Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-05-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O CASO DO PADRE DE PAINZELA (I)
Em 12 de Janeiro de 1910 foi a sepultar no cemitério de Painzela o jovem Estêvão de Lima, muito estimado filho do Sr. Francisco José de Lima, da Raposeira. Para o funeral tinha sido utilizada uma eça sobre a qual foi depositado o caixão.
No dia seguinte realizou-se o funeral da Srª D. Guilhermina da Cruz Magalhães. Segundo o costume, o féretro foi depositado sobre um pano preto estendido sobre o lajedo do templo. O padre de Painzela, Domingos Maria de Jesus Pina, que há cerca de meio ano paroquiava a freguesia “parece que supostamente sugestionado pelo Vigário de Refojos Pe António Martins Vilela, quis obrigar a família a que o corpo fosse depositado numa eça que havia servido um funeral do dia anterior. A família não aceitou e o pároco recusou-se a cantar a missa e a celebrar ofício de corpo presente. Assim o cadáver foi sepultado sem aquelas cerimónias” (J. Cab.).
Esta falta de respeito para com a falecida deu azo a que o localista fosse ouvir a família do jovem Estêvão de Lima e descobrisse que o pároco de Painzela obrigara à utilização da eça, sem o que se negava terminantemente a celebrar as cerimónias rituais. E então insinuava-se que o Vigário de Refojos, Pe Vilela, cunhado do armador”em casa de quem vivia”, podia ter algo a ver com uma pretensa sociedade na indústria funerária. Assim é “que a eça, feita pelo cunhado e já servida para outro funeral, poderia render mais alguns tostões sem trabalho de maior” (J. Cab.).
É do articulista o comentário final: “O abade de Painzela é petulante, provocador, intransigente, hypocrita e intriguista”.
No nº seguinte o Jornal de Cabeceiras revelou que no dia 15 de Janeiro o padre de Painzela tinha procedido da mesma maneira num outro funeral e comparava-se com a atitude do Pe Vilela em Refojos e do pároco de S. Nicolau, que tinham tido funerais por aqueles dias e não tinham levantado quaisquer problemas.
E talvez tudo esquecesse não fosse o “Povo de Cabeceiras” resolver tomar parte na contenda.

(continua)


UM PEDIDO PARA PADRES DIGNOS E HONESTOS

Corria um boato sobre a apresentação na Faya de um padre de Merelim, boato que “O Povo” aproveitava para pedir ao Pe Firmino para fazer “restolhada” na Câmara. O “Jornal de Cabeceiras” avisa: “Ora em vez de andar a rejubilar-se com a importação de padres de Merelim e de Frossos, melhor fora que “O Povo” com a sua apregoada influência nos paços arcebiscopais, advogasse a colocação de sacerdotes dignos e honestos, nossos conterrâneos”.


RECEPÇÃO AO CONSELHEIRO TEIXEIRA DE SOUSA

Ainda agora eleito chefe do Partido Regenerador, já o Conselheiro Teixeira de Sousa começa a percorrer o país para arregimentar as suas tropas, Com um passado impoluto, ele é uma das grandes esperanças dos regeneradores. Os cabeceirenses esperam muito a sua chegada ao Governo que permitirá a revisão do processo da suspensão do Lyceu Municipal. Assim não admira que a sua anunciada passagem pelo Arco de Baúlhe, vindo de Vidago, seja aproveitado para uma grande manifestação de apoio. Uma enorme comitiva, presidida pelo Dr. Francisco Botelho, chefe distrital do partido, acompanhado de toda a vereação municipal com o Pe Firmino à frente, recebe-o carinhosamente e acompanha-o à residência do Sr. Júlio Pereira Leite (que, por doença, o não pôde receber) e ali se pronunciam as primeiras saudações ao ilustre visitante. Sua Exª declara no seu discurso “que desde a tragédia do Terreiro do Paço até hoje os governos nada têm feito de aproveitável para o país”.
Um opíparo almoço foi servido em casa do Sr. Comendador Jerónimo Augusto Pacheco Pereira Leite (também ausente por doença), onde o ilustre político foi novamente saudado e cumprimentado. Seguiu depois para Guimarães, acompanhado dos principais vultos do partido Regenerador de Cabeceiras. O Jornal, afecto ao partido, publica o nome das muitas dezenas de pessoas que reconheceu nesta manifestação.
O “Povo de Cabeceiras”, por seu lado, noticiava que a recepção “estava pouco concorrida”.

