Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-09-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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A Casa de Olaria e o Santo da Montanha (I)

Por uma manhã ardente da segunda quinzena de Maio de 1687 desce pela estrada do Marão uma liteira, puxada por dois machos que transporta D. Lopo de Sampayo e a sua esbelta filha D. Mécia, da Casa de Anciães, descendentes do heróico 6º vice-rei da Índia. Vão para Braga – para onde famílias inteiras de Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro se deslocam – para assistir às festividades do Corpo de Cristo que se realizam a 24 de Maio, anunciadas com pompa e circunstância por todo o Norte como as mais importantes de sempre, de modo a fazer esquecer as de 1627 com que o bispo D. Rodrigo tinha sido acolhido, para tomar posse da Arquidiocese de Braga.
Quando passavam no alto por cima da povoação da Ovelhinha, “terra de cabras e de ladrões” na opinião de um arrieiro que acompanhava a liteira, uma roda da mesma parte-se e um dos muares cai ferido de morte.
Quando tentam resolver a situação, aproximam-se dois cavaleiros garbosos que se prontificam a ajudar os passageiros acidentados. Apresenta-se um como D. José de Noronha, morgado da célebre casa dos Noronhas e Távoras de Alijó e o outro, Baltazar Pereira da Silva dizendo: “Eu sou da Casa das Olarias, de Ribeira de Pena”.
O fidalgo de Anciães logo descobre que são seus primos, contando a história genealógica das suas ilustres famílias. Ao das Olarias diz: “Sei de fundamento o seu brasão. Os Pereiras da Silva, de Cabeceiras de Basto, estão ligados com a minha casa, desde que D. Genebra Pereira, filha de D. Álvaro Pereira, segundo Marechal de Portugal, casou com meu oitavo avô, senhor de Vila Flor, Lopo Pires de Sampaio”.
D. José de Noronha é um fidalgo toureador, famoso em Lisboa pelas touradas e outras aventuras, sempre pronto a comer duas boas galinhas coradas com meio presunto e dois salpicões a compor. O morgado de Olarias é circunspecto, calado, prestável. D. José cai no goto do velho fidalgo transmontano, enquanto D. Mécia olha com melhores olhos para Baltazar.
D. José de Noronha, mais apressado, resolve avançar rapidamente para Braga, ficando o morgado de Ribeira de Pena a acompanhar os viajantes. A custo D. Lopo vai-lhe arrancando alguns pormenores da sua vida, que D. Mécia, esbelta moça de vinte anos, ouve com atenção: “Tenho vinte e oito anos e estudei o pouquíssimo que sei no Colégio de S. Paulo em Coimbra[…]. Aos vinte cobrei tal fastio dos estudos, que os acabei com a mesma facilidade com que a despeito da vontade de meu pai, foi começá-los. Entreguei-me à vida de caçador, e recuperei a saúde enfermiça pelas vigílias do estudo”.
Em Braga começam as festas, grandiosas e solenes, com desfiles, procissões, cavalhadas, entremezes, danças e cantares; “as luminárias, ao escurecer eram tantas, e os artifícios de fogo tais e tamanhos, que parecia abrasar-se a cidade”.
D. Mécia começa a dar nas vistas. Fidalgos e morgados amontoam-se em redor da menina, olhando-a com olhos vesgos de amores, sendo um deles, Teixeira da Silva, um morgado muito rico de Guimarães, “senhor de três vínculos e grande peralta”.
D. José é o preferido de D. Lopo e este começa a pensar no casamento da filha como um bom negócio para salvar da ruína as torres do seu castelo de Anciães. O que D. Lopo não sabe é que Mécia e Baltazar já trocam segredos, cartas de amor e se apaixonaram.
Abreviemos. Vão-se todos encontrar em Moncorvo, em Casa de D. Francisco Sampaio, primo do fidalgo de Anciães. Sucedem-se os banquetes, os saraus, as caçadas. Numa destas o morgado de Guimarães tem um confronto com o das Olarias, saindo o vimaranense vencido e alvo de galhofas e zombarias por ter acertado num cão e não num javali que os acometera. Deixa a praça, regressa ao Minho. D. José de Noronha começa a olhar com outros olhos a prima D. Mécia. O pai da menina, conhecedor dos bens do Noronha que lhe permitiriam refazer a sua casa arruinada e reerguer as ameias do Castelo de Anciães, convence a filha a casar com D. José de Noronha.
Agoniado pela traição do amigo e da amada, Baltazar, numa noite escura, assassina com um tiro certeiro o seu amigo. A justiça, ainda que desconfiando de todos os pretendentes à mão de Mécia, nada consegue descobrir.
O morgado confessa o seu crime ao seu antigo amigo, frei António de Cristo, que está no Convento de Vila Real. Chamava-se na vida António de Mendanha, fora amigo de juventude do da Olaria e que professara devido a um desgosto de amor.
Baltazar segue o seu conselho e torna-se noviço e professa com o nome de Frei Balthazar das Dores. No entanto, não é feliz, sofre tormentos com as recordações da sua vida. Resolve ir para longe. Vai acoutar-se no convento do Funchal, na ilha da Madeira. Aí sabe que se vai dar um grande casamento na Casa do Governador, junto à cerca do convento. Todos os frades andam de cabeça no ar. Sem qualquer curiosidade, espreita para a festa. Na varanda da casa vê Mécia que é a noiva. Está radiante, feliz. Tropas que prestaram a guarda de honra ensarilham as armas junto à porta do Convento. Frei Baltazar convence um soldado a emprestar-lhe a arma por um minuto para atirar a um francelho, pequena ave que se escondia nas ramagens frondosas.
Com um tiro certeiro, atinge mortalmente Mécia. Nada se descobre. O crime fica impune. Com o pretexto de regressar ao Continente, Frei Baltazar embarca para Lisboa. O barco é assaltado pelos piratas de Argel. Mas o chefe dos piratas gosta do proceder do frade, que se transforma agora em comerciante. Casa com a filha do árabe, recebe uma imensa fortuna. A mulher morre, deixando-lhe uma filha encantadora: Fátima. Toma o nome de Ali- Fendi.
Sem mais ninguém e cheio de saudades da sua Olaria, tenta regressar a Portugal com alguns barcos. A abordagem às nossas praias torna-se difícil. A traição dum piloto que o denuncia como chefe de piratas, leva a que as canhoneiras dos portos do norte disparem contra os seus barcos. Um tiro de canhão atinge a pequena Fátima. Toda a sua vida se desmorona. Sozinho consegue nadar para as rochas duma praia e salvar-se.
Regressa a Ribeira de Pena. Ninguém o conhece, com as suas longas barbas e a sua cara crestada dos calores de África. Acolhido em casa dum pobre carvoeiro, compra um terreno agreste na serra do Bustello, no Alvão, sobranceiro à sua Casa da Olaria. Aí constrói por suas mãos um pequeno casinhoto e, para remição dos seus pecados, começa a fazer e a espalhar o bem. Nas ruínas do incendiado solar das Olarias manda erigir uma igreja dedicada ao Senhor Jesus dos Padrões.
Morre nos braços do amigo Frei António de Cristo com cheiro de santidade. O povo chamava-lhe o “Santo da Montanha”.
Sabe que este Baltazar Pereira da Silva realmente existiu e está ligado por laços familiares a Cabeceiras?
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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