Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-04-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O SONHO DO PADRE FIRMINO (V)
A missa do Ano Novo na Faia foi uma decepção. Nem um único representante da família Baptista, quanto mais Alcina. Começara por um arrefecimento gradual nas suas relações com aquela família. “A avó Amélia não gostava do padre, até porque era muito cristã, mas do lado protestante”. A mãe Micas vigiava a menina e o pai Baptista ia enregelando os cumprimentos. Estavam fazendo mossa as insinuações maldosas dos inimigos do padre. Tudo porque Firmino e Alcina não puderam dissimilar a amizade e o afecto que entre si nascera. Tudo isso tinha acabado com o casamento de Alcina, e agora só restava aquele travo amargo.
Montado no fiel cavalo que conhecia bem o caminho, arvorou para Santa Senhorinha. Acolheu-se à lareira do passal do padre Bernardino Lemos até ao início das cerimónias para que fora convidado. O sermão saiu-lhe bem. Os paroquianos gostavam de quem lhes falasse da sua Santa, dos seus milagres, dos reis, príncipes e grandes senhores que haviam visitado o seu mosteiro, agora reduzido à igrejinha e a algumas pedras antigas estendidas pelo chão. Lembrou o rei Sancho I que, a pé, lhe marcou os limites do seu couto, que teve a sua câmara, a sua justiça, as suas autoridades.
Finda a cerimónia almoçou com o pároco e demais influentes da terra e rumou para a vila. Agora o caminho era mais fácil, ainda que se notassem os estragos das tempestades que varreram o Norte durante os dias da semana do Natal. Tinha um ano de mandato para cumprir. Pesavam-lhe na cabeça as palavras que o Padre Albano de Paredes lhe dissera um dia: “Penso que o melhor que tens a fazer, e já, é conversares muito sèriamente com a Alcina e empreenderes uma viagem ao Brasil, porque lá como professor ganhas quanto quizeres. E no tempo que estiveres ausente, muita coisa pode acontecer, ou não. Deus determinará o futuro. Aqui até a tua vida corre perigo, neste inferno de revoluções desvairadas e de perseguições”.
Não seguira o conselho do Padre Albano. Mas tomara uma decisão: não concorreria, quando fosse a concurso novamente, à paróquia de Faia. Procuraria outra paróquia ou uma capelania onde se acolhesse.
Chegou cedo ao sarau. O Falcão d’Azevedo entregou-lhe um exemplar do “Jornal de Cabeceiras”, o primeiro número do ano que só sairia oficialmente no dia seguinte, domingo.
O Editorial, sob política nacional, louvava a cívica decisão do conselheiro Júlio de Vilhena, chefe do Partido Regenerador, de abandonar a chefia do Partido pela ofensa que o Rei lhe fizera ao não chamar o Partido Regenerador a formar governo, “um ministério retintamente progressista” cuja “influência, no predomínio do mando, tem sido nefasta para o país e para as Instituições”, decisão de renúncia esta que era o “caminho único que se lhe impõe” e que estava causando “extraordinária impressão no mundo político”.
Era este o governo de Veiga Beirão, a que nada de bom se agourava. Noticiava-se o espectáculo daquela noite a favor do Hospital da Misericórdia, a notícia de que D. Custódia Augusta Martins, recentemente falecida, deixara um espólio de 200 contos, uma fortuna, as esmolas do comerciante Domingos José de Magalhães Basto e do capitalista Baltazar Martins Portella aos presos da cadeia. Não era novidade para o padre o falecimento na Praça do Sr. José Luís Gonçalves Ferreira, “viúvo, abastado capitalista, natural de Vieira, residente há muitos anos na vila, sogro do Sr. Barão de Basto e do Sr. Alexandre Augusto Fernandes Basto, da ilustre Casa do Mosteiro”. Já tinha apresentado os seus pêsames.
O padre debruçou-se sobre a pequena local em que o Jornal pedia o auxílio da Câmara para reparações dos caminhos e pontes vicinais e ainda a intervenção dos regedores das paróquias. O Pe Firmino tomou nota mentalmente para oficiar às Obras Públicas do distrito para dar ajuda na resolução deste problema.
Mas o dedo indicador do ilustre director da gazeta apontava o Edital do Tribunal que citava o Sr. José César de Carvalho Valle e Vasconcellos, “também conhecido por José César de Carvalho Pinto Coelho Valle e Vascovelos, solteiro, maior, notário, de que lhe iam à praça os seus bens de Cavez, chamados do Cerco, penhorados pelo exequente Domingos José de Magalhães Basto, negociante, da Praça Barjona de Freitas. Razão: uma dívida titulada por uma letra não honrada.
O sarau da noite correra bem. As pessoas soltaram francas gargalhadas com as piadas do José Salreta, interpretadas pelo numeroso elenco – todo masculino, infelizmente – dos gondoleiros da Alegria, dirigido pelo José Mendes, que estivera muito bem: O Aurélio Mendes interpretou mais uma vez “O Alho” e mais uma vez levantou a sala.
O padre recolheu já tarde à Faia, conduzido pelo Artur, que a noite estava escura, os caminhos eram ruins e as intenções de alguns para com o padre presidente da Câmara não eram muito cristãs…

