Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-11-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

ALEXANDRE BRAZ FERREIRA

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Cem anos repletos de emoções

Caríssimos leitores, hoje vou escrever uma crónica que muito me emocionou e me deu muito prazer de fazer. Vou falar-vos de alguém que acabou de fazer cem anos! Sei que hoje em dia já é muito frequente aparecerem bastantes pessoas a fazer cem anos ou até conseguirem ultrapassá-los. Isso tem acontecido bastante aqui na nossa terra de Cabeceiras de Basto! Um caso ou outro que vai até aos cento e quatro anos e, ainda com uma relativa lucidez. É bom sinal! Isso demonstra que a nossa esperança de vida está a aumentar.
Pois como vos estava a dizer, alguém me disse que o senhor Alexandre Braz Ferreira, do lugar de Chacim, da freguesia de Refojos, ia festejar os seus cem anos de vida, na companhia de sua esposa! Fiquei logo curiosa até porque este senhor Alexandre é sogro da irmã da minha tia e madrinha Cândida Vilela, a Lúcia de Chacim. Poder-se-ia dizer que somos família por afinidade.
O simpático casal, no conforto do seu leito durante a entrevista
O simpático casal, no conforto do seu leito durante a entrevista
Não fui ao aniversário mas, passados três a quatro dias lá fui bater à porta da minha amiga Lúcia para me acompanhar à casa dos sogros. Levei comigo a nossa Gininha, que além de paginadora, também faz, quando necessário, as vezes de fotógrafa do Ecos de Basto, o que faz muito bem, para registar para a posteridade a figura do centenário.
A sua nora, a Lúcia, casada com o José Maria de Jesus Ferreira, com a simpatia que lhe é característica acompanhou-nos à residência do simpático casal, onde nos apresentou.
Lá entramos em casa, no seu quarto, e deparamos com eles deitados, muito quentinhos, juntinhos um do outro! Uma ternura!
Se pensarmos um pouco, é muito raro encontrar um centenário que ainda tenha o seu cônjuge ainda vivo. Mas o senhor Alexandre que diz ser um homem feliz ainda tem a sua companheira de há setenta anos, a Emília Inácia de Jesus, junto dele e, com uma expressão muito viva e um belo rosto para a sua idade. Só os ouvidos é que não a ajudam, mas o marido Alexandre lá foi contando as peripécias da vida, pelos dois!
Começou por dizer-nos que fez cem anos no dia 12 de do corrente, que só tiveram dois filhos, a Maria Amélia de Jesus Ferreira e o José Maria de Jesus Ferreira, que habita próximo deles, em Chacim. A sua esposa tem noventa e um anos. Têm cinco netos e dez bisnetos.
 O casal há uns anos atrás
O casal há uns anos atrás
Trabalhou sempre em Chacim, e sempre na agricultura, com os pais e depois de casado. Nunca saiu de lá.
Quando lhe perguntei se ele tinha ido para o exército respondeu-me a sorrir:
- “Olhe, fui á inspecção como todos, mas não me quiseram lá porque não tinha medidas”
Há cem anos não era obrigatório frequentar escola, mas o senhor Alexandre frequentou durante três anos a escola primária. Segundo ele lia e escrevia muito bem.
“Éramos nove irmãos e eu nem era dos mais velhos mas não podíamos ir todos para a escola” -continua ele, olhando para nós com aqueles olhos muito vivos e espertos. Uma memória incrível. Entretanto a Lúcia foi-me dizendo que o senhor Alexandre (seu sogro) já era o último dos irmãos vivos.
A D. Emília Inácia, mesmo ouvindo mal vai seguindo com atenção a conversa entre mim e o senhor Alexandre com o olhar. Ele vai falando e de vez em quando também vai deitando os olhos à sua Emília. Perguntei-lhe onde conheceu a sua cara metade, ao que ele respondeu:
-”Ela não era daqui. Veio com os pais do lugar de Paredes, que também pertence à freguesia de Refojos, granjear uma lavoura aqui em Chacim. Vivia perto da nossa casa, por isso, víamo-nos todos os dias. Assim fomos crescendo juntos mas não ficamos namorados logo que crescemos, não senhor! Ela namorou com outros rapazes e eu com outras raparigas. Éramos amigos e dava-lhe conselhos algumas vezes. Eu cheguei a namorar nove anos com uma outra rapariga mas não casei com ela! A família meteu-se… eu gostava dela!”
O Sr. Alexandre e a sua esposa Emília Inácia nas comunhões
O Sr. Alexandre e a sua esposa Emília Inácia nas comunhões
Entretanto fui perguntando se ele se lembrava dos acontecimentos importantes e trágicos que se passaram durante o século XX.
Embora fosse pequenino na altura, pois nasceu em 12 de Novembro de 1909, ouvia os pais falarem da guerra de catorze, que foi a Primeira Guerra Mundial na qual participaram alguns soldados daqui de Cabeceiras de Basto, onde passaram misérias como a fome, o cansaço e o frio com as neves.
