Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2010

SECÇÃO: Opinião

S. BARTOLOMEU DA PONTE DE CAVEZ (II)

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Voltemos à Ponte de Cavez para continuar com o relato mais ou menos aproximado que nos fez Camilo Castelo Branco àcerca do que aconteceu naquela distante noite de 23 de Agosto de 1842.
A Ponte de Cavez foi em 1910 classificada como Monumento Nacional e como já referimos foi mandada construir por Frei Lourenço Mendes, no Século XIII, sobre o rio Tâmega para ligar as províncias do Minho e Trás-os-Montes. Reza a história que ao ser colocada a última pedra que dava por concluída tão grandiosa obra, Frei Lourenço ao vê-la tão bela, sólida e robusta caiu redondamente fulminado.
Por acordo unânime das autoridades Frei Lourenço ficou sepultado ao lado de um dos pegões da ponte com a seguinte inscrição: “Esta é a Ponte de Cavez e aqui jaz quem a fez”.
Camilo diz-nos que, o que mais o atraiu à famosa romaria da povoação de Cavez foi o facto de presenciar o ritual da luta que nessa noite se ia travar entre o Santo e Santanás para expulsar os demónios alojados nos corpos das lindas moças barrosãs. Era um cortejo de raparigas vindas de muitas léguas em volta. Então essas obsessas criaturas vinham incubadas de mil demónios, sofriam o dissabor de ser visitadas pelos espíritos infernais.
Vinham em fila essas mulheres endiabradas até à igreja de S. Bartolomeu procurar alívio para os seus corpos. O Demo tem caprichos sujos em pessoas possessas mas raramente acontece aos homens.
Como é que a natureza foi às montanhas escolher corpos tão bem talhados de formas esculturais ao jeito da beleza antiga?... Mocetonas de pulsos fortes, seios fartos, lábios carnudos, faces rosadas e olhos coriscantes. Pena é que a natureza nunca faz duas iguais… Como foi possível persuadir tais moças a deixarem-se envolver nos laços e entrar na dança dos espíritos malignos. As danças são laços do demónio que ajudam a dar muitos garrotes. O diabo é a cabeça da reviravolta de um baile que atrai gentis mocetonas. O santo era de pedra granítica e de bom tamanho.
Ali o Santo trava impiedosas lutas com o demónio que desencabrestado rabiava nos corpos das raparigas que arquejavam em franco delírio estrebuchando. As moças já desencubadas caíam sem forças no regaço das mães chorosas e aos poucos iam-se restabelecendo.
Quando sãs, em acção de graças rodeavam a igreja de joelhos e voltavam às suas terras para casar poucas semanas depois.
Por volta das três da madrugada Camilo voltou à ponte na altura em que os grupos de Mondim e Cerva ultimavam os preparativos para travar a grande batalha que nem os doze soldados da Infantaria de Guimarães para ali destacados poderão evitar. Os romeiros tomaram posições estratégicas para observar uma batalha ao jeito da idade média.
Ao sinal do fidalgo Pacheco de Andrade, arquitecto do plano de ataque do grupo do João Lobo de Cerva estalou a borrasca com desmedida violência. Os mirones que haviam tomado posições privilegiadas junto ao teatro de guerra, fugiam desordenadamente em todas as direcções entoando uma infernal gritaria e a festa nessa noite ficou irremediavelmente estragada, mas, não há que estranhar a romaria do S. Bartolomeu da ponte de Cavez era aquilo mesmo e festa que não metesse pancadaria da grossa já não tinha piada nenhuma.
Julgo contudo haver um ou outro pormenor que me deixa com dúvidas… Se a batalha começou às três da madrugada como é que eles acertavam com os paus nas cabeças uns dos outros?
Quanto aos paus de carvalho que o fidalgo mandou cortar uns dias antes e por de molho numa poça para lhes dar elasticidade e melhor se cingir ao corpo do adversário, julgo que a ser verdade eram atitudes de quem não batia bem da bola e nada ortodoxas de acordo com aquilo que observei nas regras que antecediam as cenas de pancadaria nos meus tempos de rapaz como adiante se verá.

Por: Alexandre Teixeira

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