Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-03-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (118)

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A GLOBALIZAÇÃO… O QUE É, AFINAL?

Foi, há umas semanas atrás, num daqueles dias em que, por volta das seis da tarde, costumo sentar-me, junto da montra do Café Boavista, a fazer o puzzle dos números do Jornal de Notícias. O puzzle é aquele que tem o nome do seu autor, um nome japonês. Naquele dia, o grau de dificuldade era médio, três estrelinhas, e, ao fim de pouco mais de quinze minutos, já o dava por concluído.
No preciso instante em que dobrava o jornal, dando por terminada a tarefa de preenchimento completo do quadro de números composto de nove linhas por nove colunas, aproximou-se de mim um sujeito, um Senhor, aparentando ser um pouco mais novo do que o meu pai, se ainda fosse vivo, mas uns dez ou quinze anos mais velho do que eu. Aliás, muito parecido com o meu avô paterno. Pediu licença se poderia sentar-se. «Sim senhor, faça favor» respondi-lhe.
- Desculpe-me a intromissão, mas passou-me pela cabeça fazer-lhe uma pergunta…, não sei se…
O homem hesitou em continuar, usava uma boina como a dos pastores, e aparentava mesmo ter mais de setenta anos, eu não me lembrava de o ter visto antes e também não me preocupei em saber quem era, de onde era, nem tão pouco como se chamava, respondi-lhe apenas:
- Esteja à sua vontade, faça favor de dizer, então, o que queria, qual é a pergunta?
- Como vê, já não sou nada novo, sei ler alguma coisa, apenas passei pela segunda classe, quando foi do tempo da escola, mas vou lendo, de vez em quando, um bocadito dos jornais. Gostava de perceber o que isso da globalização de que tanto fala a televisão e também os jornais. Peço desculpa, mais uma vez, mas parece-me que o senhor deverá saber dessas coisas, é, ou não é, verdade?
- Verdade, quê, que eu sei dessas coisas?
- Sim, o que é isso da globalização?
- Bom, eu penso que sim, que sei alguma coisa, mas não sei tudo, e trata-se de conceitos em que cada um, ou cada qual, poderá ter a sua própria ideia. Mas, com todo o respeito que o senhor me merece, não o deixarei ir daqui sem lhe dar a minha versão sobre o tema, tema que, aliás, é de grande importância para toda a humanidade…
- Fico-lhe muito agradecido. Sabe, é que eu gosto de perceber aquilo de que falo, e, lá na loja, há quem lhe chame café, antigamente chamava-se tasca, onde costumo parar para beber um copo e jogar umas partidas de sueca, com uns amigos, mais ou menos da minha idade, há lá uns “doutores” que só dizem bacoradas e eu gostava de lhes atirar com duas ou três daquelas que fazem calar os espertos.
- Ah! Então está bem, o Senhor pretende dar-lhes uma lição, colocá-los em sentido, não é assim?
- É sim senhor, é isso mesmo.
- Olhe, eu poderia falar-lhe das directivas saídas da cimeira de Davos, Davos é uma estância de Inverno, que fica na Suiça, e onde se reúnem os chefes de Estado e de Governo dos países mais ricos e mais industrializados do mundo, e decidem ali os destinos da economia mundial. Costuma chamar-se o Forum de Davos, aliás, deve mesmo ter sido ali que nasceu o termo globalização. Podia ainda explicar-lhe algo sobre a teoria da divisão internacional do trabalho, e outras coisas do género…, mas…, para calar os seus amigos, lá da sua aldeia, à mesa da sueca, vou dar-lhe um exemplo que me parece bem mais convincente, acha bem?
- Sim, sim, faça favor.
- Então oiça, o Senhor já viajou, algumas vezes, por exemplo, daqui para Braga ou para o Porto, há uns vinte ou trinta anos atrás, e mais recentemente também, não é verdade?
- Sim, sim, viajei e tenho viajado muitas vezes, daqui para o Porto e para Fátima também, sempre de camioneta da carreira.
- Então, deve ter reparado, por várias vezes, sempre que se tem deslocado daqui até Braga, até ao Porto, mesmo até ali ao Arco. Quando era de Inverno, via grupos de homens, empoleirados em cima das escadas, uns a podar, outros a varejar azeitona para cima de estendais. No chão, grupos de mulheres, umas a apanhar a rama da poda, outras a apanhar a azeitona que caía fora dos estendais, outras ainda cegando erva no meio dos campos verdejantes. Por todo lado se viam também animais, como vacas e ovelhas, a pastar, guardadas por rapazes, ou raparigas…, era ou não era?
- Lá isso era…
- Depois, ali pelos meses de Abril e Maio, via os campos, primeiro cobertos de feno cortado a secar, a seguir cobertos de montinhos de estrume, e, por fim, tudo lavrado, terra de negro acastanhada…, era ou não era?
- Sim, estou a gostar muito de o ouvir.
- Mais, lá pela Primavera, eram bandos de gente, homens e mulheres, uns a sulfatar, outros a sachar e a mondar os campos de milho, outros ainda a regar com água das poças e das levadas…, eu podia continuar, com mais exemplos…, mas…, era assim ou não era?
- Era, era…
- E agora, quando viaja para qualquer lado, mesmo daqui até ao Arco, ou até S. Nicolau, o que é que o Senhor vê?
- Ah! (com uma gargalhada algo contida), vejo tudo a monte. As vides secaram, as árvores que lhe serviam de suporte, ou desapareceram, ou se tornaram em verdadeiras florestas, os campos todos cobertos de mato, silvas e tojos, gado, vê-se uma ou outra cabeça muito de longe a longe…
- Está a ver, como o Senhor está quase a encontrar a resposta para a sua pergunta sobre o que é a globalização! E, quando vai à feira, ou aos supermercados, o que é que o Senhor vê? Vê alguma coisa do que se produza por cá? Não, ou se vê, vê quase nada. É tudo importado, são nozes do México, uvas e pescada do Chile, carne da Argentina, até vinho da Austrália o Senhor encontra por aí! Isto é que é a globalização, compramos tudo lá de fora, e o dinheiro para pagar, de onde é que vem, o Senhor sabe?
- Ouço dizer que é tudo à base de subsídios, da União Europeia, ou lá o que é…
- É isso mesmo, subsídios e empréstimos. É o défice e a dívida externa. Já ouviu falar do défice, ou da dívida externa?
- Sim, nos últimos tempos, não se tem falado de outra coisa…
- Ora, aí tem um bom argumento para atirar aos seus parceiros da sueca. Diga-lhes que a globalização é termos os nossos campos todos ao abandono, tudo a mato, que compramos a maior parte dos bens que consumimos lá fora, no estrangeiro, que vivemos à base de subsídios e empréstimos externos, tudo vida de ricos com bolsa de pedintes. E, já agora, pode ainda colocar-lhes a seguinte questão: quem, como e quando, pensam que poderá vir a pagar a factura, quero dizer, compensar os subsídios que nos têm dado, porque ninguém dá nada de borla, e os empréstimos que nos têm concedido...
A tarde caiu rapidamente, e o meu amigo teve que se dirigir, à pressa, para a central de camionagem, a fim de apanhar a carreira para a sua aldeia, lá para os lados de Riodouro. Despedimo-nos, reciprocamente, como dizia, há muitos anos, o Engenheiro Sousa Veloso, “com amizade”.

Por: José Costa Oliveira

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