Enquanto ele falava nessa guerra de catorze eu recordei-me de dois desses soldados que eram da Raposeira. Quem é que ainda se recorda do Senhor José “Fentelhas”, que viveu muitos anos na Raposeira, tinha muitos filhos pois foi casado duas vezes e do senhor Adriano do rio de Madanços, pai do saudoso Francisco Madanços, falecido há pouco tempo, na Raposeira? Quando éramos mais pequenotes costumávamos sentar-nos em volta deles para os ouvir contar essas histórias e até ouvi-los falar francês. Um francês “arranhado” mas, dava para perceber. Ainda me lembro muito deles, como se fosse hoje!
O senhor Alexandre lembra-se que ouvia as notícias que iam chegando meio clandestinas onde se falava da guerra “medonha” da Alemanha, na qual, pelo que lhe disseram morreram milhares.
Entre outras coisas acrescenta que também se lembra de quando apareceu Nossa Senhora aos Pastorinhos em Fátima.
- Senhor Alexandre, você com essa memória tão viva, ainda se lembra do Padre Domingos Pereira, que ainda tem família aqui em Chacim? Deve saber que o senhor Carlinhos da Lopes é neto desse revolucionário padre.
- “Então não me lembra? Tudo cheio de soldados por todo lado à procura dele e dos que andavam com ele. Mas nunca o apanharam! Acho que na altura foi fugido para o Brasil. O meu pai até contava que um dia foi à Vila, registar uma criança, e um dos soldados que por ali andavam a espreitar tudo, se dirigiu a ele e lhe perguntou o que estava ali a fazer. O meu pai respondeu-lhe que vinha registar um filho. O soldado aconselhou-o a fazer isso o mais rápido possível e voltasse para casa sem mais demoras porque “aquilo” ia ficar ruim… Era muita tropa, tanta gente… eu teria aí uns nove anos”
Continuando com o rol das lembranças confessou-me que depois de alguns namoros e alguns até com muitos anos com outras mulheres lá chegou o dia em que o Alexandre e a Emília Inácia, vizinhos da porta, resolveram levar a coisa a sério e juntarem os trapinhos.
Quando casou tinha trinta anos acabados de fazer e a Emília Inácia Ferreira tinha vinte anos. Quem os casou foi o Padre Mota Vieira, que foi pároco anterior ao Arcipreste Barreto. Segundo reza a história, já não é do meu tempo, pois nasci muitos anos depois do Padre Domingos Pereira ter morrido, foi o Padre Mota Vieira que fez o funeral ao Padre Domingos Pereira. Como devem ter ouvido falar pelo menos os mais velhos ele vivia numa casa próxima da antiga loja do senhor Carneiro, meu sogro já falecido. O meu falecido sogro contava-nos coisas desse tempo e também nos disse que foi ao funeral do padre Domingos Pereira assim como todos os vizinhos.
“Ela – continua o senhor Alexandre olhando nos olhos da sua Emília Inácia – era muito habilidosa, cozinhava muito bem, chamavam-na para todas as casas. Não dava feito a atender toda a gente!”
Eu, curiosa com estas experiencias de vida principalmente de um centenário lá ia perguntando coisas a que ele me respondia sem qualquer hesitação. E vêm as recordações do dia-a-dia:
“ Eu trabalhava muito nos campos com os meus pais. Era uma pessoa muito alegre. Era muito “advertido”. Eu cantava e dançava muito. Ia ás festas populares, iam os ranchos dos lugares e eu ia no de Chacim. Os outros ranchos gostavam e sabiam que eu cantava bem e queriam-me lá para eles, como o grupo de Riodouro. E, na nossa Igreja do Mosteiro também cantava no coro. A minha mulher não era muito dada a cantigas. Até nos bailaricos quem dançava mais era eu! Agora a voz já não me ajuda nas cantigas!”
Mas ainda assim cantarolou umas quadras da Igreja e sabia a letra toda!
Quando lhe pedi para tirar uma fotografia para ficar no jornal tirou o bonezinho de lã que tinha na cabeça para não arrefecer as orelhas, para ficar bem no retrato. Um homem brioso.
Perguntei a certa altura:
- Ó senhor Alexandre há quantos anos está casado?
Inesperadamente a Emília Inácia, que até ouve muito mal, responde de pronto, como que estranhando a pergunta:
“É fácil de ver, se tem cem anos, casou com trinta, estamos casados há setenta anos!”
Digam lá meus queridos leitores que maravilha chegar a esta idade! Têm idade, sim mas muita lucidez e qualidade de vida. Quem nos dera a nós lá chegar e nas mesmas condições.
O senhor Alexandre ainda nos foi falando de outras coisas dos seus dias. Disse que foi algumas ao S. Pedro da Raposeira assim, como ao S. João da Ponte de Pé. Lembrou a rivalidade destes dois lugares aquando das festas populares. Enfim contou-nos um sem número de coisas que não cabem todas nesta página do jornal. Ficou o importante. Ver um casal unido criando os seus filhos, verem crescer netos e bisnetos e ainda olharem nos olhos um do outro ao fim de setenta anos de união, ele com cem anos e ela com noventa e um, é na verdade enternecedor.
Fiquei contente por tê-los visitado. Espero que eles cheguem às Bodas de Platina. Chegarão se Deus quiser.
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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