Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2010

SECÇÃO: Opinião

FAZ 100 ANOS POR ESTES DIAS QUE…

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CRÓNICA + OU – HISTÓRICA DO CONCELHO DE CABECEIRAS DE BASTO NA DÉCADA DE 1910-1919

O SONHO DO PADRE FIRMINO (III)
Mas o sorriso irónico e trocista que os lábios do padre Firmino mostravam, adormecido no seu leito do passal da Faia, depressa esmoreceu. O brado da multidão continuava a encher os ouvidos do padre. A religião tinha-se misturado com a política e o resultado estava à vista. O pároco de Refojos era o Rev. Manuel Joaquim da Silva Macedo, natural de Atães – Vila Verde. Era um bondoso sacerdote que presidia aos destinos da Associação de Beneficiência, responsável pelo Asylo da Ponte de Pé. Em Fevereiro de 1909 a Câmara Eclesiástica de Braga tinha-lhe renovado por mais um ano a “carta de encomendação” de pároco de Refojos.
Estranhamente, ou talvez não, o “Povo de Cabeceiras” publicou uma pequena local elogiando o Pe António Martins Vilela, “ilustre conterrâneo, muito conhecido e estimado”, que era pároco de Painzela e que, anteriormente, paroquiara Riodouro, sua terra natal. “O Jornal de Cabeceiras” estranhou tanta amabilidade e retrucou, perguntando qual a razão de tão amorável tratamento, já que “o mesmo sacerdote (há pouco mais de dois anos) se viu obrigado a pedir-lhe uma reparação judicial”. “O Povo” chamou injusto aos regeneradores pela atitude que agora tinham com o padre, O J. Cabeceiras afinou e escreveu textualmente: “Todos sabem que o Sr. Pe Vilela, depois de ter sido favorecido nas pretensões que teve desde a sua ordenação até há pouco tempo, abandonou este para se entregar ao partido progressista, a pretexto de um seu último pedido, que não lhe podia ser satisfeito”.
E qual era esse pedido? Nem mais nem menos que a paróquia de Refojos, sede da vila, a que tinha o melhor pé de altar do concelho. E, corria a fama, de que o partido progressista tinha uma boa reputação na Câmara Eclesiástica da Arquidiocese de Braga, presidida pelo Arcebispo D. Manoel Baptista da Cunha, que a governava desde 1899. Coisa estranha, já que os progressistas eram considerados de esquerda e os regeneradores representavam a direita conservadora. Esta a razão a que levou o Pe Vilela a mudar de partido . E assim não admira que começasse a constar a transferência do pároco de Painzela para a paróquia de Refojos. A Junta da Paróquia, a Santa Casa de Misericórdia e a Associação de Beneficiência declaram ao Arcebispo o desagrado da população pela saída do padre Macedo. Mas o despacho do Arcebispo sai com a nomeação do padre Vilela. Mas dá-se um golpe de teatro: O Supremo Tribunal Administrativo, por unanimidade, suspende o despacho de apresentação do novo pároco.
