Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-06-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

foto
CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

UM TRISTE MÊS DE MAIO (II)
Extinto o Lyceu o governo virou-se para a Escola Agrícola e Industrial de Gondarém e um despacho de 16 de Maio determina o seguinte: “o processo de organização da Escola Industrial e Agrícola de Gondarém deve ser revisto e a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto intimada a dar à dita escola organização e pessoal, que a tornem apta a exercer, com seriedade e proveito, a função que o testador lhe atribuíra, sendo sobre tal assunto ouvidas as estações competentes do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria.
O prazo concedido à Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto para dar execução à revisão que agora é ordenada é de um mês (…) para que a escola, reorganizada, possa começar a funcionar regularmente no princípio do ano lectivo”.
(Diário do Governo, nº 112, de 23 de Maio de 1910)
Esperava-se agora a chegada do sindicante, insinuando-se de que a sindicância poderia muito bem levar à extinção também da Escola Agrícola e à dissolução da Câmara. Como meta final estaria a vontade do governo se apropriar do legado da herança do benemérito Gomes da Cunha.
Os sindicantes chegaram. Mas que a autoridade administrativa tinha um certo receio da população era verdade. Assim o administrador Alfredo Augusto Borges, que tomara posse em 19 de Abril, reuniu um grupo de homens armados a que os regeneradores vão chamar depreciativamente “a montaria”.

(continua)

O SENHOR ADMINISTRADOR E O TÓTÓ DAS PRIMAS

Há muito tempo que o Instituto do Gondarém passava por algumas tricas. Tudo tinha começado quando o farmacêutico Francisco Maia, que estava à frente da farmácia daquele Instituto requereu à Câmara um aumento do subsídio para comprar medicamentos que eram distribuídos gratuitamente aos mais pobres da freguesia, cumprindo assim o desejo do benemérito Gomes da Cunha. Como a Câmara era a gestora dos rendimentos do legado testamentário, era da responsabilidade desta a concessão ou não do subsídio.
O “Povo de Cabeceiras”, órgão da oposição, opoz-se; o “Jornal de Cabeceiras”, órgão do partido no poder, apoiou as pretensões do boticário Sr. Maia. De modo que havia uma disputa acérrima a que não fugiam os funcionários e os habitantes de Gondarém.
Um desses funcionários era uma professora do Instituto que tinha “um pequenino Tótó, de pêllo macio e curto e olhar inteligente”, cãozinho esse que um dia desapareceu e ninguém mais lhe pôs a vista em cima. A professora acusa a família do Sr. Maia de ter feito desaparecer o totó e queixa-se ao administrador que era “já o lisboeta Alfredo Borges, primo da dita professora. O senhor administrador resolveu intervir e “atravessando, com o seu pomposo ar de citadino o terreiro do Instituto […] falou”, à frente da casa do Sr. Maia: “É preciso que o cão apareça imediatamente, pois que estou resolvido a metter tudo isto na ordem”.
Acompanhava o administrador o Vigário de Refojos, Pe Villela que meteu a sua colherada: “o animalzinho tem sofrido muito, constando-me até que lhe meteram uma rolhinha em certo sítio e lhe fizeram uma côroa.
O animalzinho apareceu naquele momento. Não nos é dito se tinha ou não uma rolhinha em certo sítio. Comentário do articulista: “Só deste luminar eclesiástico é que podia provir tão subtil conceito”.
J. Verde, poeta nas horas vagas, não perde tempo e faz a seguinte quadra:
O Cidrós
“A rolhinha tão lembrada
Pelo cidrós bem amada,
Deixo-a só a este amigo
Juntamente com o umbigo.


FERROADA

“Aquelle director da mula russa sempre é muito divertido! Quando esteve como presidente da célebre comissão municipal tratou apenas de destruir. […] Pois agora exige da vereação actual nada menos do que águas, ruas, mictórios, bancos, o diabo a quatro”.
(J. Cab. nº 739, de 12/06/1910, dedicada ao Dr. António Vasconcelos, presidente da Comissão Administrativa durante a ditadura de João Franco).

