Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-07-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

UM TRISTE MÊS DE MAIO (III)
Assim começou a notar-se pela vila a presença de alguns desconhecidos, de poucas palavras, “assolapados por tascas e alfurjas”, mas sempre por perto dos sindicantes e do administrador. Corria o boato de que se estariam a juntar para proceder a uma “Montaria”, isto é, uma batida aos lobos. Só que os lobos eram de duas pernas. Para o Jornal de Cabeceiras “a Montaria”, organizada pela autoridade administrativa local “teria tido por objectivo uma ingénua caçada ao pio-pardo”.
A caçada não teve efeito mas o aparato público era ainda notório: “O espectáculo recentemente exibido de claviculários assolapados por tascas e alfurjas, dá uma ideia triste do princípio de autoridade”.
O “Povo de Cabeceiras” “apresenta os regeneradores lívidos de espanto e de medo, em face da farandulagem, armada de escopetas e varapaus” e terminava com esta frase: “Estamos sendo governados pela malandragem”, a que o Jornal de Cabeceiras retrucou, afirmando: “as tropas recrutadas pelo Sr. administrador” é que são a malandragem e insinuava que tudo isto era uma “bisca jogada pela certa a influentes locais do derrotado Partido Progressista”.
Os sindicantes foram embora e a Câmara tinha de resolver o problema da Escola Agrícola de Gondarém. Numa reunião extraordinária realizada em 12 de Junho a Câmara limitou-se a tomar conhecimento da decisão governamental e reservava-se o direito de tomar decisões.
De qualquer modo já constava que o Sr. Nunes da Silva reservara em Gondarém “o lugar de capataz para o seu dilecto amigo e colega Sr. Dr. Vasconcelos, se for para diante a reorganização da Escola Agrícola”. Em vez de cumprir de imediato a decisão governamental, a Câmara encarrega o Sr. Francisco Botelho de elaborar um projecto de remodelação daquela Escola.
Mas a 26 de Junho nasce uma…

ONDA DE ESPERANÇA (I)

Era verdade. O governo de Veiga Beirão durara meio ano e desfazia-se agora em pó. O rei D. Manuel teria forçosamente de chamar ao poder o Partido Regenerador. Este forma governo encabeçado pelo seu chefe, o conselheiro A. Teixeira de Sousa: “Para uma tarefa tão ingente, só um estadista de alta envergadura podia ser escolhido”. Fica com a Presidência e a pasta do Reino. Nomeia logo o Dr. Francisco Botelho, da Casa do Mourigo, governador Civil de Braga. Este, por seu turno, volta a chamar para o cargo de administrador do concelho o Pe Domingos.
A vila de Cabeceiras vai celebrar condignamente a chamada ao poder do Partido da Regeneração. A manifestação sai com a Philarmónica à frente, acompanhada de um grande grupo de correligionários. Dirige-se à Ponte de Pé, onde o Sr. Filipe Machado apresenta um ligeiro serviço de vinho fino e bolos. O Pe Firmino, presidente da Câmara levanta um brinde. Regressa-se à Praça onde é içada a bandeira, brilhantemente iluminada. O destino agora é a Rapozeira. A festa é na Casa de José Eduardo Pereira Leite que oferece um serviço de vinho fino e biscoitos à Filarmónica e seus acompanhantes. O entusiasmo é vibrante.
As principais famílias da vila dirigem-se para S. Nicolau. O destino é o Instituto de Gondarém. Os Dr.s Arnaldo Leite e Francisco Maia oferecem uma ceia. A frontaria das escolas estava vivamente iluminada e embandeirada, tendo-se improvisado animadas danças populares.
Era uma onda de esperança que se vai manter por alguns dias. O “Jornal de Cabeceiras” lança ao ridículo “O Povo” com esta prosa:

Gazozo
“Com a subida do Sr. conselheiro Teixeira de Sousa ao poder, o ilustre D. Ordonho começou a ser um óptimo consumidor de águas do Vidago. E caso é que o talento começou também a afluir-lhe a jorros, de tal sorte que as benesses e honrarias chovem sobre elle, como outr’ora sobre o grande Pacheco, de Eça. O modesto lugar, que o Sr. Nunes da Silva lhe prometera em Gondarém, tem de resigná-lo, pela força das circunstâncias”.

(continua)

SÃO JOÃO NA PONTE DE PÉ

Uma multidão invadiu o bairro da Ponte de Pé para celebrar as tradicionais festas ao Santo Percursor. O arraial foi memorável, mercê do brilhantismo que alcançou: ornamentações e iluminações tinham um aspecto surpreendente e bizarro, ostentando-se desde o Campo do Seco até ao Cruzeiro, com grande profusão de bandeiras e luz a jorros; a cascata, instalada entre o Asylo e o estabelecimento do Sr. Álvaro de Moura, atraiu todas as atenções, com figuras e objectos – comboios e moinhos – em constante movimento, em posições de extravagância; as Filarmónicas de Golães(Fafe) e de Sobradela da Goma (Póvoa de Lanhoso) exibiram-se em dois pavilhões de belíssimo efeito, enquanto o espaço se iluminava com o fogo de artifício deslumbrante dos artistas de Revelhe e Ribas. A iluminação da ponte era de belo efeito e o povo aglomerou-se para ouvir a serenata, cantada do barco “São João da Ponte de Pé”, que por várias vezes subiu e desceu o rio, engalanado e iluminado.
A missa da festa foi cantada na manhã seguinte na capela de S. João da Quinta da Mata, tendo o sermão sido proferido pelo Pe Firmino, presidente da Câmara e capelão de Nª Srª dos Remédios.
A multidão voltou a encher a principal rua do bairro, nomeadamente desde a Casa da Ponte até à casa do Sr. Máximo de Sousa e Silva, ladeada por muitos vendedores de frutas, doçuras, cafés e refrescos.
Parabéns à Comissão de que Gaspar de Mello, José António Pires e José Salreta foram os principais obreiros.

