Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-12-2009

SECÇÃO: Opinião

ZÉ MARIA “O ANDARILHO” (II)

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Depois da mal sucedida tentativa de conhecer a cidade de forma apressada, o Zé Maria gozou ainda de um período de adaptação ao ambiente da cidade concedido pelo seu primo Bernardo, antes de o lançar no mundo complicado do trabalho. Zé Maria tinha ao tempo 12/13 anos e foi com essa idade que começou a comer o pão amargo da vida o tal pão que o diabo amassou…
Dias depois, foi trabalhar para uma drogaria em Valbom junto ao largo de Fontepedrinha. Como estreante começou por medir petróleo, álcool desnaturado, pesar cal virgem, sulfato, enxofre, briquetes e outras coisas no género. Era assim que começavam todos os rapazes que vinham das aldeias. Ou eram caixeiros e andavam de porta em porta a entregar mercearia com um caixote às costas, ou então eram moços de lavoura e andavam a despejar água choca pelos campos.
O patrão do Zé Maria era um homem rude, sempre mal vestido e calçava choletas de pau. Contudo, a sua mulher e a sua filha eram senhoras de bom trato… Quinze dias depois era Domingo e o Zé Maria que vivia em casa dos patrões, teve ordem para à tarde ir dar uma voltinha. Como nada conhecia em Valbom, foi até S. Pedro e encontrou o seu primo a jogar bilhar na tasca do Alexandre e por aí ficou durante algum tempo. Quando ao fim do dia voltou a casa do patrão, este perguntou-lhe onde tinha estado.
O Zé Maria rapazinho ainda muito ingénuo contou-lhe a verdade… O patrão homem de sentimentos ausentes sem mais rodeios disse ao rapaz… já que foste ver jogar bilhar para a taberna, amanhã vais-te embora. A malga do caldo já estava em cima da mesa, mas o Zé Maria sentido que nada tinha feito de mal, movido pela raiva foi ao seu quarto meteu as suas coisas dentro dum saco e já com a trouxa debaixo do braço respondeu ao patrão que sendo assim não ia embora amanhã mas agora mesmo. A mulher e a filha ainda tentaram demover o Zé Maria dos seus intentos mas este já estava determinado a ir-se embora não quis ouvir mais nada… E foi assim que o pequeno Zé Maria sentiu pela primeira vez a sua alma ferida no mundo do trabalho.
Sessenta e tal anos depois o Zé Maria foi a Valbom e no mesmo local lá estava ainda a velha drogaria!...
Convém referir que muitos desses rapazes que da aldeia foram para a cidade e por lá faziam os piores trabalhos a toque de mosquetes e pontapés no traseiro, se tornaram grandes comerciantes e homens de negócios.
Como há males que vêm por bem, assim aconteceu com o Zé Maria que logo arranjou trabalho numa fábrica de louças que existia no sopé do monte do seminário ali junto ao pegão da ponte do comboio D. Maria I.
Desta vez a sorte havia de bafejar o Zé Maria que o atirou para a secção de pintura de loiças onde era sub-encarregada a Emilinha que colocou ao seu lado o novo aprendiz e passou a ser a sua protectora já que a dita senhora não tinha filhos e o Zé Maria passou a ser assim uma espécie de filho adoptado. O ordenado era bom 8$40 e o trabalho era igualmente bom e limpo e só trabalhava oito horas por dia. Mas; a vida tem sempre uma face oculta e essa face era o mau ambiente que era vivido em casa de seus primos. O Bernardo mesmo sendo escriturário e usando fato e gravata era um borrachola inveterado. Gastava parte do dinheiro em bebedeiras e corria as tabernas todas da zona. Tinha mau vinho e quando assim era tornava-se quezilento e brigão levando no focinho de vez em quando… Vinha tarde para casa o mesmo sucedendo com a mulher Olindo que trabalhava longe de casa e o pobre Zé Maria andava por lá ao Deus dará.
O Bernardo tinha comportamentos violentos, embora nunca molestasse o Zé Maria. Era destruidor e pouco dinheiro dava à pobre mulher que era uma infeliz sofredora e que tudo suportava sem grandes queixumes. A comida era pouca e o Zé Maria todos os dias levava para a fábrica sem variar o mesmo tipo de almoço. Numa marmita de esmalte quatro metades de batatas cozidas com a pele e um cibinho de bacalhau do mais barato, tudo isso apenas para enganar a fome.
O Zé Maria sentia vergonha à hora do almoço perante a chacota dos seus companheiros de trabalho. Valia-lhe a Emilinha que à noite muitas vezes o levava a jantar em sua casa. Como isso não bastasse o seu primo ficava-lhe com o dinheiro todo que ele ganhava e só lhe dava 2$50 por semana e com esse dinheiro ainda tinha que comprar pão quando a fome apertava.
Era claramente uma situação triste e traumatizante para o pobre Zé Maria…
(continua)

Por: Alexandre Teixeira

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