Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 19-04-2010

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “O ANDARILHO” VIII

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Já no seu novo emprego o nosso Zé Maria continuou como vendedor, mas desta feita, vendia máquinas de origem italiana para tratamento de superfícies metálicas. Algumas dessas máquinas destinavam-se a polir perfil de alumínio, loiças em aço inox, loiças de cobre, torneiras e outros metais. Estávamos no pós vinte e cinco de Abril e a empresa tentava a todo custo automatizar as suas indústrias no sentido da competitividade e também com o intuito de reduzir mão de obra já que esta se estava a tornar cada vez mais cara e a classe operária mais reivindicativa. Então a entidade patronal tentava contornar essas situações procurando meios de fabricação mais baratos e aumentos de produção.
Foi na verdade um bom período e vendiam-se máquinas para todos os fins com relativa facilidade embora a concorrência também apertasse num caso ou noutro.
O Zé Maria acha que foi bom trabalhar com italianos pois tinham máquinas de qualidade e boa assistência. No mundo da industrialização aprende-se coisas bem interessantes que enriquecem os conhecimentos de qualquer um. Foram dez anos de actividade intensa onde o Zé Maria adquiriu conhecimentos que nunca esperou vir a ter na vida. Lidou com muitos patrões e quadros de grandes empresas, conheceu muitas terras e palmilhou muitos milhares de quilómetros até que um dia por razões de seu interesse, tal como o passarinho que volta ao seu ninho, também ele Zé Maria voltou à sua terra natal para definitivamente estabelecer por cá a sua vida. Ainda trabalhou por mais duas décadas em duas instituições até atingir a idade da reforma depois de totalizar cinquenta e seis anos a cumprir horários de trabalho.
O Zé Maria, de viver muitos anos fora da sua aldeia afirma com certa sabedoria que só quem vive em terra estranha sabe dar valor à sua.
É por isso que a grande maioria dos nossos emigrantes espalhados pelos quatro cantos do mundo ao atingir a idade da tão desejada reforma regressa as origens e se fixa para sempre na terra onde previamente já tinha construído a sua casa. …
Fruto de uma vida construída além fronteiras quantas vezes com sangue suor e lágrimas. Assim, ao percorrermos o nosso concelho podemos ver muitas casas lindas e modernas à face das estradas e caminhos mesmo nos pontos mais distantes da vila de Refojos.
Quem andou, não tem para andar e hoje o Zé Maria já com uma respeitável idade procura passar o tempo o mais agradável possível dedicando-se à prática de algumas actividades, umas de carácter lúdico e outras de carácter humanitário sendo assim uma forma de envelhecer com relativa satisfação. Contudo não esquece tudo o que na sua vida ficou para trás, as muitas actividades que teve, os muitos caminhos que percorreu, as lutas que travou tudo no sentido de viver uma vida limpa e honesta e desprovida de malabarismos.
A vida deste nosso conterrâneo é igual há de tantos Zés Marias que um dia ainda crianças tiveram que deixar as suas aldeias em busca de uma forma de vida mais digna o que ao tempo seria impensável conseguir nas suas terras e essas crianças cresceram, fizeram-se homens e para vencer a vida muitos deles se tornaram uns autênticos e verdadeiros “andarilhos….”

Por: Alexandre Teixeira

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