E o caso chega ao Parlamento. A sessão do dia 15 de Março de 1909 é tumultuosa e vai ficar na memória daquela nobre Instituição. O pretexto foi “ o provimento illegal de igreja de Refojos”, que Caeiro da Mata, “fogoso parlamentar e distinto lente da Universidade”, aproveitou para deferir uma “trepa monumental” no Governo. Ao senhor presidente do Conselho de Ministros chamou-lhe “cabide onde certo poder oculto pendura as suas ideias políticas” e “traidor”. Aos ministros chamou “sinistras figuras chiques d’uma galeria de homens célebres que para ahi se publica”. A maioria levantou-se em ruidosos protestos, quebrando carteiras. O destemido deputado atacou mais ferozmente ainda o Ministro da Fazenda, intitulando-o de “ministro da fazenda de particulares” e “réu confesso pelo crime de burla à Caixa Geral de Depósitos”.
“Aqui é que ardeu Troya”, como diz o articulista que estamos seguindo. O presidente da Assembleia foi incapaz de dominar o tumulto. Interrompida a sessão para acalmar os ânimos, o Dr. Caeiro da Mata não se retratou e não deu explicações. O tumulto recrudesceu. O presidente interrompe definitivamente a sessão. “Ao sair da sala, o Sr. Caeiro da Matta foi alvo de uma estrondosa manifestação de applauso da oposição e de protesto da maioria, estabelecendo-se um barulho infernal”.
Desta memorável sessão resultou que o Parlamento esteve encerrado durante umas semanas e que o Dr. Caeiro e o Ministro da Fazenda se defrontaram a 17 de Março num duelo, “com o costumado resultado dos duelos em Portugal que, longe de serem considerados como um acto sério de desaggravo cahiram nos ridículos domínios de uma comédia burlesca”.
O resultado? Refojos tinha ficado sem pároco. O arcebispo passou “carta de cura” ao Rev. José de Araújo, de Gragilde. Em 24 de Junho o Rev. Vilela tenta “tomar posse do cargo, dirigindo-se em companhia de alguns parentes seus e do Sr. administrador do concelho, para a igreja respectiva, foi-lhe vedada a entrada por grande número de povo que se encontrava dentro da igreja, opondo-se enérgicamente à sua entrada naquele templo”.
O “J. de Cabeceiras” passa toda a responsabilidade destes actos (que o “Povo de Cabeceiras” atribui a “escumalho de mulherio, desbragado femeaço e reles marafonas”) ao Arcebispo Primaz “com o evidente fim de desconsiderar a maioria dos paroquianos da mais importante freguesia do concelho, que de sua Exª impetraram respeitosamente a conservação do seu antigo pároco e mostraram lealmente quanto lhe era antipática a colocação do novo indigitado”.
O Padre acordou. Tinham-se acabado os gritos da multidão. Tinha sido um sonho? Tinha sido um pesadelo, uma recordação dum acto que marcara a sua presidência. Como terminara? Dias depois, a 11 de Julho, o padre Vilela tinha-se esgueirado e entrara na sacristia da igreja. Tomou posse do cargo de pároco de Refojos. Teriam assistido cinco pessoas.
Consequências: “Alguns fiéis abandonaram a igreja. Outros baptizaram os filhos na Associação de Registo Civil e Livre Pensamento de que os meios progressistas de Refojos se orgulhavam e o padre Macedo foi castigado pelo Sr, Arcebispo, que o tinha “colocado naquela igreja (…) n’uma conjuntura difícil, em que os ânimos não estavam socegados e bem dispostos”. Mas isso eram contas de outro rosário…
O padre Firmino adormeceu novamente…