O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (VII)

Quando começa o ano de 1910 o concelho tem 17 freguesias que lhe restam da última reforma administrativa, todas com a mesma designação de hoje, exceptuando a de Gondiães, que ao tempo, era denominada oficialmente de Gondiães e Samão. O Arco de Baulhe – a Baulhe ou Bagulhe dos tempos medievais – era ainda um ponto obrigatório de passagem para a vizinha província de Trás-os-Montes, aproveitando o passadouro da Ponte de Cavez. Perdera, é certo, uma boa fatia de território na margem esquerda do Tâmega a favor da vizinha Athey, a terra dos sete condes.
A fama das suas estalagens tinha decrescido ligeiramente e agora dava cartas o “Hotel Comercial” de José Gomes Leite, tendo desaparecido há pouco tempo o “Hotel Pacheco” e o estabelecimento de José Benjamim de Magalhães. O Arco tinha a sua estação de Correios de 2ª Ordem, de que era encarregado José Lourenço da Silva. Tinha a Farmácia Moutinho, de João António Moutinho, (comerciante empreendedor que adquirira recentemente uma drogaria junto à farmácia), onde o Dr. Diocleciano, que não escondia de ninguém as suas ideias republicanas, vinha dar consulta.
O Arco tinha o seu juízo de paz presidido por Júlio de Oliveira, a sua igreja matriz dedicada a S. Martinho, um bocado desviada da povoação, de que era pároco o Revº Manoel Luiz Pereira. A escola é mixta, regida pela professora Rosa d’Oliveira Silva.
O povo idolatra a sua Senhora dos Remédios, abrigada numa elegante capela sita no cimo da Rua do Arco, esta da feição retintamente medieval, ladeada de prédios de traça setecentista e oitocentista. A festa à senhora ocorre nos dias 7 e 8 de Setembro, tem um sabor a resquícios pagãos em que se roga protecção para as pessoas e animais para o novo ano agrícola. Levanta-se o magestoso pau da bandeira ao som da música que as filarmónicas tocam em unissono. (Em 1909 foram vedetas da festa as 3 de Basto: – Cabeceiras, Celorico e Mondim).
Fora a vila, o Arco tem a sua feira mensal, “a feira dos quinze” conhecida dez léguas em redor. Em Dezembro o largo da Serrinha enche-se nos dias 13 a 15 com a tradicional Feira de Santa Luzia, frequentada por minhotos, transmontanos e beirões, onde se realizam bons negócios.
A freguesia tem as suas casas solarengas, rodeadas de vastas propriedades (Portela, Capela, Arrabalde, Cimo de Vila, Fundevila, Quintã).
O Arco tem influência política e todas as vereações municipais têm um vereador do Arco. Neste ano de 1910 a função é desempenhada por Bernardo de Gonçalves Fraga, que tem o pelouro dos baldios, fontes e água. Varões ilustres são o Dr. Jerónimo Augusto Pacheco Pereira Leite, natural de Cavez, antigo deputado, presidente da Câmara, governador civil e chefe do Partido Regenerador local. É também comendador, como o é também o Sr. José Joaquim Leite Borges. O Dr. Camillo Henriques é Conservador na Vila e presidente da Junta Geral de Matrizes e o Revº Justino de Sousa, antigo presidente da Câmara que, por estes dias, vai receber em sua casa o Dr. Teixeira de Sousa, chefe do Partido Regenerador. O Arco tem um bom comércio e o nosso conhecido António Moutinho, de parceria com Eduardo Gonçalves de Moura, abriu um novo estabelecimento para venda de milho, centeio, feijão, etc., ao preço do mercado. Por seu lado o alquilador José Alves Faia anunciava que mudara a postura dos seus trens de aluguer da Casa do Sr. Bernardo Lopes, ferrador, para casa de Lourenço Pereira de Magalhães, no Carvalhal, mas que podia ser procurado a qualquer hora na sua antiga morada na Rua do Arco. E como os seus preços não tinham concorrência fazia um fretezinho à vila por 200 reis. Minha mãe, com 5 anos, já cirandava por ali com uma cestinha pequenina à cabeça.

NOTICIÁRIO LOCAL
(Abril de 1910)


Julgamento

Realizou-se finalmente o julgamento dos estudantes Luís de Carvalho Basto e Francisco Martins Lage, acusados de agressão ao Dr. Diogo Rosa Machado, professor do Lyceu. Adiado por várias vezes, a sessão teve a presença de numeroso público. Os dois réus saíram absolvidos, por o crime não ter sido dado como provado, mercê da magnífica defesa do advogado Dr. Canavarro Valladares. O Ministério Público ia interpor recurso.

Falecimentos

Em Cerva faleceu D. Justina Álvares Pereira de Sousa Basto, da Casa do Mosteiro, irmã do Sr. Barão de Basto.
Em Lisboa, de morte repentina, finara-se o tenente-médico Dr. Francisco de Carvalho Valle e Vasconcelos, da Casa do Souto em Cavez.

Tempo

Mês de Abril, com frio siberiano. Muitas pessoas atribuíam estes problemas climáticos à aproximação da terra do Cometa Halley, que começara a ser visível de madrugada, a oriente.

Novo Administrador

Paulino de Mello Botelho “passou como um sonho pela administração do concelho”. Foi nomeado interinamente Alfredo Augusto da Costa Brito Borges, escrivão do distrito criminal de Lisboa. Assistiram seis pessoas à posse.






Por: Francisco Vitor Magalhães

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