PESSOAS

O Padre José Pereira Camelo foi encomendado para pároco da freguesia de Bucos. O “Povo” tinha exultado com esta nomeação, de tal modo que o Jornal de Cabeceiras estranhara “uma cordealidade de correligionário” que não passava de “uma invenção de mau gosto”.
Substituía o pároco Manuel Joaquim Pereira.
O Padre Eduardo José Pereira Gomes, nosso conterrâneo, assumira a paróquia de São José de Godim, no concelho da Régua, “um dos melhores benefícios” do bispado de Lamego. Deixava assim de paroquiar Santo Adrião em Armamar.
Alírio da Costa Queiroz, extremoso filho do Sr. José Alexandre de Queiroz, tinha sido admitido na Escola Normal de Braga.
A jovem Maria Alves Pereira, filha de Zacarias Alves Pereira, de Boadela, transitara para o 3º ano daquela escola.
Tinham sido nomeados novos regedores. Para Abadim o Sr. Francisco Maria Gonçalves, para S. Nicolau António Bento da Cunha e para Refojos Manoel Agostinho da Costa.
No Porto falecera D. Ana Moura de Castro Bastos, esposa do nosso conterrâneo José de Oliveira Bastos, proprietário do conceituado Grande Hotel do Porto.
Somente chegou agora a notícia do falecimento em 3 de Abril em Lourenço Marques, de doença biliosa, do 1º cabo de artilharia Adelino Delgado, natural de Buços, filho de Júlia Delgado.

DIREITOS PAROQUIAIS

Durante a fase final da Monarquia os bispos e padres recebiam uma tença do Estado. As excepções eram os párocos que viviam da côngrua anual e do rendimento do chamado “pé-de-altar”, ou seja, taxas e esmolas por baptismos, casamentos e funerais.
Vejamos os preços destes:
Enterro à mão ——————— 600 reis - (com acompanhamento + 600);
Enterro de sege ————— 1,200 reis - (com acompanhamento + 800);
Caixão à cova à mão —— 2,400 reis - (com acompanhamento + 800);
Caixão à cova de sege — 3,000 reis - (com acompanhamento + 2,000);
Funeral de berlinda ou de coche: Nem queira saber. Era só para muito ricos.

Estas quantias eram devidas ao pároco. A Junta, pelo tesoureiro, cobrava mais metade.

A PROPÓSITO

A propósito do “pé d’altar devido” pelos funerais, é de dizer que a imprensa local dava normalmente grande destaque a esta cerimónia. Assim eram indicados os nomes dos familiares, sacerdotes e oficiantes, quem transportou a chave do féretro, quem pegou ao caixão e às borlas, quem ministrou os lavabos, de quem eram as côroas e bouquets de flores e, muitas vezes, o texto destas tristes mensagens.
Indicavam-se quase todas as pessoas presentes que o localista conhecia e terminava, invariavelmente, com o nome de quem dirigiu o funeral.

IMPOSTOS NA MONARQUIA
O Real D’Água

Terminava em 5 de Julho o prazo de pagamento deste imposto. Que imposto é este? A sua origem remonta aos tempos da Monarquia Afonsina. Era uma taxa que recaía sobre produtos alimentares. Foi o Município de Elvas que o inventou pela necessidade que teve de arranjar fundos para o custeio da restauração das suas muralhas.
Não demorou muito tempo que a côroa se apressasse a utilizar este imposto para seu benefício, como uma espécie de derrama para acudir a despesas urgentes.
Nos meados do século XIX já era um imposto de cobrança regular, recaindo sobre alguns géneros alimentícios como cereais, vinho, carne e ovos e em 1869, com Anselmo Braancamp sofreu uma subida muito acentuada, penalizando os bens de primeira necessidade. Só a República o exterminará em 1914. A Junta Governativa do Norte – que instaurou a Monarquia do Norte – tinha no seu plano reinstaurar este imposto. Mas como a Monarquia do Norte só durou um mês…

JULGAMENTO

Estava marcado para o dia 19 de Julho o julgamento de Ernesto Mota e Bernardo Durães por crime de ofensas corporais de que resultou a morte de Francisco Ribeiro. O crime fora cometido em Março de 1910 no sítio do Penedo Furado, freguesia de Pedraça, onde residiam os criminosos e a vítima. O defensor era o Dr. Camilo Henriques.

MISSIONÁRIO

Pela primeira vez na história da nossa terra, um missionário ia pregar nesta villa, na festa da 1ª Comunhão.

ÚLTIMA HORA

O Supremo Tribunal Administrativo mandou suspender a Sindicância à Câmara.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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