(continua)


O CONCELHO NO DEALBAR DE 1910 (III)

Quando se inicia o ano de 1910, Cabeceiras de Basto tem dois semanários. O mais antigo é o “Jornal de Cabeceiras”, nascido em 24 de Agosto de 1895, fundado por José Augusto Falcão d’Azevedo, que em 1910 continuava como director. Neste ano o cabeçalho ostenta como proprietário Domingos José Teixeira Pereira e a administração, composição e impressão estavam sedeados na “Typographia Jornal de Cabeceiras” na Praça Barjona de Freitas, e era efecto ao Partido Regenerador, então no poder na Câmara Cabeceirense. A assinatura custava 1$500 réis para Portugal e 3$000 para o Brasil, em moeda forte. Os cabeceirenses residentes no país irmão não dispensavam semanalmente (ainda que com um atraso médio de mês e meio) as notícias da terrinha natal).
O 2º semanário da história da imprensa cabeceirense, “O Colosso”, humorístico, nascido nos finais de 1896, tinha tido uma existência efémera, dirigido por “Caradura”.
Sucedeu-lhe como terceiro órgão da imprensa cabeceirense, “O Povo” de Cabeceiras”, nascido no ano de 1900 e que em 1910 é afecto ao Partido Progressista e é dirigido por Luís de Mello Sampaio. Mas a grande figura deste semanário é o seu redactor, o advogado Dr. António Teixeira Coelho de Vasconcelos, da ilustre “Casa de Cortinhas” de Cavez.
Estes dois semanários, de 4 páginas cada, contam toda a história do concelho e são o repositório de inúmeras polémicas que divertiram os nossos conterrâneos que foram os nossos bisavós e avós. Naquela altura a imprensa dava atenção às pessoas: sabíamos de tudo e de todos. A coluna “Sociedade Elegante” era acompanhada com interesse: sabíamos quem fazia anos e quem se casava; quem partia de férias e quem regressava do Brasil; quem estivera na feira de S. Miguel ou fora a Lisboa beijar a mão de sua Majestade.
A imprensa usava os adjectivos qualificativos sem qualquer pejo: assim os sacerdotes eram “bondosos e virtuosos”, os comerciantes eram “conceituados, estimados e correctos”; os estudantes eram ou “briosos académicos” ou “distintos terceiranistas”; os advogados eram “talentosos” e os industriais “arrojados”. O Dr. Francisco Maia era um “hábil farmacêutico” e o Sr. Barão de Basto um “abastado proprietário e opulento capitalista”, enquanto as meninas eram “interessantes” e as noivas “prendadas”.
Mas os adversários não eram assim tratados: vejam só como o Jornal de Cabeceiras tratava o redactor do seu congénere “Povo”: “marafona, traficante, o má-língua, caramboleiro, profissional de escândalos” ou, duma só vez, “o áspero, o rude, o vivo, o Coelho, o António, o Teixeira”.
E vejam só este bocadinho de prosa, tirado do nº 726, de 13 de Março de 1910 do “J. Cabeceiras”, intitulado “As Marias”:
“Consta-nos que o Reverendo Vigalho da freguesia de Refojos e o localista do “Povo de Cabeceiras” se cu-ligaram muito cordeal e affectuosamente para evitarem a deserção de mais Marias para fora da freguesia. [...] Consta-nos também que o Pina-Manique de Painzela trata de certos acordos para poder fazer parte da alludida cu-ligação”. Que saibamos, em 1910 ainda não se pensava no novo acordo ortográfico que agora vamos gramar.

(continua)


NOTICIÁRIO LOCAL
(Janeiro a Fevereiro
de 1910)

Anunciava-se o regresso do cometa Halley, que podia prenunciar o fim do mundo. O Sr. Conselheiro Teixeira de Sousa, chefe do Partido Regenerador, visitara o Arco de Baulhe, onde foi recebido numa grande e carinhosa recepção, presidida pelo Dr. Francisco Botelho, chefe distrital do Partido, ilustre cabeceirense da Casa do Mourigo. O ilustre conselheiro foi recebido em casa do Sr. Júlio Pereira Leite e o jantar foi servido na residência do Sr. Jerónimo Pacheco Pereira Leite. Curiosamente os dois hospedeiros não estiveram presentes, por doença. A vereação municipal, presidida pelo presidente Pe Firmino, esteve presente. Em Pedraça, falecera a D. Florentina, esposa do Sr. Justino Pereira Basto e em Abadim D. Marcelina Gonçalves Portela, abastada proprietária e capitalista. Em Santa Senhorinha celebrou-se o casamento do Sr. António Pacheco Basto com a D. Albertina Pereira Leite Pinto, da Vila. O Asylo recebeu de Bernardino da Graça, comerciante de cereais na Ponte de Pé, um generoso donativo em géneros. O padre José Pereira Barroso, residente em S. Nicolau, recentemente ordenado, foi encomendado para a paróquia de Tourém, concelho de Montalegre. Finalmente, o novo Governador Civil de Braga era o Sr. Conde de Carcavellos.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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