GRAVE DESORDEM NA PONTE DE PÉ

No dia 12 de Junho (domingo) a Ponte de Pé viveu mais uma tarde de balbúrdia, provocada por uma ronda que alguns rapazolas da Rapozeira organizaram e se deslocou àquele bairro, tocando.
“Demorada briga e grande tiroteio […] de que resultou sair ferido com uma bala de revólver na perna direita Domingos Formigueiro. […] Um indivíduo de Fontão também (foi) ferido por uma bala ligeiramente numa perna, e Manuel Carvalho com uma pancada na cabeça”.
No dia seguinte o administrador efectuou algumas prisões e remeteu o processo para o juízo.
A imprensa local viu a desordem de maneira diferente: enquanto o “Povo” atribuía o acontecimento à “rivalidade entre moradores da Ponte de Pé e da Rapozeira”, o “Jornal de Cabeceiras” atribui a desordem “a uma leviana provocação de um grupo de rapazolas”.
Choviam os mais apaixonados comentários e criticava-se as desordens que eram muito vulgares aos domingos, provocadas por uma garotada que “andam por aí armados de revólver”.

QUEDA

O Pe Arnaldo de Paredes tinha ido visitar a Casa do Barão de Basto em Riodouro. Ali sofreu uma queda duma varanda abaixo, de uma altura razoável, tendo sofrido algumas lesões de gravidade.


PONTE DE CAVEZ

Um decreto datado de 16 de Junho declara a Ponte de Cavez Monumento Nacional.

EXCERTOS DA IMPRENSA CABECEIRENSE

Franquistas ou Progressistas?
“Alguém nos affirmou que os antigos progressistas de Cabeceiras se voltaram para a cevada, prestando submissa vassalagem ao governo de João Franco”.
(J.Cab., nº 588, de 01/06/1907.

PESSOAS

D. Leonor Barroso, da Casa do Casal de S. Nicolau, ofereceu à igreja da paróquia uma magnífica e artística cruz de prata.

Na igreja de Refojos consorciaram-se o Sr. Serafim de Sousa Nogueira, da Casa do Espinhaço (Outeiro) com D. Emília Antunes, de Gragilde (Painzela).

O académico João de Magalhães Ferreira, filho do recebedor Anselmo Ferreira, foi aprovado no 1º ano do Curso Teológico do Seminário de Braga.

O académico José Guilherme P. Leite, filho do Sr. Francisco de Mattos Vilella Pacheco transitara para o 2º ano do Lyceu de Braga.

Joaquim Gonçalves Costa, importante comerciante em Lisboa, natural de Abadim, ia mandar realizar uma brilhante solenidade a S. Jorge. O orador sagrado seria o Pe Firmino.

O Sr. Luiz de Mello Sampaio, ilustre director do “Povo de Cabeceiras”, encontrava-se rigorosamente enfermo.

Em Lisboa faleceu Júlio Gonçalves Cardoso, filho de D. Claudina Gonçalves Cardoso, da Casa do Cruzeiro da Ponte de Pé.
Tinha vivido em Cabeceiras na sua juventude.

NOTICIÁRIO LOCAL
(Maio/Junho de 1910)

Foi lançado no rio Peio um elegante barco que foi crismado “O São João da Ponte de Pé”. Embandeirado e engalanado, subiu e desceu por várias vezes o rio, ao som de foguetes.

O administrador publicou um edital anunciando o concurso para o fornecimento do sustento dos presos indigentes das cadeias d’esta vila.

O asylo da Ponte de Pé anunciava admissão de indigentes inválidos.

A Junta da Paróquia de São Nicolau tinha dirigido uma representação ao governo, pedindo um subsídio de 300,000 reis para a ampliação do cemitério paroquial.
O mercado municipal realizado no dia 12 de Junho apresentou preços com um aumento substancial em alguns produtos. Enquanto o preço do feijão se mostrou idêntico, o milho, tanto branco e amarelo, subiram e alcançaram a cotação respectivamente de 750 e 700 reis, contra os 650 e 630 dos mercados anteriores. O centeio passara de 640 para 680 reis e o painço de 800 para 1,000 reis. A batata subira de 360 para 500 reis. (Preços por medidas de 20 litros). Os lavradores esfregavam as mãos e os clientes ficavam mais leves…da bolsa.

Estava marcada a arrematação da condução de malas de correio entre Braga e Cabeceiras. A condução era diária e em carro. A base de licitação era de 1,800 reis.

Estava a pagamento até 5 de Julho o real d’água.

Em S. Nicolau realizou-se uma solene festividade, com comunhão solene, missa cantada e sermão.

ANÚNCIO

G. B. Pereira Basto, nosso conterrâneo, apresentava a “Cervejaria Bastos” na Rua do Laranjal (Porto), onde se vendia a melhor cerveja da cidade, pelo que era muito frequentada pela alta sociedade portuense.

ÚLTIMA HORA

Está iminente a queda do governo progressista de Veiga Beirão. Uma esperança para Cabeceiras de Basto com a formação do próximo ministério regenerador.

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.