baúlhe, além do Presidente da Junta apenas quatro presenças: de duas crianças ( um menino e uma menina); e de duas senhoras, do Centro de convívio e lazer do Arco. Quem não esteve, não sabe quanto perdeu.
Termino, meus amigos, também com a desolação do Presidente de Junta do Arco: “Só queria agradecer a todas estas pessoas e lamentar que os que estão de fora não tenham participado aqui na distinção dos premiados do concurso nesta biblioteca municipal(…). Daqueles que reclamavam a biblioteca aberta ao sábado e aqui não aparecem.(…) Estou muito triste também porque não vejo aqui nenhum dos que foram convidados e a quem entregámos convites pessoalmente(…)”.
Mas valeu a pena, amigos! Houve ganhos! Quais? O concelho que se projectou e ganhou novos amigos; a literatura que saiu enriquecida. A nível nacional e também local. As crianças de Cabeceiras de Basto que vão ler e conhecer novos contos infantis. A Cultura literária de Cabeceiras ficou mais rica.

Por Pedro Marques

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