Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-01-2010

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (115)

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IMAGINEM QUE A TERRA PÁRA

Duas coisas, extremamente graves, podem acontecer a qualquer momento. É um facto que já se passaram milhões de anos, talvez um número infinito de milhões de anos, e, muito felizmente o digo, ainda nenhuma delas aconteceu. Também, não deixa de ser facto relevante que, se alguma delas tivesse acontecido, nem eu, nem você, nem José Saramago, estaríamos cá para levantar qualquer questão deste tipo.
Mas, imaginem que, de um momento para o outro, o sistema solar entra em colapso, o sol, muito simplesmente, apaga-se, deixa de emitir os seus raios de luz e de calor. Aqui, na terra, tudo escuro, como breu. Quantos dias levaria até que tudo ficasse gelado? Penso que não seriam muitos.
Se o sol se apagasse, haveria outros incidentes cósmicos, de grande envergadura, e impossíveis de imaginar, para além da evidente falta de luz e de calor. O planeta terra poderia, muito simplesmente, desintegrar-se de imediato.
Imagine-se, também, que o sol se mantém no seu estado e forma normais, como parece que sempre se tem mantido, ao longo de um número razoável de milhões de anos, um número razoável de milhões de anos significa muitas, muitas e muitas vidas, para trás. Mas que, por seu lado, a terra empanca no seu eixo, deixa de rodar sobre si própria. Metade passa a ser sempre dia e outra metade passa a ser sempre noite.
A parte em que ficará sempre noite, a muito breve prazo, gelará, e acontecer-lhe-á exactamente a mesma coisa como se o sol se apagasse.
A parte em que ficará sempre dia, a prazo um pouco mais longo do que aquele em que a parte da noite gelará, não deixará de, muito rapidamente, passar a ser um deserto, não haverá ser vivo, animal ou vegetal, que resista a um sol permanente sem a sequência dia versus noite.
A terra, parando sobre o seu eixo, ficará metade gelada e outra metade deserta, escapariam, porventura, duas faixas, relativamente estreitas, de apenas algumas dezenas de quilómetros, cada uma delas entre dois meridianos, uma seria a faixa do crepúsculo, a outra a faixa da aurora. Nestas duas pequenas faixas, poderia, eventualmente, subsistir vida. Não sei.
Estas reflexões são fruto do convívio com alguma da literatura recentemente publicada. Será que há, efectivamente, um Deus que comanda tudo isto? Eu aprendi, quando era pequeno, que assim era. Quando alguém questionava: «se foi Deus quem criou tudo, quem foi que criou Deus?». As coisas, neste ponto, acabaram sempre por ficar sem resposta.
José Saramago diz que Deus é uma pessoa cruel. Em parte, até concordo com ele, com José Saramago, em particular no aspecto em que é atribuído a Deus, o Deus de quem se fala que exigia dos seus servos sacrifícios tais como a imolação dos próprios filhos. Sempre me arrepiei ao ler, ou ao ouvir ler, tais passagens bíblicas. Um Deus, que fosse verdadeiramente bom, não exigiria que os seus servos lhe oferecessem como presentes o sacrifício da imolação dos próprios filhos, nem mesmo a imolação de animais indefesos e inocentes. Este Deus é, de facto, um Deus muito estranho.
José Saramago é ateu, portanto, para ele, não existe qualquer Deus, e ele di-lo, e muito bem, que o Deus a que se refere é aquele Deus que cada um cria pela sua própria cabeça.
Ao longo dos tempos, sempre têm aparecido profetas que falam pela boca de Deus, que dizem que “Deus disse”. Eu não acredito que Deus alguma vez tenha dito o que quer que seja a alguém. Desses profetas, os mais recentes, e até à data conhecidos, aqueles que criaram religiões, foram Cristo, há dois mil anos, e Maomé, um bom pedaço mais próximo dos dias de hoje, há precisamente 1.387 anos, no ano de 622 da era cristã. Esta foi a data da hégira, que significa fuga, e tratou-se da fuga de Maomé de Meca para Medina.
O primeiro, Jesus Cristo, falando em nome de Deus, pregava a tolerância: “dar a outra face a quem nos der uma bofetada”. O segundo, Maomé, parece ter preconizado procedimento diferente: “cortar a mão a todo aquele que a usa para roubar”.
Mal por mal, sentir-me-ia mais confortável com as teorias do primeiro. Não deixo, porém, de estar mais de acordo com os egípcios antigos, que adoravam o Sol (o Deus Rá). De facto, o sol é a real fonte da vida. Todos conhecemos o Sol, e todos sabemos que, sem ele, não haverá vida. Tudo isto independentemente de acreditarmos, ou não, em qualquer outra divindade, que, de um modo ou de outro, se nos apresente.
Voltando à hipótese de a terra poder parar sobre o seu eixo, deixando por isso de executar o movimento diário de rotação sobre si própria, gostaria que tal acontecesse no dia do solstício de Verão, cinco ou seis minutos antes de o sol aparecer ali por detrás dos montes da Cunca, próximo do lugar de Cambezes.
Desse modo, seríamos dos poucos habitantes que teriam direito a um pouco mais de vida, enquanto quase metade do globo gelava de frio e a outra metade assava de calor. Não tenhamos grandes ilusões, esse período de bênção seria de muito curta duração.
A muito breve trecho, seríamos invadidos por toda a legião de animais, os irracionais, que, mais inteligentes que os humanos, seriam os primeiros a aperceber-se da catástrofe e a procurar os melhores sítios para sobreviver. Seguir-se-iam os humanos, estes mais brutos, atropelando-se uns aos outros, espezinhando-se. Não deixariam de aparecer muitos que, ainda pensando que as influências valiam, tentariam, a todo o custo, levá-las ao extremo. Procurariam mesmo vender a alma ao diabo. Enfim, a tragédia, o caos, a desgraça…, um tanto ou quanto ao estilo das crónicas televisivas de Artur Albarran.

Post-Scriptum: Não posso deixar de exprimir a minha mais profunda indignação ao constatar a relutância com que a super-estrutura do Partido Socialista encara a possibilidade de viabilizar leis que criminalizem o enriquecimento ilícito. Em boa verdade, e em minha opinião, tal posição, assumida por uma significativa parte da elite dirigente, só se explica atendendo à fragilidade dos seus próprios telhados.

Por: José Costa Oliveira

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