O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (V)

O poder está na Praça Barjona de Freitas. A administração do concelho é presidida pelo administrador José de Magalhães Cerqueira de Queirós, natural de Braga. Representa no concelho o governador civil Sr. Conde de Carcavelos, que sucedera naquele cargo ao ilustre cabeceirense, Dr, Francisco Botelho. O administrador tomara posse em 17 de Fevereiro de 1909, sucedendo ao Pe Domingos Pereira que se demitira, seguindo o exemplo do ex-governador civil, compatibilizado com o governo de Veiga Beirão.
A Câmara é Regeneradora. Vencera, sem oposição, as eleições de 1 de Novembro de 1908 e tomara posse a 30. A vereação eleita escolheu para Presidente da Câmara o padre Firmino José Alves, natural de Cerva, pároco de Faia. Abarca a superintendência da Secretaria e das Posturas. Os restantes pelouros ficam assim distribuídos: Francisco José Mendes, o “Chiquinho de Abadim”, com a vice-presidência, a instrução e a iluminação; Leonardo Gonçalves Torres Costa, de Pedraça, abraça a pasta dos “Expostos”, triste calamidade daqueles tempos; Bernardo Gonçalves Fraga, do Arco, toma a seu cargo os baldios, fontes e águas; as obras, estradas, caminhos e pontes ficam na alçada de Domingos José Teixeira Pereira, de Passos. Resta para José Joaquim Antunes, de Refojos, o pelouro da superintendência do aferidor e dos zeladores.
O secretário da Câmara é Bernardino Pereira Leite Basto, o tesoureiro é Francisco de Matos Vilela Pacheco e são amanuenses António Esteves Ribeiro Seara e Teotónio Falcão Ribeiro Basto. Aferia os pesos e as medidas Pedro António d’Abreu e é o oficial de diligências Jerónimo Ribeiro da Silva.
As sessões ordinárias da Câmara realizavam-se às segundas-feiras.
A Justiça era presidida pelo Bacharel Júlio de Sousa Machado, que julgava as acusações dimanadas do Delegado Dr. António Rezende. Contava as custas José Maria Pereira, irmão do padre Domingos. O Tribunal tinha 3 ofícios, que eram dirigidos pelos escrivães José Eduardo Pereira Leite, António Joaquim Soares de Oliveira e Benedito José Coelho de Carvalho. As audiências realizavam-se às 3ªs e 5ªs feiras de cada semana.
Havia Juízos de Paz no Arco de Baulhe, Cavez, S. Nicolau e Refojos. Neste preside José Teixeira Leite Basto e é escrivão Celestino Martins da Silva Medeiros. O oficial de diligências é Francisco Magalhães Bastos Falcão.
É Conservador o Dr. António Camilo Henriques e notário o Dr. José César de Carvalho Valle e Vasconcelos, que estava passando um mau bocado devido a acções por dívidas que lhe tinham sido cometidas.
Na Fazenda – os impostos - estava o escrivão Martinho de Mello Gama – a quem estava destinada uma sindicância que deu em nada - , sendo seu escriturário Caetano José de Oliveira. Na Recebedoria – a receber o carcanhol – o tesoureiro Avelino Ferreira, que tem como proposto Francisco de Mattos Vilela Pacheco.
