Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (122)

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IR A CUCANA

Nem de propósito! Há muito tempo, já há alguns anos mesmo, que eu trazia engatilhada a ideia de escrever um texto sobre o tema. Embora com algumas reticências, sempre me pareceu poder ser um tema interessante.
O sábado passado, oito do corrente mês de Maio, de 2010, foi um dia deveras rico em acontecimentos. Acontecimentos tais que vieram dar-me aquele toque de que eu precisava para levar o meu projecto de artigo por diante.
Logo pela manhã, e durante um amplo espaço de tempo, entre as onze e as treze horas, que foi o tempo do programa das manhãs de sábado, “Portugal sem Fronteiras”, conduzido pelo apresentador Carlos Alberto Moniz e pela fadista Diamantina, um dos convidados presentes foi o Presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto.
Ao longo de todo este programa, e entre muitas outras coisas de que falou, o Eng. Joaquim Barreto aproveitou para fazer a devida divulgação da feira do cavalo que iria realizar-se nos dias quinze e dezasseis de Maio, nas instalações do Centro Hípico do concelho. Quanto a este particular, teceu um amplo conjunto de explicações, algumas delas com grande pormenor, sobre a história da reprodução e do trabalho desta espécie da nossa fauna. Como se criavam, como se comercializavam e como eram usados nos trabalhos de transporte de pessoas e bens, os cavalos, os burros, os jumentos e as mulas.
Da parte da tarde, assistiu-se, e eu próprio assisti também, ao lançamento, no auditório do mesmo Centro Hípico de Cabeceiras de Basto, do livro “A Fárria”, da autoria do escritor transmontano e barrosão (barrosão por ser natural de uma aldeia do planalto da serra do Barroso, e ainda por parte da sua obra se relacionar com esta mesma parcela do nosso território nacional), Bento da Cruz.
Tanto o Dr. António Chaves, na apresentação da obra, como o autor, na sua intervenção final, ambos fizeram referência a partes que, como era natural, reportaram de mais interessantes. E, tanto o primeiro, como o segundo, falaram de cavalos. O autor disse mesmo que devia grande parte dos seus estudos a uma égua de seu pai, pois que, fora com o produto da venda, todos os anos, pela feira do S. Miguel, em Cabeceiras de Basto, das respectivas crias da égua, os potros, que o pai conseguira dinheiro para custeio dos referidos estudos.
Em parte das décadas a que o autor se refere, e nos períodos da Feira, também eu me lembro de vir ao Campo do Sêco, por vários anos, vender feixes de pequenos molhinhos de pendão de milho, ou de erva milhã cegada de entre o milho, ao preço de dez tostões o molhinho, e que os proprietários dos animais, quase todos oriundos dos lugares da serra do Barroso, compravam para os alimentar durante os dias de feira de gado cavalar, que eram os dias vinte e vinte e um de Setembro.
A feira dos cavalos, dos burros, dos jumentos e das mulas realizava-se na colina nascente do Campo do Sêco, onde actualmente se encontra parte da construção da nova escola.
O Campo do Sêco tinha uma configuração muito diferente da actual e era maior. A nascente, tinha a referida colina e era delimitado por um muro alto, que o separava dos campos da Quinta da Vila e alinhava entre a esquina da padaria do Senhor Armindo Padeiro e a fonte de S. João, tal como ainda hoje se pode ver, se bem que, e infelizmente, bastante mal tratada. A sul, tinha outra colina, no local onde hoje se encontra o Quartel dos Bombeiros, e onde se realizava a feira do gado. Feira do gado significava feira da espécie bovina, bois, vacas, vitelos e vitelas. A poente, o terreno era mais fundo, onde existia um conjunto de construções abarracadas, inclusive um espaço onde funcionava algo a que chamavam matadouro. Este matadouro, de condições menos que mínimas, concorria com o outro, chamado de municipal, que existia junto da ponte da Ranha.
Tanto na colina nascente, como na colina sul, havia oliveiras que davam azeitona e faziam sombra.
Mas, vamos ao ponto do título. Também, nos lugares serranos do nosso concelho, não havia lavrador que não tivesse a sua égua. Lembro-me muito bem de que, por exemplo, no lugar das Torrinheiras havia cinco éguas, tantas quantas as casas de lavradores do lugar, no de Porto d’Olho, umas quatro ou cinco, no de Travassô, como em tantos outros, também havia muitas.
Que eu soubesse, e pelas mesmas razões que o escritor Bento da Cruz refere no seu livro, nenhum lavrador pensava (pensava do verbo dar penso, feno, por exemplo) qualquer cavalo. Tudo éguas. Para o efeito, havia um proprietário que possuía um elemento cavalar do sexo masculino, em Cucana. Não me chegou o tempo para indagar quem seria o referido proprietário, nem a sua morada, também não me parece que seja assim de tanto interesse, quem sabe (?) até poderia indispor-se comigo!
O facto era que, todas as éguas dos lugares de Cabeceiras e de grande parte dos de Montalegre, muito em particular da freguesia de Salto, eram levadas ao garanhão que tinha a sua residência oficial no lugar de Cucana.
Por aquele tempo, não havia brincalhão, aqui na nossa terra, que, sempre que quisesse troçar do, ou mesmo ofender o parceiro, não dissesse: «Tu precisas é que alguém te leve a Cucana!».

PS: Não tendo mesmo nada a ver com esta história, permitam-me que aproveite a oportunidade para convidar todos os meus leitores, muito em particular todos aqueles que residem na área da Grande Lisboa, para assistirem, no próximo dia 27 de Junho (domingo), pelas 17 horas, ao lançamento do meu novo livro, o romance “DO ALVÃO AO RAMELAU”, que se realizará nas instalações da FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, à Expo, aí em Lisboa. A todos, e desde já, o meu muito obrigado.

Por: José Costa Oliveira

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