Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-11-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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O Senhor Ministro da Gandarela (I)

É conhecida uma única passagem de Camilo por terras de Celorico. Aconteceu por volta de 1874 quando o grande romancista carreava informações para o seu romance histórico “Maria da Fonte”. Conseguiu abrigo e hospedagem nos solares fidalgos de Gagos e do Melhorado, na zona de Fermil, relativamente perto da Póvoa de Lanhoso, centro da célebre revolta popular de 1846 que destronou os Cabrais. Nesta sua estadia – não muito apreciada pelos hospedeiros e pela população local – bebeu a inspiração na vida, costumes e personagens daquelas zonas, que veio a imortalizar nomeadamente no “Eusébio Macário”, dado à luz em 1879. De Fermil transmudou para a Faia a célebre botica, com o seu majestoso relógio de pêndulo e o seu dono, o farmacêutico Lacerda, transformado agora no boticário da Faia. Dessa estadia também resultou “O Filho Natural”, de 1876, passado em Agilde, freguesia de Celorico, que conta os amores ilegítimos do fidalgo Vasco Pereira Marramaque com Tomasina, filha do mesmo Eusébio, agora crismado de Macário Afonso. E também criou o “Senhor Ministro” da Gandarela, ou seja, Tibúrcio Pimenta, figura principal dum pequeno romance cujo breve enredo se resume: “Ébrio e brejeiro pelas ruas de Braga, onde estuda para padre, Tibúrcio Pimenta é compincha de José Macário e interlocutor de outras personagens que vêm de Eusébio Macário. Enamorado de Amália Queirós, passa-se a Coimbra e, já causídico, logo casado, decidem viver no Porto. Por obra do tio daquela, padre João Evangelista Lopes, Tibúrcio vai a deputado e, inclusive, a ministro – mas de ordem bem particular”.
O enredo inicia-se na Gandarela, o lugar mais conhecido da freguesia de S. Clemente, passagem obrigatória das diligências, terra onde Tibúrcio vira a luz do dia, “filho de um lavrador que sulcava as leiras e roçava o mato” e de uma mãe que o aleitara “nos seios tumescentes de mãe espadarida, que metia ombros às chedas do carro e dava alor aos bois com dois gritos estridentes”.
Quando a história se inicia Tibúrcio tem 16 anos e o pai acha-o um brejeiro quando soube dumas cantigas ao desafio que o rapaz trocava com a Joana Gaitas na esfolhada do Manel d’Além e de que lhe ficara uma no ouvido:

Eu bem sei que sou magrinho;
Mas que queres, rapariga?
Se eu não posso como tu
Fazer maior a barriga!

uma farpa certeira à rapariga e ao “seu mau costume de andar quase sempre grávida de consoantes para as cantigas e de crianças para a roda”.
O que o pai não ouvira ou não percebera foi a resposta da Joana Gaitas:

Se tu não podes fazer
Tua barriga maior;
Isso tratas de arranjá-lo
Á sobrinha do prior.

A Joana Gaitas sabia de alguma coisa:
“Fosse como fosse, a trova de Joana fez pavor em todas as caras preparadas para a gargalhada. A rabeca e a viola calaram-se. A requinta ainda assobiou um guincho (…) A sobrinha do prior, que devia desmaiar, para ser verosímel, exclamou: “Olha que bêbada aquela!”. As mulheres, velhas e novas, olhavam umas para as outras, e tinham vontade de averiguar se aquilo era cantiga ou prosa de costumes”.
Dá-se uma valente desordem à boa maneira do Minho: “Rebuliço, alarido, sacholas, fouces roçadoras, engaços, estadulhos, e as mulheres a chamarem pelo Poder Moderador e pelas almas benditas”.
Na manhã seguinte, o prior, padre Santa Bárbora, soube de tudo. Nem conseguiu rezar missa. “A Francisca denunciada pela Gaitas (…) ao quarto bofetão que lhe deu o tio padre, confessou o seu erro”. O prior tenta que os pais de Tibúrcio o obriguem a casar com a sobrinha para reparação do mal feito, mas Tibúrcio nega, a mãe considera-o ainda uma donzela, e afirma que o seu destino é ser padre.
“Tibúrcio Pimenta, com sete pintos que lhe deu a mãe e num largo trote sobre a égua do pai, passou da Gandarela para a Raposeira, onde tinha um tio materno pároco, homem profundo e sério, que chamava ao sexto mandamento a “escolha do género humano”, mas era indulgente com os náufragos”.
Entra ao barulho o Dr. Viegas, industriado pelo padre-mestre, que oferece de dote à sobrinha as suas terras que valem bem quatro contos. Mas a promessa da mãe era que o filho fosse padre e que ele nunca tinha prometido casamento à sobrinha do prior: - “Quer saber o que ele lhe prometeu? Umas socas de verniz forradas de azul e um guarda-chuva vermelho na Feira de S. Miguel. Se ele me não disse isto, ainda um raio me parta”.
O reitor quando o soube, gritou apoplético: “- Pois enquanto eu for vivo, padre é que ele nunca há-de ser! Juro-lhe, doutor, pelas ordens sagradas que tenho”.
E, certo é, o casamento não se fez, nem Tibúrcio Pimenta foi padre mas foi ministro de…lá isso foi.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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