A Arquidiocese de Braga – ao tempo é arcebispo Dom Manoel Baptista da Cunha – é representada pelo arcipreste Manoel José Queiroga de Oliveira, pároco de Pedraça, que está passando mal de saúde mas vai recuperar. A principal paróquia, a de Refojos, tem à sua frente o Revº Pe António Martins Vilela, empossado à socapa em Julho de 1909, contra a vontade de muitos paroquianos. Está prestes a meter-se numa alhada com o seu colega de Painzela, Pe Pina – que pelo nome não perca - , caso que ficou conhecido como o das “Marias”.
A “pasta da Saúde” estava entregue ao Dr. Diocleciano Dias Peixoto, sub-delegado e a Segurança à Regedoria que era comandada por Fortunato Bastos.
A Escola Municipal Secundária, também conhecida pelo Lyceu, está, no dealbar de 1910, paralizada, já que o governo não nomeara os professores provisórios necessários e estava em curso um “rigoroso inquérito” aos incidentes ocorridos em 1908. No entanto, figurava ainda como director o Prof. António Luís Machado e eram também professores Augusto Ângelo Vilela Passos, Diogo Rosa Machado e Pe Domingos Pereira, que também era o secretário da Escola. Era contínuo Bento Nogueira. A Escola estava sob administração da Câmara Municipal , assim como acontecia à Escola Agrícola, Comercial e Industrial de Gondarém, de que eram professores os já indicados para o Lyceu (com excepção do Prof. Diogo Rosa Machado), mas a que se acrescentava José Pereira Leite, o Dr. Francisco Botelho e D. Maria Josephina de C. Brito Rocha.
As comunicações eram, como hoje, essenciais. Assim a Estação Telégrafo-Postal de Refojos era chefiada por António Rodrigues, tinha 2 carteiros (Bocácio Carneiro e Manoel Dias) e um guarda-fios (Joaquim José Pereira). Em S. Nicolau a estação de telégrafo tinha como encarregado Gaspar de Almeida.

(continua)


NOTICIÁRIO LOCAL
(Março de 1910)

Em S. Nicolau falecera o antigo pároco Pe Joaquim José Martins Pacheco, que se encontrava aposentado da sua função de professor. Demite-se o administrador José Queiroz, que apresenta a vara do seu cargo ao Presidente da Câmara. O cometa Haley aproximava-se do nosso planeta e agourava-se o fim do mundo para 19 de Maio. Tinham sido disparados vários tiros contra a casa do escrivão Benedito de Carvalho. O Jornal de Cabeceiras dizia que isto parecia “uma terra de cafres”. Um sacerdote oriundo de Mondim, Pe José Bento Martins de Carvalho Ramos, foi encarregado de pastorear Vila Nune. A 11 de Março, a neve “voltou novamente à vila, que a tornou completamente branca. Por curiosidade, fazia um ano que o mesmo tinha acontecido. Fazia um frio siberiano após os 1ºs dias de Março que pareciam de Verão”.
A Santa Casa, num edital assinado pelo provedor Dr. Augusto Ângelo Vilela Passos, anunciava eleições para o biénio de 1910-1911.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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