Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2009

SECÇÃO: Opinião

BRINCADEIRAS DO MEU TEMPO

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Continuemos a revisitar as brincadeiras e brinquedos do meu tempo, porque acreditamos que as crianças devem crescer felizes brincando. Não é que esse tempo me traga à memória recordações de grande felicidade dado que na minha meninice os tempos eram ou buscavam alguma felicidade com as coisas mais banais e simples como simples e banal era o ambiente em que cresciam.
Nunca se varreu do meu albúm de recordações o brinquedo de que mais gostei, pois tratava-se de uma roda de ferro bastante grande que fazia a inveja dos outros rapazes. Era conduzida com uma gancheta de arame roubado num bardo qualquer que tanto dava para empurrar a roda, fazer malabarismos e até servia de travão. Com ela fazia os recados à minha mãe, ia à loja ligeirinho buscar cartuchos de mercearia que trazia numa saca. A tia Miquelina era a dona da loja que lá punha as coisas no rol através de rodinhas e riscos porque não sabia escrever, mas o seu sistema de escrita nunca falhava.
Essa roda era também o meu meio de transporte desde a Ferreirinha até à escola de Agunchos numa altura em que Cavez não tinha professor. Eram 7 Kms para cada lado, penosamente percorridos sempre a correr atrás da roda. No Inverno era terrível com o vento e a chuva gelada a fostigar-me o rosto. A capa era uma saco de serapilheira e o material escolar , uma sacola de pano, uma lousa, um ponteiro e pouco mais…
A bondosa professora D. Ermelinda quando nos via chegar nesse estado lastimoso, tudo fazia para minimizar o sofrimento dos seus infortunados alunos.
Acontecia a cada passo que de tanto correr batia com a roda nas pedras e ela partia-se, então lá ia eu choramingar para junto do ferreiro Sr. Pimenta que pacientemente a soldava e nunca paguei nada e mesmo que assim não fosse eu também não tinha dinheiro.
Um dos jogos mais emblemáticos e populares entre a rapaziada, eram os estalotes de sabugueiro. Cortavam-se pedaços de sabugueiro de 20cms e como este arbusto é oco removia-se o miolo de dentro, fazia-se uma vareta com dois diâmetros. A parte da frente da vareta era ajustada ao diâmetro do buraco do estalote e o cabo da vareta era mais grosso e de maior diâmetro para empancar no tubo e não ir além do tamanho do estalote, carregava-se com duas buchas de papel uma em cada extremo do tubo, previamente humedecidas na boca com cuspo, depois era só armar o disparo empurrando a vareta com força que expelia a bucha da frente ficando no seu lugar a bucha de trás. Quando acertava na cara do parceiro fazia doer. Era assim uma espécie de paint ball dos nossos dias, só que em vez de pintar dava um estalote devido à pressão entre as duas buchas.
O jogo do pião, ainda não extinto totalmente, era outra das brincadeiras muito usadas entre nós. Porém já não estava ao nosso alcance fazer esse brinquedo e sendo assim havia que comprá-lo, mas isso demorava algum tempo até conseguirmos juntar alguns tostões para o adquirir. Contavam-se pelos dedos os bons lançadores de pião porque era preciso algum jeito para o aparar em movimento na palma da mão ou então tentar destruir o pião do adversário dando-lhe uma galadela certeira a ponto de o escachar ao meio, sendo certo que a qualidade do esporão em ferro e também do nagalho ajudava bastante.
Hoje os piões que estão à venda são muito perfeitinhos, mas são meros objectos de ornamentação porque a pequenada não lhes liga bóia.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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