Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-12-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

Francisco Victor Magalhães
Francisco Victor Magalhães
“EU NÃO TENHO IMAGINAÇÃO: TENHO MEMÓRIA”

Esta frase é de Camilo. Discordo. Camilo é, sem dúvida, senhor de uma prodigiosa memória, de um arguto poder de observação, duma extraordinária capacidade de registo de traços, tiques, floreados. Mas se não tivesse também uma prodigiosa imaginação ter-lhe-ia sido impossível orquestrar a sua extraordinária obra romanesca.
Certo é que, na criação das personagens, Camilo usou mais a memória que a imaginação. Um seu crítico, António Canavarro Valladares (que já conhecemos do artigo sobre “O Santo da Montanha”) afirma: “Camilo tem na sua obra de fecunda imaginação tipos que a sua fantasia não criou, porque, ou foram observados na sociedade do seu tempo ou desenterrados do esquecimento onde jaziam”.
Não é, no entanto, fácil a identificação destas personagens. Valho-me das palavras de outro ilustre homem de Basto, cuja família foi retratada no “Maria da Fonte”, o engº Francisco de Bourbom, que diz: “Claro que, por vezes, torna-se sobremodo difícil identificar estas personagens criadas por Camilo mas em que quis retratar ou caricaturar personagens reais. É que, tencionalmente, e para despistar ou dificultar ou tornar mesmo impossível a identificação, introduz caprichosas e extravagantes deformações e a fantasia de Camilo neste particular é inesgotável. E aos desconcertantes estropiamentos, voluntários e calculadamente introduzidos, e sempre mais ou menos desconcertantes, há que acrescentar outras dificuldades por vezes intransponíveis”.
Reportemo-nos unicamente aos romances que se passam primacialmente em terras de Basto como o “Eusébio Macário”, “O Filho Natural”, “Maria Moisés”, “Anos de Prosa”, “O Sexto Casamento Feliz”, “O Senhor Ministro”, “Como Ela o Amava” e aqueles cujas principais personagens são de Basto mas vão desempenhar o seu papel por outras terras como os da “Corja”, “A Bruxa de Monte Córdova”, “Gracejos que Matam”, “A Mulher Fatal” e outros.
Assim estão claramente identificados o Fidalgo-Mendigo, do conto “Como Ela o Amava”, o fidalgo de Basto, nascido em Carrazedo, Pacheco de Andrade; o “Santo da Montanha” é o fidalgo da Casa da Olaria, Baltazar da Silva, a quem Camilo imaginou o tempo de amoroso e de assassino, de penitente e santo; o Eusébio Macário é o farmacêutico José Joaquim Correia de Lacerda com a sua farmácia de Fermil que Camilo transmudou para a Faia e o transforma em par do padre Justino para as damas e o gamão; o José Fístula, filho de Eusébio, um verdadeiro “faia” , figura escarrapachada do morgado pobre de Basto que gastou a herança da mãe nas frigideiras e marafonas de Braga, é a figura dum amigo de Camilo que o visitava regularmente na sua Casa de S. Miguel de Seide e foi dos poucos que o acompanharam ao cemitério da Lapa.
Lembra-se talvez o leitor de que, quando escrevemos sobre a loira recoveira de Cavez da “Mulher Fatal” recordamos que críticos de Camilo dizem que neste romance, para identificarmos as personagens, basta-lhes mudar os nomes? Lembra-se também que em “Gracejos que Matam”, cujo enredo se inicia no dia 15 de Junho de 1851 nas Caldas de Vizela e onde todas as personagens são dadas como do Arco de Baulhe, Refojos, Atei, Camilo declara peremptoriamente que “no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o lugar em que principiou a narrativa”? Ora, no enredo, acontece o facto histórico do assalto à quinta da Casa da Vila, na altura na posse do Sr. Paulino Teixeira Botelho, de que resultaram mortos e feridos e de que a justiça deve ter organizado um processo criminal que deve dormir o sono dos justos num velho arquivo do Estado e que daria, se fosse descoberto, a identificação dalgumas daquelas personagens.
Há o caso curioso dum celoricense que deu a sua figura para uma das grandes personagens camilianas. Quando, por 1874, Camilo esteve na região de Fermil, procurando elementos para o romance histórico “Maria da Fonte”, esteve alojado nos solares de Gagos e do Melhorado. O feitio de Camilo era o de um homem difícil e… vingativo. A estadia não correu bem. E assim vingou-se do senhor da Casa de Gagos, Domingos Teixeira da Mota, transformando-o numa das mais ridículas personagens de políticos da literatura portuguesa, que nem o Conselheiro Acácio de Eça conseguiu esquecer. É ele o inefável deputado Calisto Elói da Silva e Benevides de Barbuda, morgado de Agra da Freima, lá na distante Miranda, personagem principal de “A Queda dum Anjo”. Vem a talhe de foice dizer que neste mesmo romance Camilo ridiculariza um outro seu adversário: a emparelhar com o morgado no Parlamento, e tão ridículo quanto ele, aparece o Dr. Libório de Meireles, deputado pelo Porto,”filho de tendeiro, viajou pela Europa e a política acolheu-o como filho dilecto”. O autor identifica claramente a personagem. É o retrato perfeito do seu antigo amigo e depois adversário António Aires de Gouveia. (Dic.C.C.Branco, p.536).
Também os senhores do solar de Melhorados não escaparam à sanha vingativa de Camilo. Quem o conta é o 13º morgado Engº Francisco de Bourbón: “Quanto ao proprietário da Casa do Melhorado, embora não o fazendo directamente e fugindo mesmo demonstra a maior consideração e respeito por ele, procura, com felonia e de forma insidiosa, ridicularizá-lo na pessoa de uma sua irmã que obedecendo a impulsos generosos do seu coração, casa com um célebre guerrilheiro miguelista que seria conhecido na época pelo padre João do Cano, alusão à Casa de Guimarães, em que havia sido educado: a Casa de S. Salvador, vulgarmente conhecida pela Casa do Cano. […]A alusão, chocarreira, é levada a efeito no romance Maria da Fonte”.
E, se houvera tempo e jeito, talvez ainda se pudesse descobrir as pessoas que se transformaram no Doutor de Abadim ou no Tibúrcio Pimenta ou na Angélica Florinda, nos Reitores de Santa Eulália de Refojos , ou no da Raposeira, onde Camilo diz que ouviu tocar um piano forte, no prior da Gandarela, de seu nome Santa Bárbora, as Eufémias e as Pascoelas e até o nosso bom abade de Pedraça, conselheiro da Tomasina e da Maria Moisés, por todos considerado um santo e que se serve dos versos de Camões:
“Por manhas mais subtis e ardis melhores,
Com peitas adquirindo os regedores”
para levar o arruinado fidalgo de Celorico, Vasco Pereira Marramaque, a ilustre deputado da nação, aconselhando-o a: “adquira-me os regedores com peitas. […], bolota, sr. Vasco, bolota, e nada de palavras!”
E, para terminar, sabe o leitor quem é aquela personagem do romance “O que Fazem Mulheres”, que Camilo apresenta como sendo Marcos Leite e que “tem uma bela cabeça, uns belos cabelos, uns belos olhos…já conheceram?[…] O nariz é a feição mais característica deste homem. […] Agora, conhecem-no todas”. É o próprio Camilo.
Memória? Ou imaginação?

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Termina aqui a série de artigos sobre os passos de Camilo e das suas personagens nas nossas terras de Basto. Mas o assunto não se esgota aqui. O resto ficará para uma futura ocasião.
FIM

Por: Francisco Vitor Magalhães

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