Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-11-2009

SECÇÃO: Opinião

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A IMPORTÂNCIA DO SEBO

No texto anterior, falamos a respeito dos ossos recolhidos nos talhos e matadouro e do seu posterior destino. Falemos agora das aparas e da carne rejeitada proveniente dos mesmos talhos e encaminhada para as fábricas transformadoras do sebo e gordura Alimentar.
Essas fábricas não eram locais propriamente agradáveis para se fazer visitas, já que o mau cheiro era uma constante originando por vezes conflitos entre os seus proprietários e a vizinhança. Os seus pavimentos eram ladrilhados com uma crosta de sujidade e até o acesso aos escritórios era feito através de uma passadeira de cartões. Contudo, disse-me um dia o patrão da fábrica mais importante que conheci que a sua industria era altamente lucrativa e mais não ganhava por ter dificuldade em adquirir matéria-prima embora a sua frota de viaturas fosse muito grande cobrindo uma extensa área no norte do país.
Então, a dita carne era colocada em centrifugadora a altas temperaturas, tendo a carde gorda de porco sido previamente separada para se extrair a chamada gordura alimentar. O sebo de menor qualidade era destinada para fins industriais enquanto a carne gorda de porco era mais refinada com mais higiene e devidamente embalada em blocos sem qualquer tipo de cheiro e com um aspecto bonito e cremoso, era exactamente o pingo que faziam as nossas mães e avós e a banha de porco que agora se vende em embalagens normais.
Procurei saber em que género alimentícios entrava esse produto e então foi-me dito que se destinava às pastelarias, confeitarias, lacticínios, margarinas e mais uns quantos produtos.
Era igualmente utilizada em produtos de beleza e produtos de limpeza. Certamente nunca nos passou pela ideia que ao saborear um bom pastel ou um apetitoso biscoito que na sua confecção tenha entrado um pouco de gordura alimentar.
Houve porém, algumas situações que me chamaram atenção e me levaram a perguntar o porquê? Apenas movido por mera curiosidade.
Neste caso é óbvio que estou a referir-me a um lote de algumas dezenas de barricas de 100 kgs contendo gordura alimentar. Procurei saber a quem se destinava tão grande quantidade e pelo encarregado me foi dito que essa mercadoria estava pronta para ser embarcada em Leixões e daí para os Açores. Fácil foi concluir que sendo os Açores um bom produtor de lacticínios esse produto se destinasse a esse tipo de industria. Mesmo assim nunca deixei de ser um bom apreciador do queijo “Terra Nostra” e da manteiga Milhafre.
Em dada altura passei a ir buscar sebo a uma fábrica que havia no concelho de Loures porque havia falta desse produto no Norte. Nesse tempo era extremamente difícil chegar a Lisboa porque o único acesso era apenas a EN1, e então atravessar São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Águeda, Leiria e Coimbra era um verdadeiro calvário, era fácil saber a hora de saída, mas nunca a hora de chegada.
Acontece que um dia ao chegar a essa dita fábrica dei de caras com um facto insólito. No logradouro exterior espalhados pelo chão estavam talvez três dezenas de porcos assinalados com um R a vermelho que configurava a palavra rejeitado por entidades veterinárias. Ainda bem que fiquei sem saber a que tipo de sebo se destinaram essas carcaças.
Presenciei ainda outros pequenos episódios que não merecem grandes referências porque entretanto fui criando uma certa habituação e tudo passou a estar relacionado com o meu trabalho de todos os dias.
É sabido que a saúde pública está hoje muito mais protegida e certamente não há motivos para grandes preocupações. Sabemos por experiência que o leitão à bairrada é temperado com alguma banha de porco e quem é que não gosta dum bom naco de leitão bem tostadinho?...

Por: Alexandre Teixeira

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