Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (109)

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O MIRANTE DO PARDIEIRO

Os montes das Torrinheiras estão para mim como Meca está para os islamitas. Direi mesmo mais, os montes das Torrinheiras estão muito mais para mim do que Meca está para os islamitas.
Os islamitas, por força do Alcorão, deverão, pelo menos, visitar Meca uma vez na vida. Trata-se de uma obrigação religiosa, um pouco à semelhança do que é o baptismo para os cristãos. Como todos sabemos, a maior parte dos islamitas, assim como a maior parte dos cristãos, são pobres, não têm meios para custear grandes viagens e, no caso dos islamitas, para se deslocarem a Meca, mesmo que seja uma única vez na vida, fazem-no, efectivamente, com enorme sacrifício.
Para mim, os montes, os vales e os planaltos, tipo “estada”, da serra das Torrinheiras, funcionam como uma autêntica terapia de choque. Sempre que me sinto deprimido, meto-me a caminho e só paro debaixo daquela carvalha, que conheço há mais de cinquenta anos, e fica próximo das alminhas a que dou o nome de “Alminhas da Cambosa”. Cambosa é a denominação que consta dos mapas oficiais e que refere o último dos três picos daquela cadeia de elevações naturais que protege o lugar das Torrinheiras dos ventos de sudoeste.
A primeira vez que por ali passei, pelo sítio onde ficam as alminhas da Cambosa, foi no dia onze de Abril de 1957. Depois de uma caminhada de quase duas horas, desde o Banido de Cima, e cerca de setenta e cinco passos à frente, na esquina daquele campo que, alguns dias mais tarde, viria a conhecer como sendo o Pardieiro, o meu pai disse:
«Olha, as Torrinheiras é acolá». Fixei a imagem que mantenho como se a estivesse a ver agora pela primeira vez, um aglomerado compacto de casas, todas cobertas de colmo, havia apenas uma coberta de telha, que sobressaía das outras, vim a saber também, alguns dias mais tarde, que se tratava do alpendre da “Casa da Nova”.
Contei oitocentos e oitenta e oito passos e chegámos ao primeiro edifício do lugar, era uma corte, atravessámos mais uns vinte e cinco passos de caminho trilhado em cima de uma laje, e vimos uma capelinha pequena do lado esquerdo. Neste momento, o meu pai perguntou a uma mulher, vestida de preto, com uma capa de burel enfiada na cabeça, que tocava um rebanho de cabras e ovelhas:
«Por favor, a senhora pode dizer-me onde fica a “Casa da Teixeira”?».
A mulher, solícita, respondeu:
«Vem trazer o rapaz? É o novo moço para o gado?»
«Vamos a ver…, mas, por favor, pode dizer-me qual é “Casa da Teixeira”?
«Ah! Sim, com muito gosto, olhe, os senhores seguem a rua, quero dizer, este caminho, até quase ao fundo, aí tem uma casa mais alta que faz uma esquina, é a Casa de Além, é a casa dos meus pais, ou seja, é a minha casa, antes dessa esquina, há um portão grande e, antes do portão grande, há um portão pequeno, ambos esses portões são da Casa da Teixeira, os senhores batem no mais pequeno que é a porta de serventia da casa…»
«Muito e muito obrigado, minha senhora», respondeu o meu pai mostrando-se cabalmente esclarecido.
Este viria a ser o meu primeiro dia de trabalho por conta de outrem. O salário tratado, com o meu pai, foi de quarenta escudos por mês. Os meus patrões eram dois irmãos, ambos solteiros e com mais de quarenta anos de idade, a Senhora Dona Joaquininha e o Senhor Manuelzinho. Durante o tempo que ali estive, como moço de gado, fui extremamente bem tratado, sempre me trataram como se fosse um filho da família.
É, exactamente por isso, que eu, ainda hoje, passado mais de meio século, continuo a ter um carinho muito especial pela terra e pelas gentes das Torrinheiras.
Na passada sexta-feira, dia sete de Agosto, o ano é este de dois mil e nove, repeti um dos meus passeios até ao sopé do pico da Cambosa. Desta vez, fi-lo mais para ver de perto o aparato dos aéro-geradores acabados de instalar no planalto da “estada”. Estacionei o carro à sombra da carvalha e dirigi-me para o local a que chamo o Mirante do Pardieiro. Pardieiro é o nome daquele campo de grandes dimensões, deve ter a área aproximada de dois estádios, que se encontra em primeiro plano, para quem se dirige no sentido do lugar. É um dos campos que, ao tempo, pertencia à Casa da Teixeira. Neste momento, tem metade semeada de milho, que está a entumecer, quase com espiga, e outra metade a restolho de segundo ano, vulgo paúlo.
Parei ali a ver o lugar lá à frente, a cerca de mil passos, agora quase todo coberto de telha. Reparei por cima e em frente, e vi as eólicas da serra da Seixa, um pouco para a direita e em plano inferior a serra de Juguelhe, um poucochinho mais para a direita e ainda mais para baixo, o pico da serra da Senhora da Graça.
«Espectacular esta plano, esta paisagem, tudo visto de cima», pensei para comigo.
Desde que foi aberta a estrada pelo lado norte do pico dos Ferreiros, o caminho que fazia a ligação entre as Trancadas e o centro das Torrinheiras encontra-se quase inactivo, apenas será utilizado para o acesso, de gado, a meia dúzia dos campos a que dá serventia. No que respeita a carros de bois, parece que já não os há, e, por isso, não se notam as marcas das chapas das cambas nos trilhos centenários marcados nas lajes da calçada.
Decidi caminhar um pouco até ao sítio onde me lembrava de ter visto uma poça, que era alimentada por uma fontela onde as vacas, mesmo apostas aos carros, paravam para beber. Tive medo que me aparecesse, a qualquer momento, atravessada nas lajes, uma daquelas cobras, com mais de três metros que por ali costumavam estar à caça de ratos e de pássaros. Felizmente não me cruzei com nenhuma.
Ao chegar à dita poça, estava um sujeito, com um chapéu de palha na cabeça, botas de quem tinha andado pelo meio do estrume dos bovinos e debruçado sobre a ponta do cabo de uma sachola. O sujeito olhava para o interior da poça e não dava pela minha presença.
«Bom diaaaa», disse eu em voz bem alta para que ele ouvisse.
Voltou-se e respondeu «bom dia, senhor».
«Então, a abrir as águas?».
«Sim senhor, vim abrir esta poça, e estou à espera que despeje para a voltar a tapar».
«Não tem engenho?».
«Tem, mas parece que está avariado, não sei se é da parte de dentro se é da parte de fora…».
«Deve ser da parte de fora, fica por baixo do caminho e não se vê, deve estar completamente atulhado…».
A conversa, deveras interessante, continuou por mais uma larga meia hora. O sujeito era o Narciso das Queiróses, de Abadim, que me disse estar ao serviço dos da Nova, há trinta e oito anos, que tem neste momento setenta e quatro de idade, que se encontra reformado com cinquenta contos (duzentos e cinquenta Euros) por mês, desde que fizera sessenta anos, e que, pelos serviços que ainda ali vai prestando, em particular o tratamento das trinta e tal vacas, recebe cama e mesa…
Disse-me ainda, o Senhor Narciso, que aquela poça, aquela fontela e o campo que lhe fica em frente, se chamam do “Extremadouro”.

Por: José Costa Oliveira

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