Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-06-2010

SECÇÃO: Opinião

A PÁSCOA NA ALDEIA

Ainda há pouco passou a Páscoa, época cada vez mais descaracterizada, em parte pela laicização da sociedade, mas também porque as pessoas não se preocupam muito em manter tradições que ao longo dos anos se conquistaram. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, a festa da Páscoa cedo se vislumbrava, por isso também começavam os trabalhos para receber em nossa casa o Senhor Padre. Na semana que antecedia a desobriga, haviam as pregações e naquele tempo a Igreja Matriz ficava lotada e já nessa altura dizíamos que a Páscoa estava a chegar, festa esta que o meu pai tinha muito respeito. Quando chegava o Domingo de Ramos, não se pensava em mais nada, simbolicamente só víamos a Páscoa. Na Quinta-feira Santa quando o meu pai ouvia o relógio da Igreja de Pedraça bater 12 horas dizia: “A partir de agora até amanhã à mesma hora não se trabalha porque durante este período de tempo nem os passarinhos mexem os ovos no ninho.” Esta frase significava a fé que ele sentia no seu interior.

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Chegada a Sexta-feira Santa às 12 horas referia:”Agora já se pode trabalhar, mas como está o Senhor Exposto, vamos cortar erva para os animais e vamos à Igreja rezar uma oração ao senhor.” Na parte que me diz respeito, sentia uma alegria inesquecível.” Como o Senhor ficava exposto desde a Sexta-feira às 9 horas até Sábado à mesma hora o saudoso Padre Barreto escalonava para durante a noite, grupos de pessoas por turnos de 1 hora. Lembro-me de num dos anos ser escalado juntamente com pessoas da minha zona das 3 às 4 horas da manhã e sermos substituídos por um grupo do lugar de Chacim. Quando este grupo chegou à Igreja a cantar até o corpo se arrepiou. Terminada a vigília Pascal às 9 horas da manhã de Sábado, era proclamada a Ressurreição do Senhor. A esta hora os sinos repicavam e o foguetório era enorme por todas as freguesias. As crianças saltavam de alegria e diziam “Aleluia.” Neste dia era uma azáfama total, era preciso lavar a casa, forrar as paredes com papel de jornal colado com farinha triga amassada, colher flores para enfeitar a entrada da casa e fazer também um tapete com pétalas nesta mesma entrada e ainda cortar erva para os animais.
Nesta festa eu estreava sempre uma peça de roupa, por isso a alegria era tão grande que não conseguia dormir um minuto, só pensava na alvorada anunciada pelos foguetes e pelo repicar intenso das campaínhas. A Páscoa era linda. Logo de manhã íamos à missa à capela da casa de Paredes, depois saíam duas cruzes, uma em direcção ao Alto do Monte, outra seguia para o lugar da Freita. Depois de celebrada a missa das 11 horas na Igreja Matriz seguiam até Alvações, onde almoçavam, indo recolher ao ponto de partida que era a dita casa de Paredes. Tanto ao sair como ao recolher os foguetes estalavam e as campaínhas anunciadoras da Páscoa ouviam-se à distância, ora mais perto, ora mais longe. Na varanda, os familiares e amigos conversavam, mostrando a alegria que sentiam quando ouviam alguém dizer “Vem aí! Vem aí o Compasso!” O verdadeiro Compasso chegou: de opas vermelhas e brancas até abaixo do joelho. As fotografias, apesar de mais recentes documentam esta minha afirmação. O homem da direita, de opa branca, trazia a cruz, o que vinha do lado direito deste transportava a caldeira de água benta, mais à esquerda, um homem segurava uma carteira debaixo do braço para guardar o folar para o Senhor Padre. Um pouco atrás, um jovem mais novito agitava a campaínha e mais atrás está a aparecer o Senhor Padre vestido de branco.
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A Segunda-feira de Páscoa, não há memória, era lindíssima. As duas cruzes saíam da capela de Chacim, percorriam toda aquela zona e almoçavam perto da Ponte de Pé. Deste local até ao Quartel dos Bombeiros, a Banda Cabeceirense, ou outra, abrilhantava esta festa. As cruzes juntavam-se neste Quartel, o toque das sirenes era deslumbrante e o foguetório era enorme. Seguiam o seu percurso e recolhiam na Igreja Matriz. No Domingo de Pascoela, era outro dia de grande emoção. As cruzes saíam da capela de Nossa Senhora de Fátima e fazendo toda a área envolvente, juntavam-se na Praça da República, recolhendo depois à Igreja Matriz. Era uma festa que nunca esquecerei.
A tudo o que faço referência pergunto: “Onde estão as pregações que antecediam a desobriga? Onde está o Senhor Exposto na Sexta-feira Santa? Onde está a proclamação da Ressurreição do Senhor às 9 horas da manhã de Sábado?”
Em suma: tudo nasce, tudo morre!

Por: Manuel Sousa

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