Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

NUNCA É TARDE RECORDAR O PASSADO

foto
Nas décadas de 50 e 60 do século passado o concelho de Cabeceiras de Basto foi um excelente produtor de azeite.
Tive a aventura de nascer no seio de uma família de classe pobre, onde imperavam valores cívicos e religiosos que, desde cedo, me foram profundamente incutidos, por isso, com 7 anos de idade, já trabalhava na agricultura, situação que se manteve até aos 19 anos de idade. Apesar de ser um trabalho árduo e cansativo, desse tempo tenho imensas saudades, porque era saudável e dava muita alegria. As serviçadas eram a minha perdição. Lembrando esse tempo, durante a poda das videiras, havia a apanha da azeitona, uma tarefa demorada porque se ficasse um bago no solo, já o patrão implicava. Nestas épocas o Inverno era muito chuvoso e quando surgia um dia de grande temporal o solo ficava negro de azeitona. Quando isso acontecia já sabia que ao Domingo era obrigado a apanhar uma medida de um quarto de azeitona, que correspondia a 0,25 de um alqueire ou rasa de azeitona como na gíria se dizia.
Nas décadas de 50 e 60 do século passado, o concelho de Cabeceiras de Basto, foi um excelente produtor de azeite. Neste sentido na freguesia de Refojos, conheci quatro lagares de azeite: um no Borralheiro, dois em Chacim e um no Mosteiro, mas nas restantes freguesias também existiam vários e todos laboravam durante cerca de três meses por ano. Hoje não há lagares mas também não há azeitona, em virtude das terras se encontrarem cobertas de mato e silvas.
Após estes trabalhos cortavam-se os fenos e de seguida chegavam as lavradas, serviçadas que eu muito adorava, pelo facto de saber que por volta das 12 horas, ia comer um belo bacalhau frito com todos os ingredientes e vinho à descrição, chamava-se a esta refeição o “beberete”. Em todos os trabalhos do campo os caseiros eram muito unidos, porque ajudavam-se mutuamente, mas também compareciam outras pessoas não convidadas, somente para comerem uma simples tijela de caldo, mas era esta a situação da pobreza daquele tempo. Depois das lavradas seguiam-se as sachadas, as ceifas do centeio e do trigo. Estes cereais tinham de ser ceifados e malhadas com o sol abrasador, para que o grão se soltasse facilmente. Naquele tempo como referi, o trabalho do campo era saudável e dava muita alegria, por isso a qualquer momento se ouvia um grupo de pessoas a cantar. Hoje se o fizessem diziam: “aquela gente anda toda doida”.
Numa ceifa de centeio era tradição o responsável da serviçada ter no final da ceifa um garrafão ou uma cabaça de vinho, uns para saborear a bebida, outros para se refrescar da sede que sentiam. Como num dos anos o meu pai tinha pouco vinho, não forneceu aos ceifeiros a referida bebida. Estes ceifeiros apesar de todos amigos, agarraram o meu pai e colocaram-no de costas para uma cerejeira e ataram-no a esta árvore e ali ficou preso de pés e mãos. Quando vi aquela situação fui a correr a casa e disse à minha mãe que me enchesse uma cabaça de vinho que o pai estava preso. Dei a bebida aos ceifeiros e estes disseram: “vamos soltar o homem que ele já cumpriu o seu dever.”
Como referi, o trabalho do campo era árduo e cansativo mas tenho memórias que nunca esquecerei. Em pleno mês de Agosto do ano de 1964 numa célebre noite de luar, quente e com as estrelas a brilhar, eu, o irmão Edmundo e um vizinho nosso, regressávamos a casa após uma malhada de centeio, a qual se iniciou às seis horas da manhã e só terminou ao cair da noite. A certa altura caminhávamos completamente sóbrios num carreiro junto a um campo que tinha sido lavrado naquele dia. Parámos os três a conversar e o meu irmão disse: “Vamos malhar neste campo para ver quem bate no solo com mais força com o malho.” Começámos a empreitada, eu de um lado e o meu irmão do outro. Com o bater do malho fizemos um buraco com cerca de 20cm de fundo no dito campo. O vizinho, a certa altura disse: “Podem parar! Pelo que consegui apurar, ficaram empatados.” Como nenhum de nós se conformou com o empate, começou uma cena de pancadaria impressionante. O vizinho, nosso amigo, que já não está entre nós, e o meu irmão infelizmente também não, separou-nos desta cena e acompanhou-nos até entrarmos em casa com a finalidade de evitar outra cena de pancada. Não tenho dúvidas em afirmar que tenho saudades daquele tempo. Um tempo de animação, um tempo de muito trabalho, mas um tempo de muita alegria.
Continua…

Por: Manuel Sousa

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.