Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-05-2010

SECÇÃO: Opinião

NUNCA É TARDE RECORDAR O PASSADO

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Se fizessem hoje uma serviçada como antigamente se fazia, não tenho dúvidas que diziam: “aquela gente anda toda doida”.
Dando continuidade ao tema anterior, após as ceifas do trigo e centeio, no mês de Setembro chegavam as vindimas, vivia-se uma azáfama enorme, por isso, era preciso começar a preparar tudo para colher as uvas das videiras e produzir o vinho. Começavam os trabalhos: limpar os lagares, lavar as pipas e os tonéis, preparar os cestos, convidar os amigos para esta tarefa. Logo de manhã cedo, homens e mulheres começavam nesta lida. Os homens com enormes escadas de madeira, cortavam as uvas para uma cesta com asa, construída de vime ou carvalho entrançado e despejavam-nas nos cestos construídos do mesmo modo. As mulheres com os cestos à cabeça, constantemente a pingar o sumo das uvas, despejavam-nas num recipiente de madeira, colocado em cima de um carro de bois, que na gíria se chamava caixão, o qual depois de cheio era transportado para o lagar que por norma se encontrava na residência do patrão. Era aí que, à noite as uvas eram pisadas no meio de cheiro a mosto, apreciando o fumo de um cigarro, acompanhado de uma tijela de vinho, para animar a rapaziada do cansaço que durante o dia se acumulava.
Terminadas as vindimas, começavam as esfolhadas. Estas serviçadas também não eram fáceis, mas eram animadoras. Durante o dia cortava-se o milho e transportava-se em carros de bois, para próximo de casa, porque depois de retirar a espiga a palha era armazenada em “medas”, para alimentação dos animais durante o inverno. A esfolhada propriamente dita só se realizava à noite, na qual participavam muitos jovens, sempre à espera de encontrar a espiga “milho rei”, para com o devido respeito abraçar a pessoa mais amada. Para esta serviçada compareciam sempre muitas pessoas porque sabiam que no final havia uma bela sardinha e broa de milho, seguindo-se uma dança ao som de uma concertina.
Recordo uma lavrada que iniciava ainda o sol não nascera e só terminava ao cair da noite. O campo era enorme de uma ponta mal se via a outra. Esta lavrada era constituída por 2 arados, com 3 juntas de gado a cada arado, duas grades com um junta de gado a cada grade e dois semiadores e ao cair da noite tinha de estar tudo pronto. Esta lavrada era a serviçada que eu mais adorava, porque quando vinha o bacalhau, davam duas rabanadas a cada pessoa. Ora naquele tempo comer duas rabanadas era comer e chorar por mais. Terminados os trabalhos os caseiros que participavam com gado, levavam-no a casa para lhes dar alimentação e descansar, porque no dia seguinte estes animais tinham outra tarefa. Estes caseiros voltavam para comer a refeição que era sempre arroz com feijão branco. Após a refeição todos os participantes cerca de 70 pessoas iam para a eira dançar ao toque do som de uma gaita-de-beiços, que se prolongava até cerca da 1 hora da manhã. Naquele tempo, havia muita força e alegria, hoje não à força nem alegria.
Como citei se hoje fizesse uma serviçada como antigamente se fazia, não tenho dúvidas que diziam: “Aquela gente anda toda doida”. Não posso deixar de salientar, que as serviçadas traziam sabores amargos para quem as organizava, porque eu vi muitas vezes o pessoal da casa ficar sem comer porque a comida não chegava. Era esta a situação dos pobres caseiros que tanto trabalhavam para pouco colherem e se derivado às intempéries houvesse fraco ano agrícola, era ano de fome para toda esta gente.

Por: Manuel Sousa

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