Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-01-2010

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA "O ANDARILHO" (IV)

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Quando regressou ao Porto, o Zé Maria voltou para casa de seus primos porque na verdade não tinha outra alternativa. Mas por mal dos seus pecados o ambiente era exactamente o mesmo e nada mudou ao longo do tempo que lá permaneceu. O seu primo continuava a entregar-se às suas bebedeiras constantes e não dava sinais de abrandamento.
Como não há mal que sempre dure, um dia a sua mãe com um rancho de filhos e com o marido em África corajosamente e com o respectivo aval do marido, resolve vir também para a cidade afim de tentar dar um futuro melhor aos filhos já que nesse tempo na aldeia não havia horizontes para ninguém. Alugou uma casa no largo do Bareiro em Valbom e aí se instalou com os filhos incluído o Zé Maria.
Lá no largo do Bareiro a recepção foi má para os novos moradores por parte da canalhada lá do sítio. Os gajos eram todos atravessados e provocadores para com os irmãos mais novos do Zé Maria a quem chamavam rabelos, mas estes não se ficavam e iam-se a eles com paus, pedras e tudo o que calhava esmurrando-os de cima abaixo originando queixas das mães deles à mãe dos rebelos. Pouco tempo depois já ninguém se metia com os aldeões senão arriscavam-se a levar no focinho.
Entretanto outro filho começou também a trabalhar na fábrica de garrafas e com mais dois ordenados a vida já se compunha melhor…
Contudo havia um senão é que a casa ficava um pouco longe mas a mãe atenta a tudo logo arranjou uma casa mais perto do trabalho dos rapazes, casa essa que ficava na calçada de Valbom ou Fontepedrinha e que de certo modo agradava mais a toda a família.
Assim, a vida corria normalmente, o seu pai mandava com regularidade a mensalidade e em cada carta que chegava mostrava-se ruído de saudades da mulher e dos filhos mas infelizmente essas situações era muito frequentes noutros tempos… O Zé Maria foi crescendo e na fábrica chegou a atingir um ordenado diário de 24$00 o que já era bom para a sua idade. Entre outras coisas recorda-se do início da construção do Estádio das Antas onde depois chegou a praticar atletismo. Recorda-se que gostava muito de ter uma bicicleta e nessa impossibilidade limitava-se a alugar uma por uma hora a troco de 5$00 pedalando desalmadamente até à ponte do rio Sousa e volta, sendo essa a sua vingança…
Quando o Zé Maria completou dezanove anos e a ocasião se tornou propícia em Moçambique o seu pai sem perder tempo manda-lhe a carta de chamada documento necessário para poder entrar nessa província (imposições Salazaristas), tendo previamente requerido a sua admissão como praticante de via dos Caminhos de Ferro de Moçambique…
Quando finalmente chegou a já referida “carta de chamada” e a ordem para comprar a passagem para Moçambique, só então o Zé Maria se apercebeu que ia ter imensas saudades de tudo que o ligava à cidade tripeira nomeadamente a sua mãe os seus irmãos os amigos Zé da Régua o Cerqueira de Celorico o António Marques o Zé Bagulho e tantos outros.. Já não voltaria mais ao jardim de S. Lázaro meter conversa com as sopeiras nem voltaria a correr os cinemas da cidade nem a festejar o S. João das Fontainhas.
Por outro lado sentia alegria e receio. Receio porque ia ao encontro duma terra distante e misteriosa. Alegria porque ia realizar o sonho desejado por todos os rapazes da sua idade.
Feitas as despedidas viajou para Lisboa durante a noite num comboio apinhado de magalas. Lisboa era para ele uma cidade desconhecida. Porém pergunta aqui pergunta acolá lá encontrou a casa duma prima afastada onde pernoitou para no dia seguinte se dirigir ao cais e apanhar o barco que o havia de levar até Lourenço Marques a capital de Moçambique na época colonial.
A viagem foi longa, com paragens no Funchal, S. Tomé, Luanda, Lobito, MÇamedes Cidade do Cabo e finalmente Lourenço Marques. Foi uma viagem encantadora mas muito enjoativa e por vezes muito monótona dado que todos os passageiros tinham muita pressa em chegar aos seus destinos e abraçar os familiares que os aguardavam no cais de chegada.
Mas não só, todos tinham igualmente pressa em começar as suas vidas nessas terras tão distantes ao tempo ainda um pouco atrasada o que não admira dado que o poder de então parecia não estar muito interessado no desenvolvimento das “Províncias Ultramarinas”.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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